Panorama de um processo ficcional

Publicação de Nêmesis e de Zuckerman Acorrentado acentua fases distintas da trajetória de Philip Roth

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2011 | 00h00

Não restam dúvidas: Philip Roth é o melhor escritor de expressão inglesa em atividade. O domínio da arte do romance é mais completo e articulado em Ian McEwan e Don DeLillo, o arrojo de linguagem mais muscular em Cormac McCarthy, as inovações formais mais pristinas em JM Coetzee; no entanto, Roth ocupa o proscênio por seus livros recentes terem maior impacto emocional - ainda que gravitem em um universo específico, os dramas de seus personagens, a maneira como lidam com a impotência, a doença, a frustração atingem com força os leitores.

A publicação de Nêmesis, a última narrativa de Roth, comprova fartamente essa fatura sensível. Contudo, Zuckerman Acorrentado, uma coletânea de fluentes romances de Roth que chega ao mesmo tempo às livrarias, mostra um outro lado e demonstra por que no final da década de 1980, mesmo com quase 20 livros publicados, Roth era mais respeitado como editor de uma vigorosa coleção de autores do Leste Europeu do que por sua ficção. Era, na melhor das hipóteses, um escritor pedestre.

Bastaram dois livros para mudar essa equação. Primeiro, Operação Shylock (1993), uma das grandes obras do humorismo. Philip Roth, recuperando-se de uma recente operação de joelho, descobre que em Israel Philip Roth, um duplo, defende agressivas políticas a favor do retorno dos judeus aos seus países de origem. Roth parte para Israel - e uma aventura histérica se inicia, que culmina com o escritor integrando uma equipe da polícia secreta israelita. Em 1995, dois anos depois, Roth publicaria sua obra-prima: O Teatro de Sabbath. Trata-se de um poderosíssimo romance erótico: Sabbath, o protagonista, é um orgulhoso fracassado em tudo, menos na arte do sexo. A morte de sua amante mais dedicada e depravada o coloca diante do vazio de sua existência. O pornógrafo, desprovido de sua amante favorita, vai se desfazendo diante do leitor até o final mais trágico possível. Com esse livros, Roth acessou uma nova fronteira em temas que sempre estiveram na sua obra, mas nunca alcançados com tamanha energia.

Aos 62 anos, idade em que muitos escritores estão fechando sua obra com livros mornos, Philip Roth iniciou sua melhor fase criativa. Entretanto, como narrador de seus próximos três espetaculares romances - Pastoral Americana, A Marca Humana e Casei com um Comunista -, Roth recupera Nathan Zuckerman, protagonista-narrador da coletânea Zuckerman Acorrentado, que reúne três romances e uma novela publicados entre 1979-85 - e que nem de longe possuem o vigor emocional e estético da Trilogia Americana.

Essas narrativas encenaram três momentos clichês da vida de um escritor. O primeiro deles, O Escritor Fantasma, explora o aprendizado, e a relação entre um autor jovem com aquele cuja obra está no fim. Mais até: Roth coloca em cena também a forma algo alienada como duas gerações de judeus, aqueles que sofreram diretamente o Holocausto e os que a experimentaram por meio de testemunhos, convivem e dialogam.

O segundo romance, Zuckerman Libertado, explora a celebridade: após a publicação de Carnovsky, um romance escandaloso, Zuckerman tem que lidar com o pesadelo da notoriedade: a avalanche de críticas, a confusão entre a vida de seu personagem e a sua, a crise com a família, as intrigas do mundo literário. O último romance encena uma outra imagem clichê: em Lição de Anatomia, Zuckerman se encontra em bloqueio criativo. Uma misteriosa dor no pescoço impede que se concentre; afastado de sua atividade primordial, resta apenas recobrar sua vida. O recente divórcio o martiriza, o falecimento de seu pai o atormenta, as coisas que deixou de fazer lhe pesam.

De certa forma, a trilogia faz um arco completo: o que é o escritor quando apenas deseja escrever; o que ele é quando consegue escrever aquilo que desejou; e como se sente quando a experiência não lhe brinda com um novo livro. A pequena novela A Orgia de Praga, que se alimenta diretamente da experiência de Roth como editor de livros do Leste Europeu, é uma comédia fina e cáustica: Zuckerman parte para a Checoslováquia em busca de um manuscrito iídiche apenas para esbarrar na burocracia e na ignorância dos agentes culturais de Praga. Conforme ele sobe nos departamentos culturais em busca da liberação dos manuscritos, a comédia se afina, culminando no absurdo encontro entre Zuckerman e o ministro da Cultura.

A publicação simultânea de Nêmesis e Zuckerman Acorrentado revela, contudo, o que havia de mais frágil no Roth jovem: a carência de drama humano que justificasse tantas páginas. Nêmesis possui o melhor do Roth maduro: um enorme senso de economia narrativo, um estilo direto e fluente, e uma clareza tanto de trama quanto de arco dramático da personagem. Bucky Cantor tem uma frustração: por um problema de visão, é dispensado do exército, algo que o envergonha já que se sente diminuído por estar em solo americano enquanto amigos e colegas morrem no front. O que ele não esperava é que algo mais violento estava em seu encalço: uma epidemia de pólio que devasta as crianças de sua comunidade. Responsável pela recreação infantil, Cantor assiste a uma carnificina: sem armas, sem ter como defendê-las, ele presencia a paralisia e morte de dezenas de crianças. E sem ter onde se apegar, a comunidade delira com fantasias religiosas de um castigo divino. Cantor agoniza diante do leitor: o que pode um homem diante desse inimigo invisível? A epidemia surge como por uma espécie de capricho, alijando centenas de crianças, e desaparece, criando um quadro de total impotência - como se defender daquilo que não se anuncia? Um livro imperdível e poderoso, que em poucas páginas torna o leitor prisioneiro de uma experiência terrível e que, pela forma como Cantor não desiste de lutar, iluminadora da capacidade de redenção humana.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

NÊMESIS

Autor: Philip Roth

Tradução: Jorio Dauster

Editora: Companhia das Letras (200 págs., R$ 36)

ZUCKERMAN ACORRENTADO

Autor: Philip Roth

Tradução: Alexandre Hubner

Editora: Companhia das Letras

(552 págs., R$ 49)N

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