Paolo Rossi: entre o tempo profundo e a esperança

Mais recente obra do filósofo italiano parte de temas como a perda do sentido da história na pós-modernidade

RODRIGO PETRONIO, ESPECIAL PARA O ESTADO, RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR, PROFESSOR DA FAAP. PUBLICOU, ENTRE OUTROS, VENHO DE UM PAÍS SELVAGEM (POESIA), ORGANIZOU AS OBRAS COMPLETAS DO FILÓSOFO VICENTE FERREIRA DA SILVA (ED. É), O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2013 | 02h18

Como a natureza produz joias em seu silêncio milenar, o filósofo da ciência e historiador italiano Paolo Rossi não se cansa de produzir algumas discretas obras-primas. Em A Chave Universal, Rossi reconstrói o itinerário das chamadas "artes da memória", sistemas mnemônicos poderosos oriundos da Antiguidade e que se desenvolveram na Idade Média até atingir seu ápice com o filósofo catalão Ramón Llull, no século 13. A partir deles, Giordano Bruno conseguiu preparar as bases para a revolução da cosmologia copernicana e Leibniz teria chegado à estrutura de uma linguagem universal.

Paralelamente, A Ciência e a Filosofia dos Modernos aborda de modo dialético a relação nem um pouco óbvia entre magia, técnica e ciência, cujo ápice se deu nos séculos 16 e 17. Neste ponto, com ênfases e pressupostos distintos, Rossi se aproxima das análises da historiadora inglesa Frances Yates em sua obra clássica sobre Bruno e o hermetismo e em A Arte da Memória. Também dialoga com os estudos sobre a ciência na Renascença assinados por Eugenio Garin. O mesmo ocorre em suas obras dedicadas a um dos mais importantes pensadores experimentais renascentistas: Francis Bacon.

Em Os Sinais do Tempo, Rossi cria o conceito de "tempo profundo" para determinar o impacto que as descobertas sobre a antiguidade da Terra teriam exercido entre os séculos 16 e 17. Pensadores como Robert Hooke e Giambattista Vico, um dos diletos de Rossi, teriam delineado caminhos importantes da modernidade a partir dessa perspectiva geológica macrotemporal. Em Naufrágios Sem Espectador, sobre a ideia de progresso, e em O Passado, a Memória e o Esquecimento, temos a articulação dos vetores passado e futuro. A tensão entre ambos seria o cerne da experiência humana.

O mais recente livro de Rossi também é guiado por essa tensão. A começar pelo título: Esperanças. Editado pela Unesp, responsável por quase todos os seus títulos que saíram no Brasil, a palavra no plural indica que a esperança é múltipla. Ou seja: feita de razões e contradições. Por isso, a articulação do tema em três seções: sem esperanças, esperanças desmedidas e esperanças sensatas.

As desesperanças trazem a marca de impasses que vão das questões ambientais à atual perda do sentido da história, a que se diagnosticou como pós-modernidade. Um dos dilemas em torno da desesperança é a oscilação entre repúdio e aceitação do processo de desenvolvimento do Ocidente, intimamente ligado à globalização. Esta teria contribuído para extinguir as reservas imaginárias e as geografias edênicas, uniformizando a experiência humana do mundo e minimizando o espaço da esperança.

Mesmo nesse cenário, as esperanças desmedidas persistem. Uma consiste no deslocamento de concepções teológicas para esferas seculares. Em outras palavras, um vocabulário messiânico, seja baseado em Marx, em Hegel, no último Heidegger ou em outros autores, foi traduzido em projetos utópicos sociais que visam a um Paraíso na Terra e a uma redenção dos tempos. Por isso, no século 20, a relação entre história e profecia e entre filosofia e crenças criptorreligiosas seria mais profunda do que se imagina. Redundou em "xamãs travestidos de filósofos".

Outra perspectiva da esperança desmedida nasce da aliança entre história e ciência. À medida que a primeira ganha pressupostos científicos a partir do século 19, surgem crenças em uma salvação pela tecnologia. Ciência e discursos apocalípticos se embaralham. São os casos da biotecnologia e do transumanismo, analisados por Rossi como decorrentes da crença na "natureza dúplice" do ser humano, dado biologicamente e passível de ser transformado.

Mas quais seriam as esperanças sensatas? Rossi arrisca hipóteses inspiradas em Freud, Pietro Pomponazzi, Ludwik Fleck e no poeta Giacomo Leopardi. Entre elas, a possibilidade de viver uma desesperança sem desespero. Para isso, devemos nos manter entre o tempo profundo da experiência evolucionária da espécie e um olhar lançado em direção a um horizonte que nos será eternamente desconhecido. Ter consciência das camadas de ilusão que envolvem nossos projetos. Saber que o fracasso das expectativas pode ser uma forma de liberdade. Amar a natureza como se ama a imperfeição.

Esse é o ponto teórico mais sensível. A partir dele, Rossi faz uma crítica de todas as teorias totalizadoras. Nega a possibilidade mesma de que a história e a filosofia possam ser sistemas científicos, capazes de prever todas as variáveis envolvidas na vida humana. Lembrando a brilhante imagem de Robert Musil, a história não seria uma seta, mas uma nuvem: desliza, espalha-se, desfaz-se. Quando vemos, chegou aonde não pretendíamos chegar.

Por isso, ela não se guia por eventuais leis necessárias da natureza. Enraíza-se, sim, na precariedade e na contingência das ações humanas. Apenas assim, a partir de uma visão inconclusiva e fragmentária, podemos continuar acreditando no futuro sem que as nossas decepções tenham um preço mais alto do que nossos sonhos.

AS ESPERANÇAS

Autor:

Paolo Rossi

Tradução:

Cristina Sarteschi

Editora: Unesp (114 págs., R$ 20). Nas livrarias no

fim do mês

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