Palma do sofrimento

Léa Seydoux fala dos papéis em Adèle e Adeus, Minha Rainha, que estreia sexta

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2013 | 02h14

Léa Seydoux pertence à linhagem do cinema francês. O avô, Jérome Seydoux, é CEO da Pathé e o tio-avô, Nicolas Seydoux, também é CEO de outra grande companhia de cinema, a Gaumont. Mas ninguém é louco de dizer que Léa se beneficiou do Q.I. familiar - o quem te indicou - para triunfar na carreira. Em quatro anos, a bela Junie de Christophe Honoré, indicada para o César de 'melhor esperança' (revelação) pelo papel, fez história em Cannes ao dividir, em maio, com o diretor Abdellatif Kechiche e sua colega de elenco, Adèle Axarchopoulos, a tríplice Palma de Ouro de A Vida de Adèle.

Depois de duas tentativas frustradas - em Dubai, por Missão Impossível - Protocolo Fantasma, e em Berlim, por Adeus, Minha Rainha, que estreia na próxima semana -, o repórter finalmente se encontrou com Léa para uma individual, em Paris, após Cannes, nos Rencontres du Cinéma Français UniFrance.

Já estava achando que era pessoal, uma implicância comigo. Você costuma ser muito assediada por entrevistas e, por isso, trata de se resguardar?

A história não é bem assim e as entrevistas fazem parte do processo, embora, para dizer a verdade, não sejam a parte mais interessante. É mais uma obrigação. Tenho de fazer. Prefiro os jornalistas estrangeiros aos franceses, que têm parti pris e me fazem sempre as mesmas perguntas.

Sua trajetória foi fulgurante nestes quatro anos. Até que ponto a sorte ajudou?

Você diz a sorte de conseguir bons papéis? Isso vem com o trabalho. Na verdade, trabalhei duro nestes anos todos. Um papel como o de Junie, em La Belle Personne, pode parecer fácil em comparação com as exigências de Abdel, em A Vida de Adèle, mas na época era muito mais insegura e aquilo já me parecia um desafio e tanto. A sorte, se existe, é que os papéis foram se tornando progressivamente mais exigentes, e isso me permite evoluir.

A Vida de Adèle marca um ponto alto. Você e Adèle (Axarchopoulos) são as primeiras atrizes a dividir uma Palma tríplice. Qual a sensação?

Tem gente que diz que é a Palma do sofrimento, que veio recompensar tudo o que passamos durante a duríssima rodagem do filme. Durante o processo, nas raras vezes em que conseguia relaxar, relatava um pouco do que estava vivendo para amigas, algumas atrizes, e elas me perguntavam como eu aguentava. Abdel trabalha no excesso. Repete a mesma cenas dezenas de vezes. Há um momento do filme em que Adèle e eu estamos numa praça, jogadas na grama. Temos um breve diálogo, trocamos uma carícia. Filmamos durante uma semana inteira, da manhã à noite. Toda a filmagem consumiu cinco meses, e em todas as cenas repetíamos, repetíamos. Abdel busca alguma coisa que nem ele sabe o que é, na hora, mas que identifica depois, na montagem. Existem momentos em que você duvida de tudo, mas ao ver o filme pronto tive um deslumbramento. Então, foi por isso? Valeu a pena.

Benoît Jacquot, o diretor de Adeus, Minha Rainha, disse que foi o descobridor de sua sensualidade. Concorda?

Benoît tem um método muito particular de trabalhar com as atrizes. Chegou a se casar com mais de uma delas. Precisa dessa intimidade. Mas eu acho que a sensualidade já estava em mim. Não hoje, porque você pode ver, estou mal, muito gripada.

E eu lhe agradeço por me conceder a entrevista. É muito diferente fazer um filme de época, como Adeus, Minha Rainha, e outro contemporâneo, como A Vida de Adèle?

A própria roupa que você usa em um e outro já estabelece a diferença. Em Adeus, Minha Rainha, o figurino é mais pesado e o cenário é fornecido por esses velhos castelos. Muita pedra, muita sombra, muito frio. Mas em ambos os casos sou eu ali, o meu corpo. Não tenho referências de como as pessoas se comportavam na intimidade há 200, 300 anos. É preciso inventar, criar. Com Abdel é a mesma coisa. A personagem pode ser mais próxima de mim, mas não sou eu.

Houve muita controvérsia em Cannes quanto às cenas de sexo de A Vida de Adèle. Até que ponto foram reais?

Nas primeiras cenas, Adèle e eu ficamos nervosas. Depois a coisa fluiu melhor, mas as palmadas na bunda sempre nos faziam rir. Tudo o que fizemos foi pela arte. Fora de cena, prefiro rapazes (risos).

E sua experiência em Hollywood, a vilã de Missão Impossível - Protocolo Fantasma?

Foi muito diferente de Adèle. Brad Bird, o diretor de MI, trabalha à americana, no registro da eficiência. A violência era coreografada e, no caso dele, era vapt-vupt. Demoramos, sei lá, alguns dias para rodar a sequência da luta, no alto do prédio, mas não era a repetição obsessiva de Abdel. Foi divertido. E gostei do resultado.

Christophe Honoré, Benoît Jacquot, Brad Bird, Abdel Kechiche. São todos autores. Não lhe peço que faça um ranking entre eles, mas como consegue se adaptar a estilos e personalidades tão diversos?

Tenho a minha maneira de encarar a função de atriz. Faço uma espécie de antropologia. Investigo o diretor com quem vou trabalhar e me entrego como ferramenta. Mais do que na personagem, vou fundo no método do autor. Tem dado certo.

LÉA SEYDOUX

ATRIZ FRANCESA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.