Evelson de Freitas/ AE
Evelson de Freitas/ AE

Panorama da Arte Brasileira conduz visitante pelo tema viagem

A questão do deslocamento é tratada de forma poética ou irônica na mostra 'Itinerários, Itinerâncias'

MARIA HIRSZMAN, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2011 | 03h07

É o tema da viagem que conduz o visitante pela 32.ª edição do Panorama da Arte Brasileira. Intitulada Itinerários, Itinerâncias, a mostra, que será aberta amanhã no Museu de Arte Moderna de São Paulo, reúne obras de 38 artistas que lidam com a questão da mudança, do deslocamento no espaço e no tempo, que assume uma importância central na vida contemporânea e é ainda mais mobilizadora na cena artística, se levarmos em consideração a enorme dispersão geográfica do próprio circuito de criação e exibição das obras. Como destaca Cristina Tejo, que assina a curadoria com Cauê Alves, há uma "impressionante urgência de trânsito e deslocamento pelo mundo nessa primeira década do século", que se substancia numa impressionante multiplicação de circuitos de troca e de residências artísticas.

Os fios condutores da exposição são múltiplos e tortuosos. Convive no espaço do museu - que parece mais amplo por causa do desenho arquitetônico proposto por Marta Bogéa, que reativa a porta de saída da instituição e estabelece assim uma maior fluidez do espaço - uma gama bastante ampla de investigações e linguagens. É possível dividir os trabalhos entre aqueles que remetem de forma mais direta à questão do deslocamento e os que lidam de maneira mais indireta, velada, com as questões da mobilidade e transitoriedade. Mas um ponto em comum que parece atravessar praticamente todas as obras selecionadas é uma mescla potente entre experiência pessoal do artista e produção de um discurso plástico. Em outras palavras, são discursos que exprimem não uma narrativa qualquer, mas uma vivência íntima, particular e única do artista.

O trabalho de Cildo Meireles, Arte Física: Cordões/ 30 km de Linha Estendidos (1969), é exemplar nesse sentido. A maleta que contém o cordão com o qual o artista percorreu - como uma espécie de Teseu moderno - o litoral do Estado do Rio de Janeiro funciona como testemunho e produto desse esforço de mapeamento e de ocupação poética do território. De maneira similar, estão as obras do carioca Ducha, que viajou os 400 quilômetros da antiga Estrada Real (que une Ouro Preto ao Rio de Janeiro) na companhia de um burrico e registrou o trajeto em mapas e comentários bem-humorados; os vídeos de Oriana Duarte, em que se mostra, sempre de costas, remando pelos rios de diversas cidades brasileiras; de Marcelo Coutinho, ao redescobrir as obsoletas paisagens ferroviárias pernambucanas; ou de Virgínia de Medeiros, que viajou pelo sertão da Bahia recolhendo histórias com sua Kombi Catarina, para depois trazer o carro para dentro do espaço expositivo transformado em sala de projeção dos vídeos e depoimentos.

A obra de Paula Sampaio, mineira radicada no Pará, também reverbera de maneira intensa essa questão do percurso poético e de descoberta (fundamental na arte brasileira desde seus primórdios, com as investigações dos artistas viajantes). Há décadas ela se dedica a percorrer e fotografar o povo e a paisagem das estradas Belém-Brasília e Transamazônica. A dificuldade de apresentar um recorte dessa profusão de imagens, nas quais a fotógrafa diz procurar registrar "essa vida que migra para sempre, sem nunca voltar igual para qualquer parte", levou os curadores a sintetizar esse processo em dois elementos singelos: uma foto de uma estrada de terra sem começo ou fim precisos e um pequeno mapa do Brasil recortado em madeira sobre o qual a artista deixa marcado os rios, as estradas e o percurso tantas vezes repetido.

Duas outras características comuns parecem permear o recorte proposto para o Panorama 2011: a presença de um olhar bem-humorado sobre o mundo, que se reflete em trabalhos irônicos como Lotes Vagos, de Louise Ganz e Breno Silva - que propõem a transformação e ocupação de lotes urbanos vazios -, ou o vídeo do coletivo baiano GIA. E a força de um olhar singelo e poético como o trenzinho de brinquedo do paulistano Cadu, que toca música ao tocar nos copos de cristal espalhados ao longo de seu percurso, ou o teatro de sombras e memórias proposto por Nicolás Robbio.

Além das pinturas, instalações e vídeos que compõem o corpo da mostra, Itinerários, Itinerâncias também propõe uma série de desdobramentos complementares, que envolvem a participação dos artistas em áreas do museu, como a biblioteca e o serviço educativo; a realização de atividades na área externa do parque - dentre as quais se destaca a montagem da Cicloviaérea, projeto de Jarbas Lopes de 2003 -, bem como a realização de ciclos de debates e mostra de filmes.

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