Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Pandemia estimula trabalhos voluntários e espalha solidariedade em meio ao caos

Pessoas se engajam pela primeira vez em projetos ou fortalecem atividades que já vinham fazendo; psicólogos explicam que momentos de caos sempre despertam mais vontade de ajudar

Ludimila Honorato, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2020 | 10h39

A solidariedade e a chance de aprender com a história do outro têm feito parte da vida de quem se dispôs a fazer trabalhos voluntários durante a pandemia do novo coronavírus. Enquanto alguns se organizam sozinhos para iniciar projetos de doação, outros fortaleceram a conexão que já tinham com a atividade e passaram a contribuir ainda mais. Pode até ser estranho dizer, mas é justamente em meio ao caos que mais vemos florescer a esperança, que faz parte do Dia Nacional do Voluntariado, celebrado nesta sexta-feira, 28.

A crise de saúde global que fez milhões de brasileiros perderem total ou parcialmente a renda e às vezes não terem dinheiro para comprar comida incomodou o casal Francisco e Ananely Cattosso, que moram na zona leste da capital paulista. Em 2 de abril, eles publicaram um vídeo no Instagram convidando pessoas a colaborarem com doações para montar cestas básicas que seriam entregues a algumas famílias necessitadas. “Nós nunca participamos de nenhum trabalho voluntário. Tínhamos essa vontade, mas não sabíamos por onde começar. Até que aconteceu essa situação da pandemia”, relata o técnico de enfermagem, de 36 anos.

O despertar para a ação foi saber que, após o fechamento da escola estadual onde a mãe dele é coordenadora, por causa da pandemia, muitas crianças ficaram sem a merenda e, portanto, com menos comida. Ele conta que as famílias entravam em contato com a instituição de ensino para saber se havia sobrado algum alimento. Sensibilizados, ele e a esposa resolveram fazer algo para ajudar. “Nossa ideia era conseguir 50 cestas e no final foram cerca de 250.” A entrega foi feita no dia 10 de abril no estacionamento da escola.

A ação que teve início na pandemia representa os muitos interessados em contribuir nesse momento de desordem social. Um indício de que o engajamento solidário é maior em momentos difíceis é o levantamento feito pela plataforma de voluntariado Atados. Entre 16 março e 30 de junho, o site registrou aumento de 113% nos acessos e 12% nas inscrições para trabalho voluntário em comparação ao mesmo período de 2019.

“Isso é muito um reflexo da crise de saúde pública, que gerou movimentos em muitos cantos e as pessoas foram sentindo essa necessidade de contribuir de alguma forma. Isso te tira um pouco da zona de conforto e traz sentimento de compromisso social, de identificar que estamos todos conectados e que cada um está sofrendo de alguma forma os efeitos dessa pandemia”, avalia Beatriz Carvalho, coordenadora de relacionamento com ONGs e voluntários da Atados.

Picos de engajamento como esse também foram vistos em duas ocasiões específicas do ano passado: quando o rompimento de uma barragem em Brumadinho deixou 259 mortos e 11 desaparecidos e diante das manchas de óleo que se espalharam por praias do Nordeste. “A gente fez uma ativação local, que trouxe sentimento da crise, da catástrofe, sentimento de que precisava fazer alguma coisa. A gente criou campanha pensando em como poderia apoiar com a rede de voluntários”, explica Beatriz. Embora houvesse um chamado para essas ações, a disponibilidade das pessoas em colaborar foi significativamente positivo.

Neste ano, uma das pessoas que atenderam ao chamado para colaborar com trabalhos voluntários durante a pandemia foi a estudante Yasmin Wicher Damasceno, de 23 anos, que mora em Catanduva, interior paulista. “Comecei na Atados entre março e abril em vários projetos. Atuei no Faladores, em que a gente tinha de mapear ONGs interessadas em se cadastrar na plataforma, falar com elas, entender do que precisavam. Também me inscrevi em um para enviar cartas para idosos em asilos e para profissionais que continuam trabalhando durante a pandemia, e outro em que se um vizinho seu do grupo de risco precisasse de ajuda para ir em algum lugar, você vai”, conta a jovem.

Além do envolvimento com a plataforma, ela segue com ações que já vinha fazendo há alguns anos, como recolher cartelas de medicamentos vazias e tampinhas de plástico. Ambas são monetizadas e o dinheiro é usado para fabricar cadeiras de rodas e pagar ração, vacinas e cuidados com animais resgatados em um pet shop.

O levantamento da Atados mostra que, no período analisado de 2019, 27% dos voluntários eram homens enquanto, neste ano, eles representam 45%. O incremento também foi visto na faixa etária de 18 a 24 anos: passou de 14% para 35% dos inscritos. “Eu acho que os dois aumentos são causados pelo mesmo efeito, dessa onda de solidariedade, incômodo que pessoas sentiram e se viram nesse compromisso de agir. E acho que o fato de as pessoas estarem mais em casa contribui também, principalmente o jovem, que perdeu o convívio social”, avalia Beatriz.

Ajuda na distância

A quarentena também veio para desmistificar a ideia que muitos têm do voluntariado, que seria apenas se deslocar até uma instituição e prestar algum serviço. O fato de muitos trabalhos poderem ser feitos remotamente é um facilitador e, nesse momento, também justifica a maior adesão das pessoas. O trabalho voluntário online teve aumento de 252% no site este ano comparado a 2019. Alguns exemplos são gerir as redes sociais de um ONG ou criar e monitorar um financiamento coletivo na internet.

