Palácio de Ideias

Prosa de Sábado

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2012 | 03h08

Um missionário jesuíta na China medieval, chamado Matteo Ricci, desenvolveu uma poderosa mnemônica mediante a associação daquilo que deve ser memorizado com espaços conhecidos, que se consagrou com o nome de "palácio da memória". Sua história foi contada pelo sinólogo britânico Jonathan D. Spence num fascinante livro, O Palácio da Memória, de Matteo Ricci, traduzido há 26 anos pela Companhia das Letras e lido com avidez por Joshua Foer, aquele "atleta mental" mostrado no último Fantástico. Joshua, irmão caçula de Jonathan Safran Foer, autor do romance que deu origem ao filme Tão Forte e Tão Perto, já publicou um livro a respeito de sua adaptada mnemônica, A Arte e a Ciência de Memorizar Tudo (Nova Fronteira), mas não é sobre ele, nem sobre Ricci, que versa a nossa prosa de hoje.

Tem memória sim, porém em outra escala, assumidamente modesta e inspirada em Ricci: em vez de um palácio, um bangalô. O Chalé da Memória (Objetiva, 222 págs., R$ 32,90, tradução de Celso Nogueira) guarda todas as lembranças de infância, juventude e maturidade que o historiador inglês Tony Judt conseguiu coligir antes de sucumbir ao último estágio da esclerose lateral amiotrófica, a demoníaca paralisia que afinal o matou, em agosto de 2010. Foi seu primeiro livro póstumo e quase nem isso foi.

Os pequenos ensaios autobiográficos que o habitam, ditados e depois redigidos por um amigo, não se destinavam, em princípio, à publicação; foram escritos por "puro deleite", como um exercício mnemônico de alguém "confinado à paisagem retórica de suas próprias reflexões interiores". Existiu um chalé de verdade na infância de Judt. Ficava numa estação de esqui da Suíça francesa, refúgio invernal da família, no início dos anos 1950. Judt nasceu em 1948, "a tempo de conhecer os Beatles" - e curtir a Swinging London.

As reminiscências da Londres do pós-guerra, pré-Beatles, com racionamentos e outras privações, talvez interessem pouco à maioria dos leitores. Mesmo este leitor, que sabe quem foram e o que fizeram Cyril Connolly, Cliff Richard e Jimmy Porter, só se ligou nas recordações e reflexões do autor a partir da página 112, depois que o dono do chalé se rebelou e foi estudar em Paris, na segunda metade dos anos 1960, "a melhor época para se ser jovem" - e rebelde com causa.

Preparado para "observar e inalar a genuína revolta" encarnada no chienlit de Maio de 68, descobriu-a, contudo, um pouco além, em Praga e Varsóvia, onde, no verão daquele ano, "o marxismo caiu por terra". Para Judt, os estudantes rebeldes da Europa Central minaram, desacreditaram e derrubaram não apenas alguns regimes comunistas arruinados mas também a própria ideia de comunismo. "Se tivéssemos nos preocupado um pouco mais com o destino das ideias que brandíamos com tanta ostentação, teríamos talvez prestado mais atenção às ações e opiniões daqueles que foram criados à sua sombra", conclui sua crítica à cegueira ideológica de seus colegas de agitação e quimeras gauchistas.

Com a intenção de entender melhor aquela guinada e, de lambuja, superar a crise da meia-idade e os efeitos colaterais de um segundo divórcio, Judt iniciou os anos 1980 aprendendo checo. À grandiosidade óbvia de Rússia e Polônia, preferiu as qualidades típicas da Checoslováquia, como a dúvida, a insegurança cultural e a autozombaria cética, sintetizadas na ficção e na figura de Kafka. Sem essa imersão no checo não se encontraria em Praga em novembro de 1989, observando Vaclav Havel tomar posse na Presidência. E graças a ela, também, curou-se para sempre "do solipsismo metodológico da academia pós-moderna".

A quem, por lamentável lapso, não leu O Mal Ronda a Terra, lançado pela Objetiva no ano passado, recomendo: leia este primeiro. Algumas das ideias tratadas n'O Chalé da Memória (o irônico legado da rebeldia seiscentista, o ocaso da esquerda, o individualismo niilista da direita, a fé cega na bússola do mercado desregulamentado) foram abordadas com menos ligeireza no livro anterior, também derivados de ensaios originalmente publicados na New York Review of Books, que Judt considerava "um dos três pontos fortes" dos Estados Unidos, onde viveu, escreveu e lecionou a partir de 1978, sem desgrudar o olhar da Europa.

Os outros dois pontos fortes? Thomas Jefferson e Chuck Berry. O quarto, deduzo, seria a imbatível fartura das bibliotecas universitárias de lá.

Há cativantes passagens nostálgicas sobre ônibus e trens, nos capítulos iniciais, e pelo menos uma observação pungente, quando Judt admite que a consequência mais desalentadora de sua doença foi tomar consciência de que nunca mais andaria de trem, que outras coisas nunca mais aconteceriam, certeza que sobre ele pesou "como um cobertor de chumbo".

Fazem bem à alma as suas diatribes contra os acadêmicos que se submetem ao exibicionismo e ao baixo nível televisivos, o politicamente correto, o neopuritanismo alimentado pela paranoica preocupação com assédio sexual, o gueto involuntariamente imposto por disciplinas orientadas pela cor da pele ("black literature"), sexo ("women studies") e preferências sexuais ("gay cinema"), o empobrecimento da linguagem pela internet, a ladainha em torno do Holocausto (é preciso superar o trauma de vez e seguir em frente, martelava o historiador, que era judeu e por uns tempos morou num kibutz em Israel).

Judt talvez tenha sido o intelectual mais próximo de Orwell dos últimos 30 anos. Em seu chalé cabia um palácio de ideias, cujas portas, com guia em português, só estarão abertas a partir do próximo fim de semana.

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