PALAVRAS SOLTAS NAS RUAS

Com frases 'roubadas' aqui e ali, a gaúcha Veronica Stigger criou Delírio de Damasco

DIRCE WALTRICK DO AMARANTE , ESPECIAL PARA O ESTADO, DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É TRADUTORA, ENSAÍSTA, PROFESSORA DE ARTES CÊNICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2013 | 02h13

"O mundo está cheio de objetos, mais ou menos interessantes; eu não desejo acrescentar nenhum outro", afirmou o artista conceitual norte-americano Douglas Huebler.

Em Delírio de Damasco (Cultura e Barbárie, 80 págs., R$ 30), publicado no fim do ano passado, a escritora gaúcha Veronica Stigger parece concordar com a afirmação de Huebler.

O seu livro é um compêndio de frases ouvidas casualmente na rua, como ela própria admite no posfácio: "Delírios de Damasco é uma reunião dessas frases ouvidas aqui e ali, numa espécie de arqueologia da linguagem do presente, em busca da poesia inesperada - dura ou tenra, ingênua ou irônica - que pudesse haver em meio a nossos costumeiros diálogos sobre a tríade sangue, sexo, grana".

Talvez pudéssemos incluir Veronica Stigger num grupo de escritores e artistas "não criativos", expressão tomada de empréstimo do livro Uncreative Writing, do também americano Kenneth Goldsmith. Esses artistas, que começaram a produzir mais intensamente no início do século passado, criam obras tendo como ponto de partida a recomposição de frases e informações já prontas. Entre os predecessores dessa prática podemos citar os readymades de Marcel Duchamp e a escrita automática dos surrealistas.

Na opinião da crítica norte-americana Marjorie Perloff, o escritor de hoje é muito mais um programador do que um "gênio torturado" que se preocupa em escrever cada vez mais. Ao contrário de querer escrever mais, diz Perloff, o escritor programador se dedica a negociar com a vasta quantidade de informações já existente. "Não imagina o que ficou de fora": não é à toa que essa frase encerre Delírios de Damasco.

Quanto à autoria e à originalidade, elas estariam, no caso da escrita "não criativa", diretamente relacionadas à seleção e à organização das informações já existentes: "É isso que distingue a minha escrita das outras", afirma Kenneth Goldsmith.

Esse recurso contemporâneo ao "plágio" possui uma longa tradição. Sabemos que, há muito, na literatura, as ideias têm sido compartilhadas, reusadas, selecionadas, "roubadas". No século 19, só para mencionar um exemplo, Gustave Flaubert escreveu Dicionário das Ideias Feitas a partir de frases encontradas em livros.

Para Veronica Stigger, em Delírio de Damasco, o ato de escrever se torna literalmente o ato de mover a linguagem de um lado para outro, em busca de sons soltos no ar, e é nesse deslocamento que a escritora encontra a sua voz.

As frases recolhidas na rua não são, porém, tão aleatórias quanto parecem. Nelas, reconhecemos a Veronica de outros livros (Gran Cabaret Demenzial, Os Anões), a escritora que se interessa pelo grotesco: "Quando era jovem, eu vomitava que era uma beleza"; pelo nonsense: "O sonho dele era ser garçom nos Estados Unidos. Foi para a França"; e pelo "politicamente incorreto"; "Seus amigos são tão lindos. Pena serem todos gays".

Isso demonstra que "a supressão da expressão pessoal é impossível. Mesmo quando fazemos algo aparentemente 'não criativo', como redigitar algumas páginas, nós nos expressamos de diversas maneiras", admite Goldsmith.

Brincadeira. Nesse breve livro feito de frases feitas, Veronica revive a brincadeira infantil de recortar e colar, da qual "a leitura e a escrita", lembra Antoine Compagnon, "não são senão formas derivadas, transitórias, efêmeras". No entanto, prossegue o crítico francês, "colar novamente não recupera jamais a autenticidade", e é nessa perda que a voz do autor paradoxalmente aparece.

A propósito do título do livro de Veronica, Delírio de Damasco é o nome de uma torta que a autora teria experimentado numa confeitaria em Porto Alegre, sua cidade natal, sem excluir o eco bíblico, pois o caminho de Damasco é propício a revelações...

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