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Fábio Porchat
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Palavrão

Todo mundo fala palavrão. O tempo todo. Até a mais carola das carolas. Afinal de contas, ninguém perde a hora de manhã para ir ao trabalho e fala "poxa". Não é natural. Quando o atacante do seu time perde um pênalti, você, irritado, não profere palavras como: "Ora, ora" ou "Ai, ai, ai, Edmundo, que feio".

Fábio Porchat,

18 de agosto de 2013 | 02h14

Na verdade, o palavrão, ele é da natureza do ser humano. Nós precisamos dele, ele é libertador. Quando bem empregado, chega a passar desapercebido! Tenho certeza de que, se fizessem uma pesquisa, iriam descobrir que, quando você fala um palavrão, seu corpo elimina toxinas que o estressam!

Há uma função em sua existência. Ele vem de dentro, de um lugar obscuro em você onde muita coisa fica guardada. Ele alivia um peso e uma tensão do seu interior. Quando você está "muito" qualquer coisa - muito feliz, muito triste, com muito sono -, tem sempre um palavrão envolvido.

O palavrão é usado quando não há mais palavras para expressar aquilo que você está sentindo. Ele extrapola a possibilidade do seu sentimento ser compreendido pela humanidade através das reles palavras comuns. Ele vem pra dizer ao mundo: "Prestem atenção nesta pessoa, pois, de todos os vocábulos do mundo, ela escolheu este e é um palavrão".

Claro que, hoje em dia, por ser tão corriqueiramente usado, ele perdeu seu caráter vanguardista. Ele pode ser considerado chulo, mas não se enganem. Na essência, ele é fundamental e bem-vindo. Notem que, na sua maioria absoluta, o palavrão é simplesmente alguma parte do corpo humano ou do que sai dele ou do que você faz com ele. Como braço, perna, pescoço, suor, normal. Mas ele pode tomar várias formas. Por exemplo, na frase "Vossa Excelência está fazendo chicana", o palavrão, no caso, é "Vossa Excelência", apesar de o ofendido ter reagido ao "chicana". Às vezes, um "Jesus Maria José" vem com a entonação de um palavrão. Um "minha Nossa Senhora" pode ser considerado um substituto imediato.

E o curioso é que as pessoas odeiam palavrão. Se veem num filme, numa peça, acham apelativo. Mesmo que riam muito durante a apresentação, aplaudam e se divirtam, saem falando que não gostaram. Mas gostaram. Claro que tudo em excesso é ruim, palavrão, carne vermelha, exercício, mas só ele recebe essas críticas.

O palavrão sofre preconceito por ser palavrão. Ele é maldito. Ele choca. Ainda. E todo mundo tem um preferido ou um que mais fala. Tem palavrão que, de tanto ser falado, deixou de ser palavrão e foi alçado ao posto de palavra. Interjeições como "cáspita" ou "homessa" são espécies de palavrões de época, possíveis prum tempo em que os palavrões de hoje eram completamente impensáveis. Destes modernos, há alguns que minha vó não sabe nem do que se trata.

Tem palavrão que perdeu a sua força. "Filho da mãe", pra citar um, já foi até nome de novela. Ou seja, há esperança para o palavrão. Com o tempo, ele talvez possa ser libertado e usado por freirinhas em quermesses beneficentes.

Mas, enquanto isso, continue praticando. Pegue aquele com o qual você mais se identifica e vá à forra!

Neste momento, eu tô pensando em um, e você? Não? Ah, então...

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