Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Pânico no palco com trio de gigantes

Atores constroem um monumento com As Três Velhas, de Jodorowsky

Crítica: Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2010 | 00h00

Três temas perseguem o poeta, cineasta e dramaturgo chileno Alejandro Jodorowsky desde que decidiu trocar sua terra natal por Paris, aos 26 anos, em 1955: a dependência, a abdicação da individualidade e a transcendência. Em todos os seus filmes, histórias em quadrinhos ou peças, seus personagens passam sempre por um ritual de purificação para chegar à reconciliação - consigo e com os outros. Todos, invariavelmente, carregam traumas provocados por fantasmas da infância. No filme El Topo, é o garotinho nu que segue o pai pelo deserto bíblico, obrigado por ele a enterrar na areia a fotografia da mãe. Em A Montanha Sagrada, são os burgueses arregimentados pelo alquimista, forçados por ele a abdicar da identidade e dos bens acumulados para segui-lo até o pico de uma colina que garantirá eternidade a todos. Assim, não poderia ser diferente em sua peça As Três Velhas, exercício vigoroso de interpretação do universo de Jodorowsky, um dos criadores do Movimento Pânico em 1962, ao lado do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal e do pintor surrealista francês Roland Topor.

Em As Três Velhas, mais uma vez, seguindo a inversão jodorowskiana da Trindade cristã, é a mãe que vira o cordeiro pascal. O pai já morreu há muito tempo, é apenas um fantasma numa mansão arruinada em que duas irmãs gêmeas octogenárias e mortas de fome tentam sobreviver ao lado de uma criada centenária. A nostalgia desse pai, tirano incestuoso que violentava as filhas, se explica tanto pela relação conflituosa do autor com o pai e a mãe como pela rebeldia religiosa de Jodorowsky - filho de judeus russos que flertou com o cristianismo, foi orientado por um budista, acreditou no LSD e hoje confia mais no tarô.

Jodorowsky foi concebido com ressentimento e ódio pelo pai comerciante e a mãe traidora de nome improvável, Sara Felicidade. Pelo menos é o que conta em A Jornada Espiritual de Alejandro Jodorowsky. Morto de raiva por ter sido trocado por um freguês, seu pai Jaime espancou e estuprou a mulher Sara, levando à brutal concepção de Alejandro. Não é sem razão que o filho criou com o colega Arrabal a estética do Pânico - que tanto pode sugerir terrorismo teatral como adesão à divindade pastoril Pan, sexualizado ao extremo pelo cruzamento híbrido entre animal e homem. Digamos que, nos anos 1960, época de happenings e performances, predominou o terrorismo: os atores do Panique, herdeiros do "teatro da crueldade" de Artaud, divertiam-se atirando fígado de animais no público ou crucificando galinhas no palco. Esse tempo passou: Jodorowsky, hoje um psicoxamã, um terapeuta de almas, está mais velho e sábio.

Maria Alice Vergueiro, que começou na cena underground, fundando com Cacá Rosset e Luiz Galizia o grupo Ornitorrinco nos porões do Oficina, também encontrou a serenidade. Sua direção de As Três Velhas é segura o bastante para incluir uma autoparódia - ela, que fez de Molière a Brecht, acabou, por ironia, ficando popular entre a garotada pelo curta Tapa na Pantera, que circulou no YouTube, em que interpretava uma distinta senhora maconheira. Assim, a solução encontrada para matar a fome das três velhas de Jodorowsky foi transformá-las em propagandistas de um refrigerante.

Tudo na montagem de As Três Velhas é rigorosamente estudado para ser fiel a Jodorowsky, da simetria do cenário, dividido pela figura onipresente do pai conde - tapetes orientais carcomidos que sugerem a decadência da mansão - à iluminação, que reforça o grotesco das situações - desde um fellatio explícito num cavaleiro mascarado a um ritual de antropofagia. Grotesco e simbologia religiosa se misturam com muito humor nessa busca de transcendência provocada pela carência física e fome ancestral dessas velhas - todas projeções dos fantasmas de Jodorowsky, aconselhado por seu guru budista Ejo Tanaka (1928-1997) a exercitar seu lado feminino. Não é, portanto, gratuito o fato de serem gêmeas as duas irmãs, para reforçar ainda mais sua obsessão pela simetria.

Dois atores excepcionais dividem o palco com a diretora Maria Alice Vergueiro (a criada), Luciano Chirolli (Melissa) e Pascoal da Conceição (Graça). O despojamento de ambos impressiona. Emociona o delírio de Melissa com o fantasma do pai e a volta de Graça, estropiada e assaltada após o baile onde deveria reinar como rainha. São momentos como esse que marcam a história do teatro brasileiro. Absolutamente sublimes.

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