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Palestrantes de 5 anos

Aquela lista de nomes mais parecia com a de palestrantes de um congresso de Direito

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2018 | 02h00

A questão dos nomes em Portugal é algo que nunca deixa de me intrigar. Já mencionei num outro texto que há, em terras lusitanas, uma lista de nomes permitidos para dar aos próprios filhos, assim como ocorre em alguns outros países europeus. Ou seja, em Portugal alguém chamado Adalberto que se case com uma Madalena não pode inventar de chamar seus filhos de Adaleno e Madalberta, o que me parece, a princípio, uma coisa boa.

Porém, vivendo em Lisboa há quase 4 anos, percebo que a coisa é mais complexa do que parece. Pois, apesar da lista de nomes ser bastante extensa, a elite portuguesa não aceita muito bem todos os nomes que lá estão. Por isso, a gama de nomes é mais restrita do que parece e talvez seja exatamente por isso que eu tenho a sensação de que, no meio das pessoas com as quais convivo, não haja uma variedade de mais de 15 nomes masculinos e 15 nomes femininos.

Tudo bem, estou me habituando a usar sempre os sobrenomes depois dos nomes para que não haja muita confusão. Ocorre que a coisa muda um pouco de figura quando as crianças entram em cena. Isso porque, no Brasil, é razoavelmente raro encontrar jovens com nomes de velhos, como é o meu caso, já que Ruth era a minha avó.

A primeira vez que conheci uma bebê chamada Inês, fiquei um pouco desconcertada. Porque, para mim, Inês poderia ser uma cartorária, uma arquiteta ou uma recepcionista de consultório médico, mas bebê? Bebê, não gente. Se é Inês, não é bebê. Ocorre que a Inês tinha um irmãozinho, muito bonitinho, por sinal, com seus 3 anos e pouco. Perguntei seu nome: Sebastião. Ai, meu Deus. Demorei para entender que lá quase todas as crianças são Ruth, em alguma medida. Vão repetindo o nome do avô, da tia, do pai e, quando a gente vê, acontece o que passo a narrar a seguir.

Era o dia do recital de música de fim de semestre na escola da minha enteada. Ela estava toda animada e ansiosa. Levei um pão de queijo para ela comer antes, como boa madrasta patriota em termos gastronômicos. Ocupamos um lugar no fundo, assistimos as outras famílias se instalarem nas cadeiras livres. O professor de piano apareceu, disse algumas palavras e distribuiu a programação do recital, com o nome das crianças que iriam tocar, em ordem de idade, dos mais novos para os mais velhos.

Quando um dos papéis chegou às minhas mãos, comecei a ler. Confesso que imaginava já estar habituada aos nomes, mas, de fato, nunca tinha visto tantos nomes de crianças entre os 4 e os 8 anos juntos, um após o outro. Conforme lia, comecei a ficar com vontade de rir, porque aquela lista de nomes, na minha cabeça, mais parecia a lista de nomes de palestrantes de um congresso de Direito Administrativo do que de um recital escolar.

A lista consistia basicamente em nomes do gênero José Maria Fernandes, Salvador Almeida, Leonor Castro, Duarte Sequeira, Bartolomeu Machado, Mafalda Bacelar, Constança Correia, Afonso Branco, Mário Varela, Matilde Infante, Tristão Mendes, Luís António Ribeiro, Maria Teresa Guimarães, Carlota Rebelo, Miguel Maduro, Francisca de Carvalho e Dinis Figueiredo.

Eu poderia perfeitamente imaginá-los discorrer acerca do princípio da supremacia do interesse público sobre o privado, sobre o regime jurídico das sociedades de economia mista ou sobre a zona de incerteza dos conceitos jurídicos indeterminados. Mas, não, eu não poderia imaginar aqueles cotocos de gente tocando as versões mais complexas do-ré-mi-fá-fá-fá, travestidos com esses nomes de gente grande.

Por fim eles tocaram e foi uma belezinha. Sigo tentando me adaptar aos caracóis vendidos vivos no supermercado, ao sol que só se põe quase 10 da noite no verão, aos 5 meses de frio no qual não dá para sair com a canela de fora, bem como a essas pessoinhas pequenas com nomes de grandes doutrinadores.

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