Panorama preciso da literatura alemã por Otto Maria Carpeaux

Ganha reedição obra escrita há 50 anos na qual o autor analisa filosofia, poesia e prosa da Alemanha

Luis S. Krausz - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2014 | 21h40

As contradições da história, da política e da cultura do mundo germânico fazem dele o maior dos enigmas do século 20. Em primeiro lugar, porque este mundo não se reduz a uma nação ou a um Estado, mas antecede os Estados Nacionais: é uma realidade linguística, cultural e literária cujo florescimento ocupou territórios que vão da Alsácia à Letônia e à Ucrânia, do Mar do Norte às bordas da Itália e à Romênia, e é tudo menos homogêneo. 

A clássica A História Concisa da Literatura Alemã, de Otto Maria Carpeaux, contempla o desenvolvimento do espírito alemão por meio de sua poesia, prosa e filosofia a partir da Baixa Idade Média. Publicado originalmente em 1964, o livro ganha oportuna reedição, complementada por um capítulo assinado por Willi Bolle, decano dos estudos germanísticos no Brasil, que aborda o período pós-1964, até a derrocada da República Democrática Alemã.

Carpeaux traça uma fenomenologia histórica em que Lutero surge como um dos pais fundadores: das suas traduções da Bíblia Hebraica e do Novo Testamento vem o tesouro de expressões, vocábulos e locuções com os quais se construiria o edifício das letras germânicas modernas. Ademais, a religião protestante e, posteriormente, o pietismo, serão responsáveis pela formação de um tipo de devoção particular e independente que lançaria as bases da busca autônoma pelo sublime dos românticos e clássicos alemães. “A Reforma luterana”, escreve Carpeaux, “conquistou a ilimitada liberdade espiritual do foro íntimo”. 

Goethe é o grande paradigma moderno deste processo em que a libertação do dogma se dá não à custa do achatamento do espírito e da sujeição ao materialismo racionalista, mas por meio do trabalho constante de autoaperfeiçoamento, de autoinvestigação, de cultivo da alma, bases do Bildungsroman (romance de formação) e do próprio conceito de Bildung, a formação de uma cultura pessoal soberana, completa e harmoniosa.

Este “foro íntimo” se torna como um reino de ideias platônicas e é nele, também, que floresce, a partir do século 18, o interesse crescente pela Antiguidade Clássica: a chamada Klassische Philologie (filologia clássica) alemã, como concebida por Winckelmann, pouco tem a ver com o estudo das letras que se desenvolve na Europa Ocidental. É, antes, uma espécie de cultura devocional em que o espírito helênico ressurge como fulcro de uma estética e de uma ética percebidas como imperecíveis. Virá daí, também, o que Carpeaux descreve como “o hábito alemão de evitar os conflitos da vida pública (...), deixando sua solução à sabedoria superior das autoridades e preferindo retirar-se para as profundezas da vida interior, da alma”. Este se voltar sobre o mundo interior está também vinculado ao caráter irracional da experiência do sublime e, sobretudo, ao surgimento do conceito de genialidade.

É frágil a constituição deste tecido cultural, e marcada por descontinuidades, fragmentações e incertezas. Por isto mesmo se presta, como lamentavelmente demonstrou a história, às falsificações e simplificações grosseiras de grandes oportunistas e tiranos. Sobretudo porque, no seu avesso, irrompem os antigos mitos e crenças do paganismo, que se contrapõem às ideias cristãs numa cultura de heroísmo marcada por sentimentos ferozes, pela severidade de um código de honra e pela falta de escrúpulos morais. Talvez seja Ernst Jünger, no século 20, o escritor em quem tais contradições alcançam o paroxismo: seus romances combinam, “de maneira incoerente, o nacionalismo e o cosmopolitismo estético, o heroísmo e a tecnocracia, e violência física e a nobreza da alma, o aristocratismo e o neobarbarismo”.

As saudades do antigo mundo germânico marcarão, também, a obra dos românticos tardios, no fim do século 19, na filosofia de Nietzsche ou na poesia de Stefan George, e serão retomadas por Hermann Hesse: em plena Segunda Guerra Mundial, ele continua a sonhar com o idílio das cidades medievais e com a calma apolítica dos homens introvertidos.

A fineza de julgamento, a sutil ironia e a enorme erudição de Carpeaux – que aparecem, para citar um exemplo, em frases como a que descreve a poesia de Salomon Gessner (1730- 1788): “Está hoje totalmente esquecido: um dos muitos túmulos sem nome na história da literatura universal” – tornam a leitura deste livro fluida e instigante. A cultura alemã aqui surge como uma nuvem em permanente transformação sobre diferentes territórios da Europa, moldada pelos ventos da história tanto quanto pela genialidade de autores cujo espírito se impõe sobre seu próprio tempo. 

LUIS S. KRAUSZ É ESCRITOR E PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA E JUDAICA NA USP

A HISTÓRIA CONCISA DA LITERATURA ALEMÃ

Otto Maria Carpeaux

Tradução: Edna Adorno e Bete Abreu

Editora: Faro (291 págs., R$ 39,90)

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