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Ignácio de Loyola Brandão
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Palhas de arroz douradas ao sol

Para mim, era neve. A visão mais antiga que tenho de Votuporanga é a do sol batendo nas minúsculas palhas do arroz beneficiado, que jorravam de um tubo quadrado na boca da máquina dos meus tios Benedito e Quita. Mas na minha fantasia – quanto anos eu tinha? 4, 5? – aquilo era a neve que eu nunca tinha visto a não ser nas ilustrações dos livros infantis ou dos santinhos. Na verdade, a máquina de beneficiar era em Simonsen, uma vila, porém o trem só parava em Votuporanga, onde tomávamos uma jardineira para voltar. As ruas eram de terra batida, poeira na seca, lama na chuva. Um dia, meu tio José, que foi chefe da estação da EFA por muitos anos, explicou que o nome da cidade quer dizer vento bonito em tupi-guarani. Também pode ser clima agradável. Mas quando é quente, é quente

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2016 | 03h00

Jamais imaginei que acabaria tão ligado à cidade. Na juventude, passava férias numa casa da Vila Ferroviária, em frente à estação e gostava do barulho dos trens da madrugada. Aos sábados, íamos a pé até a cidade para a sessão do Cine Votuporanga, cujo prédio ainda está de pé, milagre dos dias de hoje. Levávamos um paninho para limpar os sapatos empoeirados. Ao voltar na escuridão, nos assustávamos com barulhos a imaginar fantasmas, lobos, vampiros. Um de meus melhores amigos, Geraldo Machado, um parente, foi para Votuporanga dar aulas e ali montou um grupo de teatro. Foi tão importante para mim, que meu romance Não Verás País Nenhum está dedicado a ele. Foi tão importante para a cidade que a Concha Acústica, reduto de jovens e de shows, tem o nome dele. Mais: o expert em pesquisas Paulo Secches é não só votuporanguense como somos os dois, ele e eu, avôs dos mesmos netos, Pedro, Lucas e Felipe

Estive na primeira Fliv, Festa Literária de Votuporanga, fui patrono da segunda e acabo de chegar de lá. Quando o carro que me buscou em São José do Rio Preto passou por Simonsen, as palhas douradas de arroz flutuaram. Fui direto ao Parque Cultural. Fiquei assombrado. Calatrava para o projeto? Acaso pensaram em Gaudí, Frank Gehry, M. Pei, Michel Gorski, Norman Foster, Paul Baumgarten? Ante o espanto que nos assoma, quando se entra no prédio do Centro de Informações Culturais e Turísticas de Votuporanga, juro que os nomes que nos ocorrem são estes. Impacto causado por um pássaro metálico pousado no lago, enquanto à sua volta estão gramados verdes, muita água, ciclovias, plantações de cata-ventos brancos a girar com a brisa. As sensações foram mudando, ora via um grande animal de prata refrescando-se sobre as águas. Ora uma nave do futuro aproveitando que a Terra parou para promover o encontro de civilizações. Se bem que parece estar havendo o desencontro de civilizações. E estamos ameaçados pela Rússia, segundo Janaína, musa do impeachment.

Passar pela Fliv 2016 me fez respirar cheio de alento. Quem quer, faz, luta. Quem não quer, desiste, dizendo não dá. Claro que dá, querendo dá. Afinal, o projeto deste Centro foi elaborado durante oito anos pelo prefeito Junior Marão. Crise? Votuporanga nem pensou nisso, saiu à luta. Fazíamos nossas participações, enquanto pessoas caminhavam, andavam de bicicleta, de skate, corriam na pista de cooper, jogavam vôlei de areia, há academias a céu aberto, praça de alimentação.

Dentro do edifício de curvas e retas, há cinema, teatro, biblioteca, espaços para palestras, exposições e shows, museu, salas para oficinas. Dentro é como se estivéssemos em um navio de vários andares. Crianças, jovens, maduros, pessoas como eu bem vividas (detesto os termos terceira idade e idoso, prefiro bem vivido) subimos e descemos, sempre olhando a água e o verde. Não conheço outro centro semelhante em todo o interior do Brasil. E olhem que Votuporanga tem 85 anos e apenas 90 mil habitantes. Não dá para colocar no páreo cidades que têm Sesc. A Fliv ferveu durante nove dias, sob curadoria de Reynaldo Damazio. O programa tinha 50 páginas repletas de acontecimentos da Orquestra Bachiana Filarmônica Sesi-SP à Mostra de Teatro Ademar Guerra, de Marcelino Freire a Evandro Affonso Ferreira, de Veronica Stigger a Márcia Tiburi, Noemi Jaffe, Cadão Volpato, Lourenço Mutarelli, Reynaldo Bessa, Fabio Moon e Gabriel Bá, Amelinha Teles.

Houve DJs, capoeira, danças urbanas, filmes, ioga no parque, o Pato Fu, o Projeto Sinfônico de Votuporanga, Quartetos de Cordas, Solidão no Fundo da Agulha, balé aéreo, contadores de histórias, funk. E tudo lotava público para todos. A cidade mostrou, querendo, dá. Batalhando, dá. O Brasil não é só a quadrilha do petrolão, do mensalão, do Parlamento e Senado corrompidos, derretidos como gosma que fede.

PS: Na crônica sobre Jaú, troquei o nome do secretário de Turismo da cidade, o também poeta e apaixonado pela arquitetura da cidade. Em vez de Ricardo Dal’Bó, coloquei Renato. Imperdoável.

 

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