Paixões sofredoras

Querido John, de Lasse Hallstrom, que estreia na sexta em todo o Brasil, é um belo exemplar de filme romântico à moda antiga

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2010 | 00h00

LOS ANGELES

Você se lembra dele em G.I. Joe, de Stephen Sommers. Já o viu pegar em armas em Stoploss, de Kimberly Pierce, sobre a Guerra do Iraque. Channing Tatum está de volta à guerra em Querido John, que estreia sexta no Brasil. Mas agora o enfoque é romântico. Foi mais fácil de fazer? A entrevista realiza-se num hotel de luxo de Los Angeles. O repórter conversa primeiro com Channing, depois com Amanda Seyfried. Ele faz John, ela é sua querida Samantha. A "love story" dos dois é triste ? mais até no livro de Nicholas Sparks.

De volta à pergunta: Querido John foi mais fácil de fazer do que Stoploss ou G.I. Joe? "Se você estiver querendo saber do ponto de vista físico, sim, talvez tenha sido mais fácil. Embora tenhamos algumas cenas de ação, este não é um filme de guerra tradicional. A guerra se dá num outro front, mais interno. Vemos o personagem no Exército, em família, com a mulher amada. Lasse (Hallstrom) é um diretor atento aos detalhes. E ele procura tirar de você o máximo de intensidade. Neste sentido, Querido John foi o filme mais desgastante, emocionalmente, que fiz. No final, estava em frangalhos. Mas, se Lasse me chamasse de novo, adoraria refazer a experiência."

Pode ser mera coincidência, mas o sueco Lasse Hallstrom digiu muitos videoclipes do grupo ABBA e Amanda Seyfried, que faz a protagonista feminina de Querido John, foi a filha de Meryl Streep em Mamma Mia. "Quando conversamos pela primeira vez, Lasse me mostrou os vídeos. Preferiu que eu visse isso a ver Minha Vida de Cachorro. Ele tem uma imaginação visual muito forte, sabe exatamente o que vai colocar na tela, e como! Seu desafio comigo era revelar o invisível. Por que Samantha é assim? Por que faz sua escolha que magoa o personagem John?"

Denso. Quando o repórter viu o filme, o desfecho era um. Foi mudado depois, mas a densidade emocional a que Channing Tatum e Amanda Seyfried se referem permanece. Como Channing se preparou para fazer seu soldado? "Tentei adotar o ponto de vista dele. Não julgá-lo, em nenhum momento. A guerra sempre desperta reações, a do Iraque é hoje mal vista nos EUA. Mas ninguém culpa os soldados pelos horrores da guerra, e sim os políticos, embora exista um grau de comprometimento e de responsabilidade individual, também. Muitos filmes e livros já discutem a adrenalina da guerra, que pode ser inebriante para muita gente, principalmente para os desajustados. Não é o caso de John. Eu sou de família, amo minha mulher. Não vejo adrenalina na guerra e creio que John também não. Ele entra no Exército por rebeldia, por não ver perspectivas em sua vida. Quanta gente não é assim? E, depois, neste país (os EUA), há uma mística da ação, de que tudo se resolve pela violência e pela guerra."

Menos é mais. O ator parece repetir o escritor Nicholas Sparks, autor do romance no qual se baseia o filme ? ele vê uma linha tênue entre drama e melodrama. "Lasse detesta o excesso", diz Tatum, "mas tem um método interessante. Muitas vezes ele nos levava a reações melodramáticas só para recuar em seguida." Channing Tatum tomou um susto no primeiro encontro com o diretor. "Lasse disse que ia me dar tanta liberdade quanto deu a Leo DiCaprio em Gilbert Grape (Aprendiz de Sonhador). Perguntei se ele queria que eu fosse mentalmente vulnerável. Ele respondeu que queria que eu fosse vulnerável, mas se eu sentimentalizasse ou fizesse um deficiente emocional estaria estragando o filme."

O papel de John exigiu alguma preparação física de Channing Tatum. Afinal, ele surfa, vai para a guerra. Mas a cena mais difícil, ele admite, foi aquela em, que John fala sobre moedas raras para expressar sentimentos. "Aquilo é um diálogo de literatura. Nunca vi ninguém usar aquelas metáforas. Talvez soasse ridículo. A questão era fazê-las verdadeiras." Confira você mesmo.

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