Palmas em suspenso

Diversidade dos jurados dificulta apostas sobre vencedores; anúncio será hoje

LUIZ CARLOS MERTEN , ENVIADO ESPECIAL , CANNES, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2012 | 03h11

Oito da noite na França, três da tarde no Brasil. Neste horário, o segredo terá sido revelado e o mundo todo vai conhecer o vencedor da Palma de Ouro de 2012. Ela poderá ser consensual, e pelas cotações nos quadros de apostas do Festival de Cannes, não haverá surpresa nenhuma se Amour, de Michael Haneke, valer ao autor austríaco sua segunda recompensa máxima na Croisette, dois anos depois da que ele recebeu por A Fita Branca. Mas a Palma também poderá ser uma provocação do presidente do júri, Nanni Moretti, e neste caso muita gente teme que ele siga a orientação de Cahiers du Cinéma. Moretti é um dos queridinhos da publicação, que escolheu Habemus Papam, seu longa com Michel Piccoli, como o melhor filme de 2011. Para Cahiers, só um filme é digno de receber a Palma, e é justamente o de Carax.

Holy Motors! As limusines brancas deram o tom e o que falar na seleção de Cannes deste ano, até porque no filme de Carax as máquinas conseguem dialogar entre si - num recurso que tanto pode ser sublime, para os admiradores do filme e do diretor, quanto ridículo. Neste caso, Carax seria um transgressor perfeitamente dispensável, com este misterioso M. Oscar (Denis Lavant) que sai de casa pela manhã, toma sua limo e dela sai caracterizado como dez outros personagens, incluindo uma velha mendiga que pede esmolas no Pont Neuf de Paris.

Todo mundo faz apostas tentando descobrir para onde se inclinarão as preferências de Moretti e seus jurados, que incluem diretores como Andrea Arnold, Raoul Peck e Alexander Payne, atores como Ewan McGregor, Emmanuelle Devos, Diane Krueger e Hiam Abbass e o estilista Jean-Paul Gaultier. Como ele reagirá diante do poderoso Beyond the Hills, do romeno Christian Mungiu? O vencedor da Palma por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias elabora ainda mais sua estética de plano-sequência e o filme faz um retrato muito forte da religião na Romênia (e no mundo). Da mesma grandeza, só os filmes do russo Sergei Loznitsa, In the Fog, e a adaptação, pelo brasileiro Walter Salles, do romance considerado infilmável de Jack Kerouac, On the Road.

Impacto imediato. Todos esses filmes são muito reflexivos, mas nenhum deles, salvo, talvez, o de Mungiu, pareceu encantar particularmente o público de Cannes, que preferiu obras de impacto mais imediato (como o filme de Haneke). E houve veteranos competidores que voltaram com filmes encantadores. O inglês Ken Loach liberou sua veia cômica em The Angel's Share. O francês Alain Resnais orquestrou outra comédia para falar de cinema e teatro, arte e vida (e morte) em Vous n'vez Pas Rien Encore Vu. Last, but not least, outro francês, Jacques Audiard, trouxe um filme que, lançado simultaneamente nos cinemas, estourou nas bilheterias e com mais de um milhão de ingressos vendidos, virou um fenômeno - De Rouille et d'Os.

A Palma já virou umas preocupação secundária e muita gente já se pergunta: haverá outro Artista na premiação deste ano? No ano passado, o longa de Michel Hazanavicius e o astro Jean Dujardin usaram a vitrine de Cannes para turbinar sua ida para o Oscar. Marion Cotillard, por De Rouille, é considerada a melhor aposta para o próximo Oscar, mas ele ganhará aqui? O júri vai preferir os velhinhos de Haneke, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva? Seria sentimental premiar o excepcional Aniello Arena de Reality, de Matteo Garrone, porque ele surgiu como ator na cadeia e está preso na Itália? O júri é soberano, mas o que se espera dele é que não ignore Mungiu e Salles. O suspense tem hora para terminar.

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