JB Neto/AE
JB Neto/AE

Palavras que ferem

Reynaldo Gianecchini, Erik Marmo e Maria Manoella oferecem um duelo verbal em Cruel

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2011 | 00h00

A vilania vem acompanhando o trabalho do ator Reynaldo Gianecchini - depois de se esmerar na calhordice de Fred, um dos protagonistas da novela Passione, agora ele se dedica em tempo integral a Gustavo, homem que usa apenas as palavras para causar o mal absoluto. "Mas, desta vez, o processo foi mais angustiante e sofrido", conta o ator que, ao lado de Maria Manoella e Erik Marmo, estreia a peça Cruel, no dia 27, no Teatro Faap, que abre horários alternativos para espetáculos, às segundas e terças-feiras.

Trata-se de um projeto arrojado. Escrito pelo dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912), o texto mostra como três personagens se digladiam até que ambos terminem em uma situação mais arrasadora que antes. Em Cruel, o que predomina é violência psicológica. "Um homem mata o outro apenas com o poder de persuasão das palavras", observa Marmo, que também passou por um intenso processo de preparação.

É um momento único, esse vivido pelos atores. Dispostos a mostrar que não são apenas galãs de novelas, saíram em busca de uma montagem desafiadora. Bateram em várias portas até encontrarem duas amigas, as divulgadoras e produtoras Célia Forte e Selma Morente, que queriam justamente montar o elenco para uma peça que é uma verdadeira provação. Cruel - que, na realidade, é outro título para Os Credores - revela as minúcias de uma degradação mental.

Gustavo (Gianecchini) encontra-se com o amigo Adolfo (Marmo), agora casado com Tekla (Maria Manoella), escritora bonita e sedutora. Durante um momento de ausência da mulher, Gustavo aproveita para testar o amor do frágil Adolfo que, inseguro, aceita esconder-se para que o (suposto) amigo teste a fidelidade de Tekla. A resolução é trágica.

"Strindberg promove um intenso debate de ideias e foi o primeiro autor a transformar o espectador em voyeur, como se observasse pelo buraco da fechadura", comenta Elias Andreato, diretor e autor da adaptação do original. "Decidi trocar o título Os Credores por Cruel porque esse se aproxima mais das intenções do texto, que oferece uma arguta observação do cotidiano da alma humana."

A intimidade que tem com a peça deu-lhe segurança para promover a troca - desde 1983, quando encenou outro título de Strindberg, Senhorita Júlia, Andreato vinha tentando montar aquele espetáculo. Ouviu diversas negativas por conta principalmente do tom obscuro da narrativa. Acabou agradando a Gianecchini e Marmo, que indicaram Maria Manoella para a profunda viagem interior.

"São personagens cheios de dualidade e complexidade, fingem emoções a ponto de dizerem uma coisa e pensar outra", fala Gianecchini que, em cena, evita maneirismos ao transmitir todo o ódio represado de Gustavo. Ele não desconhece a importância de personagens assim - Shakespeare gostava de usar seus vilões para dizer o indizível, e eles eram quase sempre os únicos personagens lúcidos das suas peças, os únicos sem qualquer ilusão sobre a sua motivação e a dos outros.

Personagens como Edmundo, Iago e Ricardo III não são realistas - poucos bandidos têm uma noção tão clara da sua própria calhordice, ou a festejam tanto -, mas são grandes papéis porque neles o mal se autoexamina em grandes discursos cínicos, e poucas coisas são, dramaticamente, tão fascinantes quanto o cinismo ostentado - ainda mais bem escrito.

Em Cruel, a situação é semelhante. Afinal, no teatro de Strindberg, os personagens de suas peças podem passar a vida se digladiando em querelas que, na maior parte das vezes, só têm perdedores. "O mais curioso é que os três personagens de Cruel são, de alguma forma, representações do próprio Strindberg, sua forma de analisar o casamento e suas consequências como separação, ciúme, fraquezas", comenta Manoella que, apesar da misoginia explícita do autor, não vê Tekla como uma derrotada. "Aparentemente, ela é a principal perdedora, além de ouvir desaforos de todos os lados - chegam a chamá-la de velha", comenta a atriz. "Mesmo assim, há uma resistência em suas mulheres que ultrapassa talvez as intenções do autor."

Para entender todas as camadas do texto, o trio de atores trabalha intensamente com o diretor. Como as palavras têm função decisiva, Edi Montecchi cuida da preparação vocal, enquanto Vivien Buckup é responsável pela corporal - necessária para se evitar gestos bruscos que desviem a intenção dos diálogos. Andreato optou por uma narrativa próxima do realismo, apesar do expressionismo normalmente escolhido por Strindberg. E, como os diálogos são ríspidos em sua maioria, o tom amarelado da iluminação de Wagner Freire é alentador.

"Vem se tornando raridade a encenação de uma peça no estilo clássico, em que o texto é, de fato, o fio condutor das interpretações", observa Andreato, que guarda experiências surpreendentes no contato com o público. "Recentemente, uma senhora me disse que estava com a cabeça cansada depois de acompanhar uma peça com muitos diálogos. Em Cruel, as mentes se enfrentam. E o bom espectador se sente vencedor."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.