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'Palavras são como caramelos', diz escritora Lya Luft

De volta ao romance, autora constrói trama delicada em linguagem simples

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo,

25 de novembro de 2012 | 02h12

Lya Luft não escrevia um romance desde O Ponto Cego, lançado em 1999. Ao longo desses 13 anos, ela lançou um livro de contos (O Silêncio dos Amantes, de 2008) e se consolidou como uma autora de imensa notoriedade, especialmente por criar pequenos ensaios que, graças à sua forma predileta de se dirigir ao leitor (direta e coloquial), não apenas revelam suas perplexidades, como também focam o drama existencial humano - o fruto mais célebre é Perdas e Ganhos, de 2003, que encabeçou a lista dos mais vendidos durante 113 semanas.

Agora, Lya retoma a escrita de fôlego com O Tigre na Sombra (Record), delicado romance sobre Dolores, conhecida como Dôda, que, ao nascer com uma perna mais curta, luta para vencer as barreiras sentimentais e pessoais impostas por essa deficiência. Ao seu redor, circulam a irmã Dália, bela mas com um destino desastroso; a mãe, que vive a exaltar os defeitos de Dôda; o pai, carinhoso com ela mas um homem atormentado, que dorme com um revólver debaixo do travesseiro; e a avó, Vovinha, que oferece tranquilidade nos momentos mais atribulados.

Tímida, Dôda projeta na imagem que vê no espelho a mulher perfeita que gostaria de ser. Acredita também na presença de um misterioso tigre de olhos azuis. Sobre o livro, Lya respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

Como nasceu seu romance?

Lya Luft - Todos os meus livros de ficção gestam por longo e confuso tempo. Aparecem e somem dessas turvas águas do meu inconsciente várias vezes, misturados, a maioria morre na praia, um e outro se firma, e me chama e me seduz, e construo uma história de enigmas que nem eu entendo bem e, por isso, é tão lúdico e desafiador escrever. Porém, depois que se afirma, leva uns 6 meses para ser escrito. O Silêncio dos Amantes começou como romance, mas acabou em contos. Não sei explicar, nem precisa. Importa o leitor.

É interessante a relação de Dôda com a Dolores que vê no espelho - você se lembrou de Borges quando criava essa relação que retrata um estilo de consciência?

Lya Luft - Nunca me lembro de coisas que li ou vi quando escrevo, mas devem estar naquelas águas turvas onde fica tudo. Como contos de fadas, por exemplo, coisas tão remotas da infância, os medos, as invenções. Muito depois de pronto meu Tigre, alguém falou e lembrei que Borges tratava de tigres. No começo, o meu animal era um polvo que de noite, no fundo mais escuro do mar, abria um enorme olho azul e fitava a menina, depois a mulher, as pessoas. Mas um dia achei o polvo meio repulsivo quando saía da água e sacolejava na areia. Matei o polvo. Tempos depois apareceu um tigrezinho no quintal e adorei. E, depois, ainda pensei, que seria muito legal se ele tivesse olhos azuis.

O livro revela seu cuidado com a escrita. Como foi o processo?

Lya Luft - Raramente escrevo em ordem cronológica, mas em espirais ou fragmentos que componho depois. Reescrevo interminavelmente porque busco a linguagem simples e sofisticada, clara mas não banal, essa fala íntima com meu amigo imaginário, o leitor, e comigo mesma. Gosto de palavras, frases: são como caramelos, flores, borboletas para mim. Escrever é um estado de felicidade, harmonia, alegria. Meus personagens sofrem: eu não, ao contrário, preparo armadilhas, até para mim mesma, rondo o mistério, o Tigre é o enigma enfim: morte? No fundo, importa saborear frases, palavras, história, vida e morte e conflito e ternura e claridade e noite. Importa talvez só a última frase do livro: "Nenhum tigre tem olhos azuis".

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