Miroslava Chrienova/Pixabay
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Pandemês

Deve ter quem queira batizar os rebentos com nomes como Cloroquina e Astrazênica

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2021 | 03h00

Aprendemos um bocado de coisas com a pandemia, inclusive palavras novas e outras que apenas não faziam parte de nosso linguajar diário. Comorbidade, por exemplo. Essa ainda nem entrou no Houaiss eletrônico. Confesso que só fui tomar conhecimento de sua existência durante a pandemia, embora meu organismo já fosse íntimo de pelo menos duas delas.

Covid foi outra novidade; tão novidade que aqui ainda não se chegou a um consenso sobre seu gênero. Qual é o certo, afinal: o covid ou a covid? Sem muita convicção, optei de cara pelo masculino. Se covid é um vírus, não uma bactéria, por que feminizá-lo?

Palavras como lockdown, ifa (ingrediente farmacêutico ativo) e outras contribuições do pandemês, só recentemente entraram no léxico cotidiano dos brasileiros, alguns dos quais devem estar indóceis para batizar seus próximos rebentos com nomes como quarentena, Cloroquina e Astrazênica. 

Os povos de língua inglesa já conheciam “lockdown” (confinamento) e tornaram corriqueiras as expressões “social distancing” (distanciamento social), “frontliner” (linha de frente) e “Zoom” (o aplicativo para lives, não a lente de aproximação). Mas foram os alemães que, valendo-se da prerrogativa de poder agregar mais de duas palavras numa só e conseguir pronunciá-la, tiraram o máximo proveito da cornucópia vocabular oferecida pela pandemia.

Os lexicógrafos do Instituto Leibniz, que há três décadas estudam e zelam pela língua alemã, já levantaram mais de 1.200 neologismos relacionados à pandemia. Alguns com mais de 20 letras. “Behelfsmundnasenschutz” é um polissílabo de 22 letras, que, se você conseguir pronunciá-lo corretamente diante de um alemão, ele entenderá que você se refere a uma “proteção improvisada para boca e nariz”. 

A trivial máscara que nos protege do vírus (“Mundschutzmaske”) ganhou variações como “Gesichtskondom” (preservativo facial). Aquelas disputas esportivas sem a presença física de público, que entre nós, que eu saiba, ainda não têm nome, são “eventos fantasmas” na Alemanha – ou “Geisterveranstaltung”. Se precisamos de dois vocábulos e 21 caracteres para digitar “distanciamento social”, os alemães se ajeitam com uma só palavra, embora com o mesmo número de letras: “Kontaktbeschränkungen”.

Por ter lido, muitos anos atrás, que na língua dos esquimós existem 200 sinônimos para a palavra neve, por ser a neve a coisa mais importante do mundo para os esquimós, me impus o desafio de descobrir quantos sinônimos existem, em nossa língua, para o que sociólogos e antropólogos já identificaram, sem contestação, como “a fixação anatômica nacional”, e o poeta Carlos Drummond de Andrade e outros (moi aussi) consideram a palavra mais eufônica da última flor do Lácio. 

Foi a ideia mais original que me ocorreu para minha estreia numa revista justamente chamada Bundas, semanário humorístico que circulou durante 18 meses no final do século passado.

Com a ajuda inestimável de amigos e do Dicionário de Palavrões e Termos Afins, de Mário Souto Mayor, reeditado pela Record em 1986, recolhi 212 sinônimos daquilo que nem os nossos avós chamam mais de “nádegas” ou “bumbum” e nossos irmãos portugueses preferem identificar com apenas duas letras, para espanto dos brasileiros, principalmente, dos que já precisaram ir à farmácia em Portugal para tomar uma injeção na região glútea. 

Listar sinônimos é esporte de lexicógrafos e taxonomistas amadores. Palavra é o que não falta nos dicionários. No final de janeiro deste ano, Ruy Castro arrolou, em sua coluna na Folha de S. Paulo, 24 epítetos que, a seu ver, e aos olhos da multidão, acrescente-se, definem com rentura a figura do atual presidente da República e foram recolhidos pelo jornalista em diversos veículos de imprensa do País. A repercussão foi imediata.

Em poucas horas, Ruy recebeu do produtor musical João Augusto uma lista com mais de 100 apelidos pespegados em Bolsonaro desde sua posse na presidência e também pacientemente recolhidos na mídia impressa. Dispostos em ordem alfabética, vão de “abjeto” a “zoilo” (sinônimo de ressentido e incompetente), passando por dezenas de outros na certa já proferidos por mim e você – nenhum de baixo calão. Se incluídos estes, em franca circulação nas redes sociais, a lista poderia quase dobrar de tamanho.

Minha primeira impressão, ao ler o glossário, foi de completude. Mas sempre falta algo em tais recensões. Faltou, por exemplo, “salafrário”. E também “vil”, “velhaco” e – a mais notável ausência de todas – “genocida”. Talvez porque, quando a lista foi atualizada, o “abominável” (segundo apelido da lista) ainda não se sagrara, mundialmente, como genocida. 

Dias atrás, já com quase 2 mil óbitos diários em seu mortefólio, o capitão ameaçou imputar de crime quem o chamasse de genocida. Se der curso à sua ameaça, terá de processar mais gente do que Simão Bacamarte planejou mandar para o hospício. 

O tempo e, eventualmente, a verba que o “abutre” (terceiro apelido da lista) gastaria com essa presepada jurídica poderiam ser aplicados no combate à pandemia. Até porque sempre haverá um sinônimo de genocida para tapar o buraco e cumprir seu objetivo. 

Que tal antropocida?

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

 

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