Panahi, ausente, dá o que falar

Iraniano não pôde comparecer a Veneza e virou assunto polêmico na coletiva do presidente do júri,Tarantino

Luiz Zanin Oricchio / VENEZA, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2010 | 00h00

O festival começou em clima de homenagem ao grande Vittorio Gassman, morto há dez anos, com a exibição em praça pública de um dos seus grandes sucessos, Perfume de Mulher, no qual interpreta um militar cego, desbocado, mulherengo...e trágico. Esse início nobre, e algo saudosista, celebrado em noite de gala, foi logo deixado para trás e caiu-se no presente e na real, com a coletiva de Quentin Tarantino na condição de presidente do júri e a apresentação do primeiro concorrente, Black Swan, do também norte-americano Darren Aronofsky. Aliás, é praxe que Veneza seja dominada, neste início, pelas delegações dos EUA, que depois migram em massa para o Festival de Toronto, que colide com o de Veneza e tem fama de ser melhor para business.

A entrevista com Tarantino foi marcada por uma saída pela tangente quando ele, perguntado sobre a ausência forçada em Veneza do cineasta iraniano Jafar Panahi, impedido de viajar pelo governo do seu país, respondeu com um omisso "não comento questões políticas". Presente na entrevista, o diretor do Festival de Veneza, Marco Müller, foi mais incisivo, embora diplomático. Disse que já há 15 dias sabia que Panahi, "amigo pessoal há muitos anos", estava impedido de viajar. Por outro lado, destacou a presença no Lido da iraniana Shirin Neshat na condição de presidente do júri da mostra Horizontes. Shrin recebeu o Leão de Prata na mostra do ano passado por seu Mulheres sem Homens.

Havia um motivo concreto para Panahi estar em Veneza este ano - a exibição do seu filme The Acordion, um curta-metragem. Ele é figurinha carimbada dos festivais de primeiro escalão e venceu o Leão de Ouro na edição de 2000 com O Círculo, denúncia da opressão exercida sobre a mulher iraniana. Opositor de Ahmadinejad, Panahi não pôde vir porque responde a processo e essa condição o impede de deixar o país. Ele vive sob liberdade vigiada, se é que essas duas palavras podem ser usadas na mesma expressão sem ofender a lógica e a ética. E assim, entre artistas perseguidos e mulheres condenadas à lapidação, o governo iraniano constroi sua sólida notoriedade internacional.

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