Palco inadequado dilui magia do Kirov Ballet

São Paulo pode considerar que não assistiu à temporada brasileira do Kirov Ballet de 2001, que começou no dia 23 e se encerra no domingo. Porque trazer uma companhia deste porte para ser apresentada num local como o Credicard Hall revela um desrespeito inaceitável para com um público capaz de pagar até R$ 250,00 por um ingresso.Os dois programas apresentados até hoje - três espetáculos de O Corsário e um de Noite de Estrelas que, curiosamente, ocorreu na matinê do domingo - foram a explicitação mais clara de que se há critério na organização de uma turnê desse porte, ele passa muito longe daquilo que realmente deveria importar: a qualidade artística do produto que está sendo vendido. De modo invertido, parece estar privilegiando a qualidade comercial do produto artístico.Sob todos os aspectos, o espaço se revela inteiramente inadequado para espetáculos de dança. Seja pela acústica, que faz tudo soar como radinho de pilha, tanto faz se uma orquestra (em O Corsário) ou uma fita gravada (em Noite de Estrelas), ou pelas condições inadequadas de iluminação do ambiente, que não se torna uma caixa preta adequada para as artes cênicas durante o dia (Noite de Estrelas foi apresentado às 17 horas de domingo). Ou pelo formato do palco, que esgarça tudo e faz com que a energia que cria aquela mágica própria das artes ao vivo se dilua inteiramente.São Paulo não pôde verificar que esse é um Kirov em fase de transição para se tornar uma companhia em que os problemas trazidos pelo isolamento durante a época comunista e agravados pós-Perestroika, se tornarão apenas referências do passado. A direção segura e sábia de Makar Vaziev está renovando com muita inteligência a mais tradicional das companhias de balé do mundo. Não apenas porque está em fase de reconstrução de sua característica mais célebre, ou seja, do seu corpo de baile, renomado pela qualidade impecável de seus bailarinos, como também, e sobretudo, pelo cuidado em agregar novos coreógrafos ao seu repertório.No O Corsário dançado naquele lugar já foi impossível revelar que em cena há novos conceitos de dramaticidade e de construção de personagens. Todavia, o Kirov ainda não avançou o suficiente para recusar progamas como o de Noite de Estrelas. Espetáculos nesse formato já deveriam se transformar em espaço para obras de coreógrafos ainda não consagrados e linguagens ainda não bem encarnadas pelo elenco.Já assistir a Serenade com o Ballet Kirov, por exemplo, é ter o privilégio de voltar no tempo. Essa foi a primeira coreografia criada por Balanchine (1934) nos Estados Unidos. Nela, a sua ligação com a tradição da companhia onde havia se formado (exatamente esta, o Kirov) ainda era recente. Dançada hoje por bailarinos que ainda mantêm vínculos bem estreitos com essa mesma tradição, como que repõe em cena todo um modo de dançar que ficou retido nos registros dos primeiros elencos norte-americanos que dançaram Serenade. Pena que foi negada a São Paulo a oportunidade de descobrir as sutilezas hoje em andamento nessa companhia tão importante.Kirov Ballet - O Lago dos Cisnes. Regência de Boris Gruzin. Hoje, às 21h30, amanhã e sábado, às 22 horas, domingo, às 17 horas. Sessão extra sábado, às 16 horas. De R$ 50,00 a R$ 250,00. Credicard Hall. Avenida das Nações Unidas, 17.955, tel. 3177-3663. Até domingo. Patrocínio: Accenture, Embratel e Correios.

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