Palco de expiações

Historiador francês Michel Vovelle usa obras artísticas para trazer de volta à cena a reflexão sobre o purgatório

J. C. ISMAEL, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

Se pensar sobre a morte pode virar uma obsessão, a atitude que costuma predominar é a de negá-la. Aliás, negá-la faz parte do pensamento ocidental desde os seus primórdios. É de Epicuro, por exemplo, o conhecido grito de descrença: "Enquanto eu sou, a morte não é, e desde que ela seja, não sou mais."

Quando, em fins de 1982, Michel Vovelle lançou na França La Mort et l"Occident ? De 1300 à Nos Jours, era difícil imaginar que ele que ele voltaria ao assunto, pelo menos num texto de grande envergadura como este As Almas do Purgatório ou O Trabalho de Luto (embora em Ideologias e Mentalidades, de 1985, tenha transcrito trechos de seminários sobre a morte e o morrer). Professor e historiador, especializado na Revolução Francesa, Vovelle, de 77 anos, mantém uma relação atribulada com o PC francês, acusado de preocupar-se demais em unificar a história das mentalidades coletivas, sem defender a ideologia socialista "pura"; além disso, põe-se a refletir sobre temas pouco "engajados", como este ? a morte.

As Almas do Purgatório... constitui-se, em sua maior parte, de minuciosas digressões e interpretações históricas das mais de uma centena de ilustrações que o acompanham: iluminuras medievais, afrescos, retábulos barrocos, imagens populares, xilos, documentos, vitrais, pinturas e até cartazes de filmes recentes. Não se espere, no entanto, que o autor se porte como um crítico de arte se perdendo em prazeres estéticos. Vovelle reafirma-se como o instigante pensador que elegeu a morte e o luto ? um trabalho "ao qual os (sobre)viventes não saberiam subtrair-se" ? como temas de uma reflexão que ocupa lugar de destaque na história das mentalidades do Ocidente. Isto, sem fugir da pergunta necessária: "Quem hoje em dia pode ter interesse pelas pobres almas do purgatório?" Parece que esse interesse diminuiu em relação ao passado, mas como, no Ocidente cristão (área sobre a qual o autor se debruça), é assunto intimamente ligado à reflexão sobre a morte, está com certeza longe de desaparecer.

Desde os primórdios do cristianismo, os padres da Igreja preocupavam-se em "criar" um terceiro local (inexistente na Bíblia) para as almas, pois parecia injusto privar as que não fossem "inteiramente más" de um cárcere transitório. O problema foi descrever esse local "de temor e de esperança", como o define Vovelle. Diante da impossibilidade de se chegar a uma definição pacífica, o Concílio de Trento decretou que, sendo o purgatório um estado de expiação (e jamais de arrependimento), a questão do local se afiguraria irrelevante.

Vovelle lembra que foi Santo Agostinho quem definiu as penas purgatórias, as quais só poderiam ser aliviadas pelos sufrágios dos vivos. Mas as discussões para se estabelecer o local (e suas características) onde as almas penadas aguardam sua libertação começaram muito antes do bispo de Hipona. E se arrefecem de tempos em tempos, continuam latentes, passando por toda forma de descrição: ora fosso de água, ora de fogo mais ameno que o infernal. E, por que a própria Terra não pode servir de terceiro local destinado à purga dos pecadores? Pode, explica Vovelle, com a ressalva de que suas almas, purificadas, só repousarão no Paraíso no dia do Juízo Final.

Outra questão sobre a qual as divergências são antigas, comenta o autor, é a duração da sentença que as almas têm que cumprir. A Igreja, tentando encerrar as discussões sobre o assunto, vem procurando datar o fim dos tempos como o fim do próprio purgatório ? e a consequente libertação dos seus cativos. Enfim, as "teorias" sobre o purgatório são muitas e, independentemente da crença do leitor na sua existência, aceite o convite de Vovelle e faça a viagem por essa perturbadora figuração pictórica, cujo percurso pode ser usufruído sem nenhum tipo de crença religiosa.

J.C. ISMAEL É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE INICIAÇÃO AO MISTICISMO CRISTÃO (NOVA ERA/RECORD), O MÉDICO E O PACIENTE (MG EDITORES) E SÓCRATES E A ARTE DE VIVER (ÁGORA/SUMMUS)

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