Pamuk sugere a Obama

Para escritor, presidente deveria ler Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas

THE NEW YORK TIMES BOOK REVIEW, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2012 | 02h07

O escritor turco Orhan Pamuk acredita que todos os presidentes dos EUA deveriam ler o livro Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas ( (WMF Martins Fontes). Ele justifica na seguinte entrevista.

Que livro o senhor tem na cabeceira atualmente?

Shahnameh, do poeta persa Ferdowsi, que tem o subtítulo O Livro Persa dos Reis. Como Masnavi, de Rumi, e Mil e Uma Noites, Shahnameh é um vasto mar de histórias a que eu recorro de tempos em tempos para me inspirar ou a fim de adaptar uma história antiga, como fiz em Meu Nome É Vermelho e O Livro Negro. No cerne desse épico, está a história da busca que o grande guerreiro Sohrab empreende por seu pai Rostam, que, sem saber que está diante do filho, mata Sohrab num combate. O lugar ocupado por essa grandiosa história trágica no cânone literário persa-otomano-mongol é muito similar ao da lenda de Édipo no cânone ocidental, mas ela ainda está à espera de um Freud inventivo que trate das semelhanças e diferenças radicais entre as duas narrativas. A literatura comparada tem muito mais a nos ensinar sobre as relações do Oriente com o Ocidente do que a retórica do "choque das civilizações".

Se o senhor pudesse recomendar um livro para o presidente dos Estados Unidos, qual seria?

Vários anos antes de Obama ser eleito presidente dos EUA, tive a oportunidade de conhecê-lo como o autor de A Origem dos Meus Sonhos, um livro muito bom. Para ele, eu gostaria de recomendar a leitura de um livro com que às vezes presenteio amigos meus, na esperança de que o leiam e depois me perguntem: "Mas por que esse livro, Orhan?" Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, de Robert M. Pirsig, é uma grande obra da prosa norte-americana, um livro baseado na vastidão dos EUA e na busca individual por valores e por um significado na vida. Não é um romance, apesar de ser tão romântico, mas faz o que todo romance sério deveria fazer: filosofia a partir dos pequenos detalhes da vida cotidiana.

O senhor foi acusado de ofender a "identidade turca" ao reconhecer o massacre de curdos e armênios, além de ter se manifestado sem rodeios sobre a aspiração turca de ingressar na União Europeia. Nesses casos, o senhor estava se comportando como um cidadão engajado ou escritores têm a responsabilidade de praticar um ativismo social?

Estava agindo, no máximo, como um cidadão engajado. Não tenho ideias políticas sistematizadas, e tampouco sou um escritor intencionalmente político. Se os meus livros são políticos, isso se deve ao fato de que os meus personagens vivem em momentos conturbados, de grande agitação política e mudança cultural. Gosto de mostrar para os leitores que nem sempre as escolhas dos meus personagens são feitas por eles mesmos. E isso é, de uma maneira literária, um aspecto político da minha ficção.

Algum interesse político?

Nunca fui movido por ideários políticos. O que me interessa são situações humanas e histórias engraçadas. Os problemas políticos que enfrento na Turquia não foram causados pelos meus romances, mas por entrevistas que concedi à imprensa internacional. Tudo o que eu digo fora da Turquia repercute aqui de uma maneira distorcida, ligeiramente adulterada para me fazer parecer alguém tolo e mais político do que de fato sou. Uma vez, reclamei com o Paul Auster - um escritor que eu admiro, a quem conheci em Oslo, onde ele estava, como eu, concedendo entrevistas para promover um de seus livros - que os jornalistas viviam me fazendo perguntas sobre política, e que para um escritor norte-americano talvez fosse mais fácil lidar com esse tipo de pergunta. Auster disse que os jornalistas também não paravam de perguntar a ele sobre a Guerra do Golfo. E isso foi na época da primeira Guerra do Golfo! Nos 20 anos que se passaram desde então, aprendi que as perguntas sobre política são uma espécie de destino para quem escreve ficção, especialmente se a pessoa vem do mundo não ocidental.

E como evitar?

A melhor maneira é ser político - como um diplomata - e responder só às questões literárias. Mas não levo jeito para ser um bom diplomata. Perco a paciência e respondo a algumas das perguntas sobre política e o resultado é que acabo sendo processado ou sofro alguma campanha de difamação por parte dos jornais de direita na Turquia. Os meus romances são políticos, não porque os escritores andem por aí com suas fichas de filiação partidária - alguns fazem isso; eu não -, mas sim porque o bom escritor de ficção quer se identificar e compreender pessoas que não são necessariamente como ele. Todos os bons romances são inerentemente políticos, porque estabelecer uma identidade com o outro é um ato político. No cerne da "arte do romance" está a capacidade humana de ver o mundo através dos olhos do outro. A compaixão é a maior força do romancista. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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