Palma de Ouro na prisão?

Pelo menos até agora, o melhor ator é Aniello Arena, de Reality, que cumpre pena na Itália

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2012 | 03h09

Cumpre-se um ciclo aqui em Cannes. Em fevereiro, os irmãos Taviani ganharam o Urso de Ouro em Berlim com Cesare Deve Morire, seu docudrama sobre internos de uma prisão da Itália que representam o texto clássico de Shakespeare. Cannes abriga agora o novo Matteo Garrone. É o diretor de Gomorra, que tanto impacto produziu, há quatro anos. Garrone volta agora com Reality. A Itália, como o Brasil, é um país em que os reality shows vieram para preencher... O quê? Um grande vazio? O BBB somente cresceu com o tempo e sua 13.ª edição teve mais público que a primeira. Na Itália, é o Gran Fratello. Reality propõe uma ficção sobre os bastidores do reality show.

Um sujeito joga suas fichas de que será selecionado para integrar o elenco da atração. Arrisca tudo - a vida profissional, afetiva, familiar. O que é esse desejo? Vontade de romper o anonimato? Esse homem se sente vigiado por câmeras inexistentes. Acha que os produtores do programa o avaliam. Deixa de ser ele mesmo para representar um papel - o do homem que ele acha que vai agradar à produção, à audiência.

No processo, perde a identidade. Pedro Bial, que codirigiu com Heitor D'Alincourt o belíssimo documentário sobre Jorge Mautner - O Filho do Holocausto -, tem de ver Reality. Como intelectual, que é, deveria até apadrinhar a estreia do filme de Garrone no Brasil.

O ciclo que se fecha em relação a Cesare Deve Morire é o seguinte. O ator, extraordinário, é Aniello Arena. Ele não veio a Cannes para o tapete vermelho. Está preso, na Itália. Obteve permissão para fazer o filme, mas não para deixar o país. Voltou do set para a prisão. O filme é ele e a trilha de Alexandre Desplat. Garrone constrói sua mise-en-scène sobre um, e outra. Reality pode muito bem ser o filme italiano que o presidente do júri, Nanni Moretti, talvez quisesse premiar. No terceiro dia, e por melhor que seja Matthias Shoenaerts, de De Rouille et d'Os, o prêmio de interpretação masculina parece já ter dono, e é o presidiário Aniello Arenas.

Os bons filmes começam a despontar. Mystery, do chinês Lou Ye, que abriu Um Certain Regard, propõe um outro olhar (realmente) sobre a China. Não mais as denúncias de censura e perseguição política, mas algo mais sutil. Uma mulher descobre um lado da personalidade do marido que desconhecia. E se envolve num assassinato, mas terá sido assassinato?

Ontem à noite, em Cannes Classics, houve a primeira exibição da cópia restaurada de Era Uma Vez na América, de Sergio Leone, apresentada por Martin Scorsese. O filme ganhou meia hora a mais. Aqui mesmo em Cannes, há quase 30 anos, Leone apresentou sua versão, que já era longa. O filme precisa desses 30 minutos? Ao acrescentá-los, Scorsese não interfere na obra original?

As questões permanecem, a seleção ainda segue errática. Paraíso, do austríaco Ulrich Seidel, é sobre uma mulher de meia-idade que vai para uma praia na África. O lugar reúne coroas obesas e sem atrativos que buscam o prazer com nativos. Numa cena, quatro mulheres fazem todas as tentativas e não conseguem levantar a virilidade de um desses gigolôs de ocasião. Tudo é mostrado, nenhuma elipse. Uma história de homens e mulheres infelizes, porque eles também estão ali se prostituindo, e mentindo. O resultado deprime, mais pela estética que por razões morais.

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