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Pandemia, comportamento e cura

No Brasil, sabemos que os mandões e as autoridades relativizam as leis com seus foros privilegiados. O resultado é trivial: obedecer é um sinal de inferioridade social

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 03h00

O ano que formalmente acabou de terminar, mas está colado a este que se inicia, foi pródigo em assinalar a nossa fragilidade diante de uma doença mortal e contagiosa. Este 2021 baliza, espero, a etapa da vacina e da cura. Uma vacina lamentavelmente politizada, sabotada, burocratizada e, por isso, irracional e desumanamente postergada entre nós. 

O mais doloroso numa doença contagiosa é que ela não coloca ninguém acima de qualquer suspeita e, com isso, sacode axiomas sociais pouco discutidos. Por exemplo: pode o amor de mãe contaminar? A nossa casa pode ser um ninho virulento? Como festejar sem o contato físico e o abraço amoroso? A vacina deve seguir a velha hierarquia social ou as necessidades médicas dos grupos de risco?

Doenças de contágio são fatos sociais totais: elas nos atingem biológica e culturalmente. Elas matam anônimos e entes queridos e, em paralelo, condenam gestos e hábitos que fazem parte do nosso arsenal de carinho. O contágio maltrata o cerne de nossas vidas porque somos seres sociais e, como tal, dependemos e somos constituídos de relações. Sem elas, entramos no reino das orfandades cujo lar é o espaço no qual os elos se desfazem: o mundo da rua.

O traço distintivo da pandemia é a sua universalidade. A inusitada “democracia” da covid (tal como ocorreu de modo ainda mais patente em outras epidemias) conturba pelo seu inesperado igualitarismo biológico. O vírus “pega”. Ele passa de uma pessoa para outra independentemente da posição dessa pessoa, o que, numa sociedade na qual as relações pessoais têm uma enorme importância, é um escândalo e um contrassenso. 

Como não abraçar pai e mãe? Como estar com os amigos sem deles “chegar perto”, acariciá-los ou dar um “cheirinho de amor numa morena flor”, como cantam Toquinho e Vinicius? 

Se ignorarmos o protagonismo da “ética da casa”, jamais iremos entender o comportamento dos nossos filhos e netos quando eles se aglomeram infelizmente negligenciando as normas da saúde pública. 

O que faz um pai quando um filho tem embaraços na Justiça? Ora, ele o defende mesmo tendo que demitir o ministro da Justiça e reordenar todo um sistema. A ética das relações familiares, sendo costumeira e implícita, resiste à legislação positiva apropriada para a “rua” - para o mundo “público”. Já a “casa” - e as relações nela fabricadas, como sugeri no livro A Casa e a Rua (publicado em 1985) - deve ser vivida “aquém” das instituições públicas conforme revelam nossas abusivas e recorrentes roubalheiras. 

Sobre isso, basta lembrar que, até anteontem, dizíamos que, “em briga de marido e mulher, ninguém metia a colher”. Hoje, há sinais de mudança de modo que casa e rua estão mais próximas em matéria de direitos. A casa não mais exime os seus “donos” de seguir regras universais.

Penso que a irritante resistência à regra do isolamento (e do uso de máscara) denuncia uma duplicidade. Existem leis universais, mas elas têm um alcance relativo a cargos, pessoas e espaços. Nosso ponto de partida histórico não foi o puritanismo messiânico, igualitário e individualista que tanto assombrou Tocqueville na América. Aqui, crescemos no patriarcalismo hierárquico católico, no escravismo negro e numa aristocracia situada à margem. Todo o sistema estava fundado exatamente na desigualdade. 

O que isso tem a ver com o isolamento? É simples. No Brasil, sabemos que os mandões e as autoridades relativizam as leis com seus foros privilegiados. O resultado é trivial: obedecer é um sinal de inferioridade social. O ideal é, lamentavelmente, desobedecer marginalmente na base da malandragem. É o que vemos nas praias e festas.

Enquanto a lei impessoal não se tornar concreta - e o concreto no igualitarismo democrático é a sua aplicabilidade para todos -, não há como seguir normas gerais, sejam elas jurídicas ou sanitárias.

Comportamentos diante da saúde, da sexualidade, da morte, da comida e dos elos de compadrio e parentesco estão livres das recomendações formais. É o que vemos na praia e nos infalíveis abraços onde o gesto de afeto compete com as regras impessoais de higiene com trágicos resultados. 

Por tudo isso, é preciso, reitero, desburocratizar e acabar com a sabotagem política da vacina. Uma vacinação em massa seguindo critérios do bom senso é a maior prova de que podemos unir o formal e o costumeiro, o país com a sociedade, revelando a nós mesmos que eles podem andar juntos. 

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’ 

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