Palavras sólidas em clima eleitoral

Chegam às livrarias, em reedição, três obras de cronistas do Estado em que a política é tratada de formas diferentes

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2010 | 00h00

Em ano eleitoral, como o discurso político se torna volátil, é prudente apoiar-se em palavras sólidas, como as escritas pelos cronistas do Estado Luis Fernando Verissimo, João Ubaldo Ribeiro e Ignácio de Loyola Brandão. Dos dois primeiros, chega hoje às livrarias a reedição de obras em que a política é tanto tratada como sátira (Verissimo) como com seriedade professoral (Ubaldo) - são As Cobras (200 páginas, R$ 49,90) e Política - Quem Manda, Por Que Manda, Como Manda (192 página, R$ 35,90), ambos editados pela Objetiva. E, desde a semana passada, está disponível Zero (Global, 390 páginas, R$ 65), edição comemorativa de 35 anos de um clássico de Loyola que foi censurado pelo regime militar nos anos 1970.

As Cobras é uma antologia com tiras criadas por Verissimo a partir de 1975. Com um traço tosco, minimalista, as simpáticas répteis ridicularizavam a situação sociopolítica nacional em um momento sufocante, com os militares ditando normas no poder. O escritor dizia ter escolhido cobras por se tratar de um bicho fácil de desenhar, mas, em sua aparente ingenuidade, elas desafiavam Deus, técnicos de futebol e, principalmente, políticos.

"O desenho tem uma conotação lúdica, infantil, que lhe permite ser mais "malcriado" do que o texto", diz Verissimo, na entrevista abaixo, em que não revela intenção de ressuscitar as cobrinhas, "mortas" em 1999 depois de longo sucesso em jornal (a tira foi publicada pelo Estado) e em livro (uma primeira coletânea foi editada nos anos 1980).

Já Política é uma nova edição da obra que João Ubaldo lançou em 1981, na qual exercita seus conhecimentos de mestre em Ciência Política e Administração Pública, curso frequentado na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. No livro, ele parte do princípio de que qualquer homem civilizado não escapa da política, mesmo aquele que foge de mensagens divulgadas pela imprensa. "Isso nos torna indiferentes e, em última análise, ajuda a que o político que está na televisão consiga o que quer, já que não nos opomos a ele", escreve. Sem citar o nome de nenhum político ou mesmo de partido, Ubaldo apresenta um prazeroso manual de entendimento, útil em épocas eleitorais.

Zero, por outro lado, recupera um momento obscuro da história brasileira. Trata-se de um fantástico jogo intelectual, com a ficção se confundindo com a realidade em meio a colagens de desenhos unidos às vezes por frases sem pontuação. Loyola utilizou o material censurado que recolheu durante vários anos do jornal Última Hora, no qual trabalhava como secretário gráfico.

"Eis aí o outro Brasil, que ninguém conheceu, ninguém soube", disse-lhe um amigo. Era o empurrão necessário. Publicado primeiro na Itália, em 1974, Zero chegou ao Brasil no ano seguinte. Sucesso imediato de público e crítica, despertou a atenção dos militares. Proibido, só foi liberado em 1979.

Veja tiras das Cobras de e ouça áudio de João Ubaldo

POLÍTICA

João Ubaldo Ribeiro

ESCRITOR BAIANO

"Não existe o tal sujeito que venha nos redimir"

  

Até que ponto é prejudicial a realidade política brasileira, em que os políticos são mais valorizados que os partidos?

É ruim, pois os partidos não só se parecem como são intercambiáveis, são trocados de maneira trêfega e aligeirada, assim como alguém troca de camisa. Não querem dizer nada, são uma grande farsa. Isso é péssimo, porque a política fica conduzida em termos individuais. Não me refiro ao presidente Lula, mas aos males que isso pode causar, pois a independência excessiva de um indivíduo provoca seu endeusamento e também efeitos colaterais muito desagradáveis. Por mais virtuoso que esse líder seja, é difícil resistir à condição de endeusamento total, como já mostrou a História.

Qual modelo de dirigente que você escolheria para o Brasil?

Não existe esse sujeito que venha nos redimir. Não sou sebastianista, redentorista, não quero o salvador da Pátria. Mas eu posso apontar um sonho que é comum a de muitos brasileiros: como seria bom se aqui fosse uma estável República parlamentarista, com devida alternância de poder de tendências básicas na nossa sociedade e que conseguisse manter, através da representatividade do parlamento, um equilíbrio entre os diversos interesses do corpo social. Meu modelo não é um dirigente, mas um regime, um sistema.

Como, em seu modo de ver, o Brasil pode extirpar a corrupção endêmica e institucionalizada?

Acho difícil que o Brasil extirpe a corrupção. É tão arraigada, cada vez se expande mais. É um mundo já confuso, tantas são as denúncias, tão volumosos são os escândalos e as somas envolvidas. Quem for tentar resolver, em muitos casos setoriais, morre. Já chegamos a esse ponto. Sou pessimista, não sei como vai ser extirpada. Talvez a educação seja a esperança: novas gerações educadas, vivendo com relativa decência, possam ter o equilíbrio necessário para consertar isso.

O que pensa sobre o conceito do homem cordial e o de democracia racial?

