Pakula e a liberdade de imprensa

Sai em Blu-Ray o cultuado Todos os Homens do Presidente, um marco nas relações entre filmes, autores e jornalismo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2011 | 00h00

No começo dos anos 1970, a crise atingira a "América". A escalada dos conflitos no Vietnã produzira, internamente, uma situação insustentável. Os protestos contra a guerra agitavam as ruas e o presidente Richard Nixon foi forçado a assinar, em Paris, um acordo de paz que carregava, implícita, a aceitação de uma derrota. Neste quadro, uma dupla de repórteres do jornal The Washington Post, ao investigar uma estranha ocorrência na sede do Partido Democrata, em Washington - no prédio chamado de Watergate -, deflagrou um escândalo nacional sem precedentes. O governo tentou negar seu envolvimento no episódio da escuta telefônica que feria os princípios básicos da democracia. Para fugir ao impeachment, Nixon renunciou.

Os repórteres, Bob Woodward e Carl Bernstein, narraram sua história num, livro que, compreensivelmente, virou best seller. Hollywood, leia-se o produtor e diretor Alan J. Pakula, rapidamente comprou os direitos. E fez Todos os Homens do Presidente, que agora sai em Blu-Ray (e o DVD está à venda baratinho nas melhores casas do ramo).

Watergate virou um marco. Muita gente acreditava que as instituições democráticas, e não apenas nos EUA, não fossem sobreviver ao impacto das investigações que colocavam em xeque as maiores autoridades do país. O próprio jornalismo investigativo ganhou aí um modelo. Está no centro do filme de Pakula. Woodward e Bernstein, interpretados por Robert Redford e Dustin Hoffman, são como cães farejadores. Não recuam diante de nada em busca da reportagem de suas vidas. Eles não se preocupam com a sobrevivência, ou não, das instituições republicanas. Mas não são santos e nem dão a impressão de estar atuando ideologicamente, ou por um ideal. Perseguem o reconhecimento profissional. O Pulitzer.

O formato do filme é de thriller. Woodward e Bernstein marcam encontros com desconhecidos em becos ou garagens escuros. Cada telefonema encerra um risco. Já que, no centro de Watergate, estava a escuta telefônica, o menor contato tornava-se suspeito, perigoso. Pakula aumenta a sensação de perigo com seu método de filmar. O mesmo diálogo de Todos os Homens do Presidente poderia dar origem a um filme completamente diverso. Pakula filma de perto, gruda a câmera na epiderme de seus atores. Você sente a ansiedade, o medo. E existem os personagens secundários. O editor do jornal, Jason Robards - que venceu o Oscar de coadjuvante pelo papel -, o misterioso Deep Throat, que passa as informações básicas. Ambos incentivam os protagonistas a ir em frente, cada qual com sua agenda, seja política ou não, mas tudo neste filme é política.

Engajamento. Como produtor, ligado a Robert Mulligan, Pakula patrocinou os filmes mais engajados e sociais do futuro autor de grandes obras de gênero, como Houve Uma Vez Um Verão, A Noite da Emboscada e A Inocente Face do Terror. O Mulligan da fase Pakula é o de O Sol É para Todos, baseado em Harper Lee. Tornando-se ele próprio diretor, Pakula desenvolveu uma obra autoral e coerente dentro do cinemão. Há nela uma vertente política e outra mais intimista. Em ambas, o tema que mais interessa ao cineasta é a quebra de confiança, seja nas relações institucionais ou interpessoais. Nada mais de acordo com o espírito de Watergate.

Todos os Homens do Presidente é sólido, é bom. Na obra de Pakula, retoma a vertente de A Trama, The Parallax View, que ele havia feito com Warren Beatty, desenvolvendo uma tese conspiracionista. O carisma dos atores - dos astros - é fundamental em todos esses filmes. O interessante é que Pakula resiste à tentação hollywoodiana de transformar Woodward e Bernstein em heróis. Eles não são nem mesmo simpáticos, o que cria a ambivalência, porque o espectador tem de torcer o tempo todo por eles. Na mesma época - pouco antes, pouco depois -, Francis Ford Coppola fez A Conversação e Arthur Penn, Um Lance no Escuro. São todos filmes que expõem o clima de paranoia da época. A paranoia é justamente o tema embutido em Todos os Homens. Pode-se preferir a obra-prima de Penn, em que não há uma única referência a Watergate. Mas o cult de Pakula vale como uma lição de jornalismo, e cinema.

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