Palco e criação em diálogo

Parque da Água Branca foi cenário ideal para recital de compositores eletroacústicos

O Estado de S.Paulo

31 Julho 2012 | 03h10

Em O Resto É Ruído, o crítico Alex Ross diz que o público tradicional da música de concerto, ou clássica, tem pavor à vanguarda porque "os ouvidos humanos são por natureza vulneráveis aos sons estranhos, não familiares, e quando os ouvem na sala de concerto sentem-se aprisionados, entram em pânico". Este pânico se potencializa quando o concerto é de música eletroacústica: não existe nada mais tedioso do que assistir ao espetáculo estático de alguns sujeitos pilotando notebooks no palco ligados a uma floresta de fios e amplificadores.

Ora, dirão os eletroacústicos, mas sua música recusa justamente o pressuposto mais querido da música de concerto: o virtuosismo do intérprete genial que espanta ao público embasbacado com sua técnica superlativa. Buscam partir do marco zero estabelecido por John Cage 70 anos atrás, quando ele rompeu a barreira mais extrema da música. Inventou a não-música com seus 4'33 de silêncio que nos obrigam a prestar atenção nos ruídos e sons ao nosso redor.

A pergunta certa é: será que os ouvidos humanos se sentiriam obrigatoriamente "aprisionados, em pânico" em qualquer tipo de contato com a música contemporânea ou de vanguarda?

Talvez a razão seja outra. Talvez seja o caso de se alterar radicalmente as regras do jogo. Por que não descartar e substituir o ritual do concerto do século 19, visivelmente incapaz de criar uma atmosfera amigável, para ficar no jargão informático, entre a música e o público quando esta é de vanguarda? Foi o que pensou um grupo de jovens compositores. De acordo com Tiago de Mello, o NME - Nova Música Eletroacústica - surgiu da união de compositores de música eletroacústica das três universidades estaduais paulistas (Unicamp, USP e Unesp). O idealizador foi o músico Sérgio Abdalla, da Unesp. As programações reúnem composições de músicos de diferentes lugares do mundo. A proposta é aproximar a música eletroacústica de um público maior. "Caso contrário, toda essa produção fica restrita à academia", diz Tiago.

Anteontem, três desses criadores - o jovem Tiago, ainda na casa dos 23 anos, acompanhado por dois especialistas consagrados, José Augusto Mannis, da Unicamp, e Janete el Haouli, de Londrina - se apossaram do coreto do Parque da Água Branca. Um formigueiro humano, feito de famílias inteiras, ocupava todos os espaços do amplo parque. Pouco depois das 14 horas, eles começaram a pilotar seus notebooks. Cantos de pássaros de todo o Brasil pré-gravados misturavam-se a ruídos produzidos, manipulados e distorcidos pelos computadores. Mannis e Tiago trabalhavam com estas sonoridades. E Janete, que está fazendo um trabalho de pesquisa eletroacústica sobre o que chama de "trens preparados", no espírito do piano preparado de Cage, interagiu com eles. Foram cerca de 40 minutos. Menos de vinte pessoas postaram-se no próprio coreto e acompanharam com atenção toda a performance.

Eu também acompanhava com atenção, mas de repente olhei em volta e comecei a observar o comportamento das famílias que passavam ao lado do coreto. Pai e filho pararam por 2 ou 3 minutos, empolgados com os cantos dos pássaros; seguiram em frente. Uma família inteira ficou um pouquinho, um casal foi chegando e sentou-se. Um menino disse ao pai: "Isso é música". E o pai transformou a afirmação em pergunta: "Isso é Música?" Sintomático.

Enfim, o público passante não ficou indiferente à performance, mas também não a assistiu por inteiro. E eu, que já estava meio enfadado pela recorrência dos procedimentos, depois de uns 10 minutos de audição contínua, percebi que a chave é não assistir ao espetáculo inteiro, mas pedaços, partes dele. E testei minha escuta, ouvindo de longe, de lugares diferentes, mudando sempre meu referencial auditivo. Como queria Cage. Sua ideia era abrir a mente para o fato de que todos os sons são música, tanto os intencionais, tocados pelos intérpretes, quanto os não-intencionais, formados pelos ruídos ambientes. Cage obriga o público a prestar atenção em outros sons e mostra que a diferença entre arte e não-arte é uma questão de percepção. Isso revolucionou a compreensão da música.

A música integra-se e se dissolve no universo riquíssimo dos ruídos ambientais - e humanos -, realizando o desejo mais caro de Cage. Esta bem pode ser a fórmula mais adequada para uma performance de música eletroacústica. NME, ocupem os parques. Só se livrem, por favor, dos títulos pomposos, como Open Cage: à la Recherche des Oiseaux Perdus. Era assim que o release anunciava para a imprensa o "concerto". No volante distribuído no Parque da Água Branca, a conversa era mais direta: "NME pássaro - pássaros eletroacústicos, músicas esvoaçantes". E a frase esclarecedora: "Uma caça ao silêncio cantante através da escuta renovada". Dedicado a Jacques Vieillard, cujo acervo sonoro de cantos de pássaros foi utilizado como matéria-prima da apresentação.

Crítica: João Marcos Coelho

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