Pamonha de Sorocaba

‘Demorou, mas trouxemos essa de-lí-ci-a do campo até você. Orgânica’

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2020 | 03h00

O isolamento trouxe de volta para meu bairro personagens do passado. Não apareceu o tiozinho do “olha o sorveeete”. Já o homem da matraca barulhenta vendendo biju, e o do apito peculiar para afiar facas, apito que uma vizinha desconhecia, e só gente da minha geração identificou, reapareceram.

Por sinal, o afiador era bem jovem, sobrinho de um tiozinho, com aquela bicicleta estilizada, exatamente como a de décadas atrás, cuja corrente e roldana giram a pedra amoladora e afiador. Digo, sua bike.

O cara da pamonha nunca sumiu. Tenho raiva. Surge sempre na hora da siesta. Já o flagrei pela rua. Não é uma caminhonete suja de lama de Piracicaba. É um carro 1.0, novo, encerado, com um alto-falante pequeno, mas potente no capô, que ecoa por todo o bairro. 

Nele, um garotão de fone de ouvido, sorridente, escutando provavelmente hip-hop. Ativo nas redes sociais, está sempre mais interessado no celular do que na freguesia. À noite, deve ter pesadelos com pamonhas assassinas.

Uma vizinha recém-chegada do interior de Santa Catarina descia correndo quando o escutava. Dizia, eufórica: “Gente, pamonha de Piracicaba, legítima”. 

Ficou decepcionadíssima quando contamos que o “Pirrracicaaaba” era retórica, que todos piratearam ou imitaram aquela gravação que começou na década de 1970, e que provavelmente o precursor, Dirceu Bigelli, que montou uma frota que vendia pamonha por todo o Estado, sim, devia ser de Piracicaba, que ninguém sabia que tinha uma pamonha de qualidade superior às outras. 

Hoje, a voz é apenas chamariz, e a pamonha pode ter sido preparada em qualquer tanque de qualquer beco da cidade.

Então, vislumbrei: inspirado em Don Draper, o publicitário mais famoso da TV mundial (da série Mad Men), que incluiu no maço “it’s toasted” para diferenciar o Lucky Strike dos outros, o que não significava absolutamente nada, já que todos os cigarros são enrolados com tabaco tostado, pensei em sair por aí anunciando a “Pamonha de Sorrrocaaaba”.

Pediria ao amigo Paulo Betti, sorocabano com muito orgulho, para fazer a voz grave de um especialista, mais sedutora e menos machista, já que o concorrente começa com um “olha aí dona de casa”, desprezando os donos de casa ou solteirões, e capricharia no “delícia”. Entraria numa concorrência pesada. Não seria “tosted”, mas orgânica. 

“Você em casa, chegou o carro da Pamonha de Sorrrocaaaba, muito melhor, mais pura e saborosa do que a de Piracicaba. Demorou, mas trouxemos essa de-lí-ci-a do campo até você. Orgânica. Não contém glúten nem derivados de leite. Puríssimo sabor do interiorrrr. É a mundialmente famosa Pamonha de Sorocaba. A legítima.”

*

Nos encheu de orgulho quando o pastel de carne da Maria, da feira da minha rua, foi eleito o melhor pastel de São Paulo. A “crocância” chamou a atenção da escolha popular e do jurado seleto. Emocionante saber que, na porta de casa, se come essa delícia tão paulistana. Premiada. 

A barraca se encheu de alegria. Ela se diferencia, pois as atendentes vestem aventais vermelhos floridos sobre roupas brancas, limpas, com toucas vermelhas. O vermelho predomina também no ambiente. É a cor dos banquinhos, a grande sacada de marketing. Gente de outros bairros vem. 

Elas atendem num ritmo frenético, das 7h às 14h. Pastéis que servem de café da manhã, brunch e almoço. Vizinha ao caldo de cana, que também fatura. 

Em frente, um contraste: na barraca de pastel do concorrente, sem decoração, nem as moscas se aproximavam. Eu e sobrinhos empreendedores imaginamos comprar aquela barraca desprezada e fazer o Pastel do José. 

Nossas atendentes vestiriam verde, cor que predominaria na decoração. Teriam um treinamento intensivo para torná-las mais educadas, agradáveis, sorridentes e atenciosas do que as do Pastel da Maria. Banquinho e balcão seriam de madeira. O pastel, orgânico. Na compra de quatro pastéis, de brinde uma pamonha de Sorocaba, a legítima.

Espalharíamos que Maria fraudara a competição, colocando Ajinomoto na massa. O glutamato monossódico então seria o responsável pelo fator crocância, que o destacava. No mais, o pastel Yokoyama, do Cambuci, subiu no pódio mais vezes. 

Aliás, Maria nem é seu nome, mas Kuniko Yonaha, japonesa que chegou ao Brasil aos 11 anos de idade, estudou até a 2.ª série do antigo Primário; teve que interromper os estudos para cuidar da irmã caçula, enquanto os pais trabalhavam. 

E dona Maria nem é exclusiva da nossa feira das quartas-feiras do Sumaré. Tem barraca terças, quintas e sextas na do Pacaembu, a mais chique de São Paulo (aquela a que levamos amigos gringos para conhecer nossas frutas), sábados em Osasco e Parque Novo Mundo, e domingos na Mooca. Sem contar lojas e quiosques na Paulista, Pinheiros e Casa Verde. Um império. 

O empreendedorismo familiar foi barrado pela preguiça e logística pesada: acordar às 2h, pegar uma Kombi, montar às 4h, ficar dez horas atendendo em pé. Preparar os pastéis, da massa ao recheio, é para poucos e poucas. E porque somos fãs da Maria.

A Barraca do José não saiu do papel, e o concorrente da Maria na nossa feira fechou. No seu lugar, uma boliviana vende peixes betta, um argentino, DVDs pirata, e um chinês, brigadeiros. Já o cara da pamonha persiste.

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