Palatnik, um mestre da luz e do movimento

Abraham Palatnik é uma espécie deorgulho nacional. Reconhecido mundialmente como o pioneiro daarte cinética, ele foi o primeiro a utilizar o movimento e a luzcomo elementos de criação artística. Mas mais importante do queessas questões de recordes e primazias de datas é o enormelegado e coerência desse artista nascido em Natal, no Rio Grandedo Norte, há 74 anos, e que agora é homenageado com estaindicação à atual edição do Prêmio Multicultural Estadão. São mais de 50 anos criando estranhas e belas engenhocasque se comunicam diretamente com o público, sem precisarapoiar-se em narrativas ou elementos externos. Tanto asprimeiras obras, batizadas de Aparelhos Cinecromáticos por MárioPedrosa - que serviu a Palatnik como uma espécie de guia epadrinho de sua descoberta criativa -, quanto os objetoscinéticos que se sucederam, fogem do campo da representação ebuscam exprimir-se apenas por meio de sucessões rítmicas,associações de cor e movimento descobertas a partir de umaprofunda crise. Tendo começado a pintar aos 16 anos, ele obteve umasólida formação artística em Tel-Aviv, onde fora com o paivisitar o avô e acabou sendo obrigado a ficar por longos anospor causa da 2.ª Guerra Mundial. Também em Israel ele estudoumecânica, especializando-se em motores de combustão. Em 1948,quando retornou ao País, ainda se dedicava à pintura narrativasem maiores conflitos, até que se depara com o profundo e ricouniverso criativo dos internos do hospital psiquiátrico doEngenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro (os psicóticos que a dra. Nise da Silveiratratava por "clientes"). "Meu mundo interno desmoronou. Vitrabalhos com uma densidade e uma beleza extraordinárias, vindosda profundeza do inconsciente, enquanto que eu me baseava apenasem estímulos externos. Resolvi abandonar a pintura porquecheguei à conclusão de que meu subconsciente era muito pobre,muito pálido", resume. Em meio a essa crise de identidade artística, o encontrocom Mário Pedrosa foi fundamental. O crítico orientou Palatnikmostrando-lhe a existência de outros aspectos da forma,sugerindo-lhe leituras sobre a gestalt e inclusivepresenteando-o com um livro sobre cibernética, sem saber queessa guinada se tornaria a base para o desenvolvimento de umafascinante e coerente trajetória, capaz de fascinar adultos ecrianças com sua simplicidade e magia. "Percebi então que não era tão vazio assim", contaele. "Vi que em vez de representar, podia fazer trabalhos querealmente representam a si mesmos", conclui. As pessoas tambémperceberam com certa rapidez a importância desse trabalho,apesar da profunda revolução que Palatnik propunha com suasengenhocas. Já na 1.ª Bienal de São Paulo foi exibido umaparelho cinecromático, em parte por uma feliz coincidência, jáque depois de ter sido cortado pelo júri o artista foi chamadoàs pressas para exibir seu trabalho em substituição à delegaçãojaponesa, que falhou na última hora. Os jurados internacionais tentaram inclusiveconceder-lhe um prêmio, mas a situação um pouco irregular de suaparticipação e o fato de ser impossível situar esse estranhoaparelho que exibe belas pinturas cromáticas em movimentocontínuo nas categorias tradicionais de pintura, escultura egravura acabou fazendo com que Palatnik conseguisse apenas umamenção especial. Nesses primeiros trabalhos, os mecanismos ainda estavamum pouco ocultos. Mas pouco a pouco os circuitos que comandam ostrabalhos foram tornando-se cada vez mais visíveis, a tal pontoque os parafusos, porcas e circuitos tornaram-se a própria obra,como puderam observar os visitantes da bela retrospectiva de suaobra realizada este ano no Itaú Cultural. Palatnik também deixou claro essa necessidade de afirmarconstantemente que o seu trabalho consiste em sublinhar asforças naturais, como a atração dos ímãs e a força da gravidadeque põe para atuar livremente no espaço, em um recente trabalhofeito para um concurso de arte sul-americana realizado emSantiago do Chile. Foram convidados para o evento 25 artistas decinco países do Cone Sul. A cada um deles foi dada uma telabranca, com as mesmas dimensões. Palatnik simplesmentetransformou a tela em suporte, furou a lona para dar passagem amais um de seus mecanismos e ganhou o primeiro prêmio. Talvezeste não seja seu último prêmio do ano. Mas mesmo se dizendocontente com a indicação ele, timidamente, muda de assunto."Sempre fico surpreso com essas coisas. Não tenho vocação paraisso."

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