FELIPE RAU/ESTADAO
FELIPE RAU/ESTADAO

Pandemia deixa moradores saudosos dos lugares clássicos

Ruas, esquinas, praças, espaços e lugares que antes estavam ao alcance de uma caminhada, de uma viagem de metrô ou de aplicativo agora parecem quase tão distantes como um país estrangeiro

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2021 | 05h00

Para além de todo o medo e da ansiedade, a pandemia da covid-19 tem feito com que a gente sinta falta daquilo que sempre nos foi tão familiar: a nossa própria cidade. Ruas, esquinas, praças, espaços e lugares que antes estavam ao alcance de uma caminhada, de uma viagem de metrô ou de aplicativo agora parecem quase tão distantes como um país estrangeiro. Por isso, hoje, vamos falar de saudade... 

Por onde anda a saudade de Maida Novaes, cantora e produtora dos Trovadores Urbanos, projeto que acabou de completar 30 anos de existência? “Se tem um lugar que sempre me provocou uma felicidade absoluta e imediata é a 25 de Março (rua de comércio popular no centro de São Paulo)”, confessou.

Maida recorda os dias em que andava pela região atrás de tecidos, rendas, botões, bijuterias e outros que tais para os figurinos de suas apresentações. “Tenho uma relação afetiva com a 25 de Março. Conheço todas as lojas. Lembro de comprar luzinhas de Natal, cataventos, cintos para uma fantasia de Papai Noel”, enumera. 

Já o ator e diretor de teatro Régis Santos está com saudade de frequentar e viver a vida cultural e os teatros da Praça Roosevelt, também na região central. “Me toca profundamente a saudade dos teatros e da plateia. É uma arte muito afetada pela pandemia, uma arte do encontro, do coletivo”, falou. 

A Praça Roosevelt é o lugar que mais representa essa saudade na vida de Santos. “Gosto do clima, gosto dos grupos de teatro independentes, das oficinas, sinto falta do clima de companheirismo”, disse Santos. Em especial, ele sente falta de espaços como o Satyros 2 – onde já se apresentou com o próprio Satyros e com a Companhia Teatro X.

O que tem apertado o calo da saudade de ‘Paulão’ de Carvalho, líder da banda Velhas Virgens e autor do recém lançado livro Os 12 Homens do Samba é a falta que faz assistir a um jogo na Arena Corinthians (Neo Quimica Arena), também apelidada carinhosamente como Itaquerão. “Fui a muitos jogos do Timão na Arena. Tenho uma galera que sempre se encontrava no Shopping Itaquera para fazer o esquenta para os jogos”, disse.

Paulão visitou a arena quando ela ainda estava sendo construída, assistiu ao primeiro jogo amistoso disputado no estádio e já levou sua filha menor para aprender com ele o amor pelo Corinthians.

Restaurantes. A ligação afetiva com pontos da cidade faz a saudade gritar ainda mais alto. Veja o caso do mineiro e dono de restaurante Geraldo Magela Carneiro, que desde que a pandemia voltou a apertar, tem evitado passear pela sua querida Avenida Paulista. “Nos anos 70, quando cheguei em São Paulo, morei com meus irmãos na Paulista. A gente escolheu a Paulista porque lá era um lugar mais fácil de achar emprego na cidade”, contou.

Magela disse que um dos seus maiores prazeres é andar pela Paulista. “A última vez que fiz isso foi durante a eleição. Voto na região. Então, depois de votar, sai andando pela avenida e tirando foto das pessoas e lugares”, disse. Voltar a caminhar por um dos maiores símbolos de São Paulo é o objetivo de Magela – que acaba de tomar a segunda dose da vacina contra Covid. 

Uma saudade recorrente de quem vive em São Paulo é dos eventos ao ar livre, dos shows, carnavais e da possibilidade de aglomeração. Márcio Esher, sócio-diretor da empresa de marketing de experiência, a Holding Clube, cita dois locais emblemáticos para o seu tipo de negócio: o Largo da Batata e o Anhangabaú. “Essa possibilidade de entretenimento em lugares públicos e abertos é a cara da cidade. Minha saudade é essa. Mas sou otimista. Acho que até o final do ano, vamos retomar os espaços públicos”, disse. 

Shows e noitadas. Casas de show, restaurantes, bares e museus estão entre as principais saudades deste período. A sommelier Mikaela Paim, por exemplo, diz que de “todos os lugares incríveis que costumava frequentar”, o seu refúgio preferido era o Jazz B (casa de jazz no centro de SP). “Era onde eu ia curtir um bom drinque e ficar em silêncio para admirar o excelente jazz nas noites de terça”, lembrou.

Já Cecília Nagayama, dona de restaurante, tem saudade de museus e de suas lojinhas: “Tenho muita saudade da Pinacoteca. As exposições são ótimas, sempre traz temas brasileiros que são muito interessantes. O último que pude ver foi Os gêmeos. Sinto falta também das lojinhas de museu. Troco por qualquer loja de rua ou shopping. As melhores são do Masp e do Tomie Ohtake”, enumerou.

Natural que nesta onda de saudade, os músicos sintam falta dos lugares em que se apresentavam ao vivo. “Sinto falta das casas de show daqui de São Paulo, como a Kingston, de andar livremente pelos lugares. A lembrança das apresentações que fiz no Sesc Paulista me acompanha. Penso muito nas praias lindas perto da capital. Mas a mais forte saudade com a qual convivo é de estar nos palcos, levando a energia para o público”, falou Hélio Ramalho, músico cabo-verdiano, residente em São Paulo.

O também músico Ivan Staicov segue a mesma linha: “Saudade de tocar no Bona sexta e no Kingston sábado (casas de show). De tocar na rua antes e depois do show. De ficar dando horas de risada de qualquer coisa enquanto a gente secava um litro de algum drink ao relento”, disse.

Nem só artista sente saudade da vida da São Paulo pré-pandêmica, advogados, gerentes, engenheiros, jornalistas também. “O lugar do qual sinto falta nesse período mais restritivo da circulação é o Caruso Lounge. Um jantar bacana, seguido da degustação de bons charutos, e claro, em companhias de amigos, clientes ou parceiros, realmente davam um respiro na rotina. Está fazendo falta”, disse o advogado Jonathan Mazon. 

O também advogado Henrique Erbolato lembra de uma saudade que deve estar “pegando” para muita gente. “O que mais sinto falta são as padarias, especialmente nos finais de semana! Seja para uma parada pós treino de bike, seja para tomar um café da manhã sem hora com a namorada e encontrar pessoas do bairro pelo caminho”, disse.

Outra saudade clássica quem confessa é o gerente de marketing Arthur Beppler: “Eu ia ao cinema pelo menos uma vez por mês. Como sempre optava pelos cinemas da Rua Augusta, ou o Reserva Cultural na Avenida Paulista, sinto falta não apenas de assistir aos filmes, mas também do clima desses lugares, de observar as pessoas indo e vindo e, claro, da pipoca!”, comentou.

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