“A pandemia trouxe um momento de reinvenção do setor social, de como a gente consegue continuar nossa missão remotamente. Hoje tem brasileiros que moram no exterior contribuindo com projetos aqui”, diz a coordenadora. Mas não é preciso ir muito longe para encontrar um exemplo como esse. Morando em Salvador há três anos, a engenheira Fernanda Bing, 45, já vinha acompanhando o trabalho da Atados desde fevereiro e guardava dentro de si a vontade de atuar de forma mais ativa com trabalhos voluntários, algo que fazia esporadicamente em São Paulo.

Certo dia, viu uma publicação da entidade falando de um projeto de expansão na capital baiana. Logo, ela entrou em contato e se dispôs a ajudar. “Começamos a conversar sobre fazer mapeamento das ONGs aqui e a ideia era elas virem fazer visitas, mas veio a pandemia”, conta Fernanda. Isso não foi motivo para desanimar. Ela continuou entrando em contato com as instituições, avaliando as necessidades e repassando para a equipe da Atados. “Com essa gama de voluntariado a distância, foram-se abrindo oportunidades para aqui. Os voluntários são de várias cidades. Uma menina de São Paulo ajudou a fazer vaquinha online para uma instituição daqui.”

'Trabalho voluntário é um caminho sem volta'

Francisco Cattosso, que junto com a esposa e mais cinco amigos deram início ao projeto Parceiros em Ação, começou a ser procurado por pessoas que não haviam contribuído com a primeira doação de cestas básicas e queriam ajudar de alguma forma. Vendo a corrente solidária se formando, o grupo encontrou mais uma comunidade na zona leste da cidade para ajudar, formada por 300 famílias.  

“Depois a gente pensou: ‘por que não fazer algo na rua?’. Foi aí que fizemos a primeira sopa, juntamos nossas condições, e partimos para entregar a moradores de rua. Desses eventos, já fizemos macarronada, lanche, e ocorre a cada 15 dias. As cestas são mais pontuais, quando alguém fala que está com grande quantidade (de doação) ou o doador vai com a gente ou a comunidade pede urgência”, explica o técnico de enfermagem. Segundo ele, esse “trabalho voluntário é um caminho sem volta” e é um bom caminho.

O profissional relata que a maior motivação foi ver que, apesar de o País estar “virado de ponta cabeça”, eles podiam ajudar de alguma forma por não terem sido afetados de forma mais intensa. “Mesmo com salário reduzido, não faltou nada aqui. Por que não ajudar?”, ele instiga. Francisco conta que o trabalho feito nas ruas também ajudou a olhar para as pessoas em vulnerabilidade de outra forma e, em algum ponto, aprender com suas histórias.

Por que somos solidários?

A neuropsicóloga Gisele Cortoni Calia explica que a solidariedade é uma atitude baseada em um sentimento mais coletivo, ou seja, de bem-estar comum. “Ela é fruto desse desejo de ver o outro bem, então entra a empatia, questões de buscar o bem comum. Assim, é natural que esse desejo aflore quando há mais pessoas sofrendo ao nosso redor”, diz.

Isso ajuda a entender também o porquê desse sentimento, aparentemente, não se expressar de forma mais intensa fora de uma situação de desastre. “Um vírus que não conhece fronteiras e não distingue população é muito mais percebido como mais perigoso e desperta mais nossa solidariedade do que uma tragédia que acontece próxima geograficamente, mas não nos atinge diretamente”, comenta a especialista.

O psicanalista Leonardo Goldberg, doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo, usa uma boa metáfora para entender esse comportamento humano. “É como se a gente lidasse com um rasgo e tentasse costurar. Um dos mecanismos é a solidariedade, porque a gente passa a tratar não com a lógica da diferença, mas da semelhança”, diz. Esse rasgo no tecido da ordem social acaba por embaralhar nossa noção de organização social e é como se sentíssemos no dever de fazer algo para reparar essa desordem a fim de que tudo “volte ao normal”.

“Mas o que é normal e o que é volta?”, questiona ele. Mesmo diante do caos da pandemia, as pessoas têm tentado se reorganizar no cotidiano e esse é, segundo Goldberg, um mecanismo que naturalmente as pessoas fazem como “única possibilidade de viver tranquilo em ordem social”. O especialista comenta que momentos de conflito sempre acabam por despertar movimentos positivos, como os períodos pós-guerra, em que os países e as pessoas se comungam.

Outro ponto que se discute em termos de solidariedade é a ideia do quanto esse ato pode retornar para a pessoa que o pratica. Isso se torna mais plausível na crise global do novo coronavírus, que desconhece fronteiras e classes sociais. “Existe um pensamento de que se eu precisar em algum momento, essa noção de responsabilidade minha vai retornar para mim. A identificação com o tio do amigo que faleceu no hospital, sem comorbidade, é maior”, diz o psicanalista.

Há ainda o bem-estar gerado, segundo explica Gisele. “Isso está ligado à produção de dopamina (hormônio do prazer). Os atos de solidariedade são tão importantes para a sobrevivência da espécie humana que o cérebro produz sensação de bem-estar, e tudo que gera sensação de bem-estar tende a se repetir mais vezes. Se eu, ao fazer um ato benéfico ao outro, sinto bem-estar, a probabilidade de repetir esse ato aumenta”, diz.

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