Pamuk, uma vida fora do centro

Outras Cores, do Nobel turco, trata do sentimento de exílio na própria terra

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

A advertência vem logo no início do prefácio do autor: Outras Cores é um fragmentado livro de ideias que não encontraram lugar nos romances do escritor turco Orhan Pamuk, premiado com o Nobel de Literatura em 2006. Surpreso por não ter usado em sua ficção momentos peculiares da própria vida - mesmo no autobiográfico Istambul -, Pamuk decidiu juntar num volume de ensaios todos esses pensamentos inexplorados. O resultado é a reunião de escritos reveladores e de excepcional qualidade. São 75 textos que trazem reminiscências, comentários políticos e ensaios literários - incluindo análises dos próprios livros -, além do conto Olhar Pela Janela, seu discurso do Nobel (A Maleta de Meu Pai) e uma entrevista concedida ao jornalista mexicano Ángel Gurría-Quintana para a revista Paris Review.

Nessa entrevista, realizada um ano antes de receber o Prêmio Nobel, Pamuk aparece como um escritor assustado com a condenação do governo turco a uma declaração sua sobre o genocídio armênio (de 1915). Na época, associou a reação hostil da imprensa nacionalista turca à popularidade que desfruta em seu país desde meados dos anos 1990, quando seus livros começaram a vender em quantidade inédita para os padrões locais.

Pamuk pertence à elite turca. Sua família enriqueceu construindo ferrovias. A difamação pela imprensa do seu país passa também pelo preconceito contra sua origem social e a retórica ocidental do escritor, não tolerada pelo discurso oficial. No relato Em Julgamento, ele conta como a perseguição política que sofreu há cinco anos estava mais relacionada à defesa da liberdade de expressão que ao tabu do genocídio armênio ocorrido no princípio do século 20. Apesar disso, seus livros foram queimados e extremistas políticos chegaram a sugerir que Pamuk fosse calado para sempre.

Seus detratores recuaram quando ele recebeu o Nobel em 2006. E, a exemplo de seu personagem Ka, herói do romance Neve, Pamuk descobriu como era ter de deixar a cidade que tanto amava devido a suas opiniões políticas. Assim, Outras Cores não foge da discussão ideológica - ele chega mesmo a evocar um caso parecido de perseguição, a de Vladimir Nabokov (leia abaixo resenha de "A Verdadeira Vida de Sebastian Knight", deste autor), aristocrata russo que teve seus bens expropriados pela revolução bolchevique. Defendendo seu desprezo à política, Pamuk volta ao assunto quando fala do escritor argelino Albert Camus, que preferiu se omitir quando seus compatriotas lutavam pela independência da França. Como Camus, Pamuk acredita que a política não é algo que escolhemos, mas "um infeliz acidente que somos obrigados a aceitar". Também por isso, o escritor turco manteve silêncio após o confronto com as autoridades de seu país.

Em seu livro, ele cita outra vítima da política, o peruano Mario Vargas Llosa, o mais recente Nobel de Literatura. Pamuk lembra dele como um escritor "esquerdista" que mais tarde abjuraria sua filiação ideológica para se tornar "um antropólogo pós-moderno, voltando à terra natal para estudar sua irracionalidade e seus valores pré-iluministas". Também ex-esquerdista e hoje liberal, Pamuk crê no futuro da Turquia como uma democracia - com liberdade de expressão e sem fundamentalismo religioso. O austríaco Thomas Bernhard, a quem dedica dois ensaios, vivia numa democracia e nem por isso acreditava nela. Proibiu que seus livros fossem publicados na Áustria após sua morte. Pamuk diz que Bernhard tem algo de Dostoievski e Beckett. Seus heróis, escreve, voltam com frequência às coisas que mais detestam. Não podem, enfim, viver sem repugnância e desprezo. Pamuk se arrisca a dizer que, como Céline, Bernhard, também criado numa família pobre, era movido pelo ressentimento e um sentimento incontrolável de derrota.

Não é essa a mola que move Pamuk, mas ele observa que é desconfortável o sentimento de estar culturalmente isolado num país dividido entre o Ocidente e o Oriente. No discurso ao receber o Nobel, ele diz que se sentia excluído do mundo e da literatura ocidental. Na biblioteca do pai, os livros de Istambul - a literatura turca - ficavam numa ponta e os ocidentais, na outra. O pai, que viveu em Paris e morreu há oito anos, deixou para Pamuk uma coleção de cadernos em que o escritor reconheceu sua ancestralidade literária. Neles, o filho descobriu que o mundo tinha um centro - e esse não era Istambul, reconhecendo que essa "sensação chekhoviana de provincianismo" foi superada pela escrita, ao descrever em seus livros as ruas, as casas, as mesquitas e as pessoas de sua infância. Não por acaso, o capítulo dedicado às obras que escreveu tem o apropriado título de Meus Livros São Minha Vida. Outras Cores, aliás, foi assim batizado porque Pamuk, aos 22 anos, queria ser pintor e a maioria de seus trabalhos fazem alusão a cores - de O Castelo Branco a O Livro Negro, passando por Meu Nome É Vermelho, todos publicados aqui pela Companhia das Letras, que já comprou em Frankfurt os direitos A Strangeness in My Mind, sua mais recente obra. O livro fala de um vendedor endividado que se divide entre bicos e acrescenta uma droga alucinógena à fórmula da sua bebida, ficando dependente dela.

Não é a primeira vez que o aristocrata Pamuk se dedica a personagens periféricos, ele que prefere criar heróis como os de Meu Nome É Vermelho, que anseiam pela beleza de uma época passada, que convivem com o medo de a arte se perder na vulgaridade das ruas. A sensação de deslocamento, de ser um eterno exilado, perpassa toda a obra de Pamuk, atingindo o paroxismo em Neve, em que um poeta turco exilado, de volta à terra natal, se vê involuntariamente ligado a um golpe militar num lugarejo remoto isolado por uma nevasca. Pamuk conta sobre as inúmeras viagens feitas a Kars e conclui, em seu diário de 2002, que o melhor que podia fazer pela gente do lugar, resignada à miséria e ao desamparo, era escrever um bom romance.

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