Palavras

NOVA YORK - Em matéria de articular indignação ou defender posições insólitas com eloquência, acho que a turma do segundo grau da escola pública aqui perto tem um time de debatedores mais convincentes. Falo das declarações públicas que cercaram a aventura brasileira agora conhecida como Argo nos Andes, que, de potencial filme de suspense produzido por George Clooney, periga ter um roteiro de chanchada da Atlântida.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2013 | 02h16

Em matéria de articular indignação sobre a Síria, os adolescentes da mesma escola podem estudar a alta oratória de gente como John Kerry ou Barack Obama nos últimos dias. Como tratam bem a própria língua, estes homens públicos em Washington.

"Em vez de dormir na segurança de suas camas, vimos fileiras de crianças lado a lado, espalhadas no chão, todas assassinadas pelo gás de Assad", disse Kerry, sugerindo aos que ignoram a evidência do ataque hediondo (ouviu, Vladimir?) conferir sua bússola moral. "Não podemos criar nossos filhos num mundo em que não agimos de acordo com nossas palavras, com os tratados que assinamos, com os valores que nos definem", disse um sombrio Obama, ladeado por um sombrio vice-presidente Biden. Meia hora depois, foram jogar golfe.

Em quase duas semanas de choque com as imagens de crianças se contorcendo e com suas bocas espumando, as cenas que o mundo supunha ter banido há quase cem anos, a diferença entre palavras e ações só fica mais evidente. Se 50% dos americanos são contra um ataque à Síria sob qualquer pretexto e 60% dos britânicos concordam com eles, seus governos sabem que foram as palavras de 2003 que erodiram a credibilidade em 2013. Afinal, 6 mil soldados voluntários dos dois países perderam a vida na invasão sob falso pretexto que matou 100 mil iraquianos.

"Como vocês pedem a um homem para ser o último a morrer por um erro?", perguntou, em 1971, um cabeludo e condecorado John Kerry, aos 28 anos, numa das declarações mais citadas sobre o fiasco americano no Vietnã. O ex-senador e agora Secretário de Estado tem demonstrado mais contundência e convicção pela decisão de atacar a Síria do que seu patrão. O que ele não explica é se tem planos para impedir que outro veterano faça a mesma pergunta que fez quando voltou da guerra.

"Eu entendi", admitiu um humilhado David Cameron, quando seus aliados transmitiram o recado do público e, pela primeira vez, desde 1782, negaram a um primeiro-ministro britânico autorização para um ato de guerra. Ponto para Cameron por não tentar encobrir sua trapalhada com voos de retórica.

No caso da Síria, o palavrório que mais desafia a credibilidade é o da missão humanitária. Os EUA podem disparar quantos mísseis quiserem, da segurança de seus navios no Mediterrâneo, mas não me venham dizer que atacam para salvar vidas das crianças choradas por estranhos, graças ao YouTube. Fazer chover mísseis durante dois dias, quem sabe até imobilizar boa parte do sistema de transporte do coquetel hediondo de armas químicas, não vai salvar vidas. Vai apenas fazer uma correção no método do lento genocídio. Pergunte aos amputados de Ruanda, que esperaram por um Bill Clinton hoje arrependido.

Os indignados de 2013 cruzaram os braços em 2012 enquanto Assad bombardeava a população. Mais de cem mil mortos depois, e com a forte presença de rebeldes islâmicos, entramos no território desconhecido, em parte por causa de outras palavras: a declaração improvisada de Barack Obama, há um ano, sobre a "linha vermelha" que Assad não poderia cruzar, se usasse armas químicas. O governo americano sabe desde dezembro que armas químicas foram usadas na Síria. Três dias antes do ataque de 21 de agosto, a inteligência americana observou os preparativos dos militares sírios que fariam 1.500 vítimas com gás sarin mas nada disse a lideres rebeldes com quem tem diálogo. No pesadelo sírio, os que mais têm a dizer vão sendo silenciados.

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