A ideia de que somos um povo bonachão, simpático, cordeiro, de que temos a tendência ovina a acatar a autoridade sem discutir, isso me parece visível na conduta do brasileiro de hoje. Sobre a expressão democracia racial, não gosto porque é o mesmo que dizer democracia do ponto de vista das raças. Seria o mesmo que dizer democracia religiosa, ou sexual.

AS COBRAS

Luis Fernando Verissimo

ESCRITOR GAÚCHO

"O desenho permite ser mais "malcriado" do que o texto"   

O traço das Cobras ora é elogiado (redondinho, bem-acabado), ora encarado com ressalvas (incompleto, daí o charme). Passados mais de dez anos depois da decisão de não mais desenhá-las, como você analisa aquelas tiras?

Os primeiros desenhos das Cobras eram horrorosos. Com o tempo elas melhoraram e ficaram mais redondas e certinhas. Mas a qualidade do desenho nunca foi uma intenção.

Por ser também econômico no traço e dividido entre as letras e a ilustração, o americano Jules Feiffer parece ser uma inspiração imediata, confere? Há outros?

O Feiffer influenciou algumas coisas que eu fiz, mas não as Cobras. Na verdade, elas só são cobras porque cobra é fácil de desenhar. Cobra é só pescoço. E o traço do Feiffer era econômico, mas não era simples.

Particularmente, penso que as Cobras são, de alguma forma, uma homenagem a outro grande personagem, a Graúna, do Henfil, que, praticamente sem corpo, conseguia ser extremamente expressiva com os olhos. O que pensa disso?

Agradeço a comparação. Eu gostava muito do Henfil. Mas, se houve homenagem, não foi consciente.

As Cobras surgiram nos anos 1970, época em que vigorava uma forte censura. Era, portanto, uma forma de diluir a acidez crítica em cartuns e desenhos? Qual foi a melhor "mensagem proibida" que conseguiu passar?

Não foi por acaso que a grande revelação do humor brasileiro na época da repressão foi o Henfil, com seus desenhos. O desenho tem uma conotação lúdica, infantil, que lhe permite ser mais "malcriado" do que o texto. No caso das Cobras, eu inventei um rinoceronte blindado, truculento, que vivia pisando nas Cobras e era claramente uma referência ao regime militar. Ou talvez nem tão claramente, porque nunca foi censurado.

Há ainda leitor que reclama pela morte das Cobras. É uma decisão irreversível ou elas poderiam ressuscitar? Na sua obra, quem seria hoje o herdeiro direto das Cobras?

Uma reprise de tiras antigas está saindo no Terra Magazine do Bob Fernandes todas as semanas. Fora isso, não prevejo sua ressurreição. Eu ainda faço os desenhos da Família Brasil, que também é rudimentar, mas não tem nada a ver com as Cobras.

ZERO

Ignácio de Loyola Brandão

Escritor Paulista

"Durante anos fui revendo Oito e Meio. Até hoje vi 140 vezes"

 

Você disse, certa vez, que a estrutura desordenada do filme Oito e Meio, de Fellini, influenciou muito o Zero. Como foi?

Em 1963, aos 27 anos, fui à Europa pela primeira vez e me vi em Roma, sem falar italiano. Certa tarde, nos primeiros dias, verãozão, entrei num cineminha perto da Fontana de Trevi. O filme: Oito e Meio. Entrei no meio da sessão e não entendi nada, mas me fascinei com as imagens. Nunca tinha visto um filme feito com tanta liberdade narrativa. Então, uma narrativa podia ser (aparentemente) dispersa, caótica (ainda que organizada), fragmentada (ainda que cada fragmento tendo uma função). Ao longo dos anos fui revendo Oito e Meio várias vezes. Até hoje vi 140. Depois do golpe de 64, comecei a recolher material para algo que eu não sabia o que era, mas seria Zero, fragmentos foram se amontoando em minha cabeça. Como ordenar isso, que estrutura usar? Não tinha referenciais na literatura. Então, uma noite, revendo Oito e Meio me veio o insight: liberdade, soltar, escrever, ir para trás e para frente, juntar pedaços, pensamentos, ruídos, vozes, lembranças. O Brasil era o caos, a violência. Estava explodido, despedaçado. Como juntar esses pedaços? Igual ao Oito e Meio, um amontoado de pedaços organizados. Nada de explicações, começo, meio e fim, psicologismo, etc. O livro nasceu.

Zero tem uma amargura característica. O momento político é decisivo na formulação de sua obra no momento de criação?

Certamente. Quando veio o golpe de 64, minha geração percebeu que estava perdida, que o futuro parecia cancelado, que o porvir (epa) tinha se esfacelado. Alguns escolheram a luta armada. Mas esse não era meu caminho. Decidi então construir minha bomba. Zero foi uma bomba literária que joguei em cima daqueles militares, daquele regime.

O crítico Wilson Martins disse que Chico Buarque teria recozido Zero para escrever Fazenda Modelo e Estorvo.

Até hoje procuro fundamentos no que o Wilson disse e nunca encontrei. São coisas tão diferentes. Não sei onde ele encontrou base para isso. Fiquei perplexo na época, e ainda agora quando me perguntam.

Zero influenciou sua obra?

Zero é uma obra solitária. Nunca mais voltei à sua estrutura, achei que estava esgotada ali, o resto seria repetição. Foi um momento único. Nenhum outro livro da literatura brasileira seguiu os passos deste livro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.