Paixões a toda velocidade

Árdua, mas não impossível, será a tarefa de manter esse ritmo inicial por todo o período de duração de Passione

Crítica: Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

 ÓTIMO

A principal novela do horário nobre da TV virou a página na noite de anteontem e não demorou a explicitar quem é do bem, quem é do mal, quem é ninfomaníaco, quem é dissimulado, quem será algoz e quem será vítima pelos cento e tantos capítulos a seguir. Para a Globo, apressada em estancar a sangria de audiência, a estreia de Passione foi perfeita. A nova história de Silvio de Abreu começou com competência para alimentar o imediatismo demandado por uma plateia cada vez mais dispersa entre as mídias.

Árdua, mas não impossível, será a tarefa de manter esse ritmo por quase seis meses de programa diário. Conspiram, para tanto, flashes da cidade em movimento. E, no quesito cartões postais paulistanos manjados, um adendo: a ponte Estaiada, que já é cenário dos telejornais locais da Globo, vem se juntar a Masp e cercanias da Paulista para legendar a cidade em cena de novela. Mas, justiça seja feita, a diretora Denise Saraceni não se acanha em estampar um pouco de caos na tela ficcional e nos brinda com imagens aéreas das Marginais em hora de rush.

O tempo urge. Se um enterro duraria pelo menos uma semana em novela de Manoel Carlos, anteontem o funeral de Mauro Mendonça foi consumado em menos de um bloco. Ainda que denuncie premência em dizer a que veio, o início de Passione não tropeçou no desfile caricatural. O espectador só toma conhecimento de que Mariana Ximenez não é aquele anjo de candura (ainda que sempre convenha suspeitar de gente tão angelical) porque a câmera nos guia por todos os passos da personagem. Se a vida real fosse assim, um grande Big Brother que nos brindasse com imagens alheias em momentos diversos, é bem capaz que a gente desse de cara com tipos como o de Maitê Proença, que compensa o mau humor do marido caçando belos moços por aí para fazer sexo. Com todo respeito aos cínicos, o prazer em constatar a dualidade humana garante bom entretenimento.

Elenco de luxo. A endossar a maestria em apresentar seu enredo em poucos minutos, Passione deu-se ao luxo de botar em cena a maior população de grandes atores nacionais por metro quadrado. Lá estavam Fernanda Montenegro, Mauro Mendonça, Cleyde Yáconis, Leonardo Villar, Tony Ramos, Aracy Balabanian, Elias Gleiser, Daniel Oliveira, Irene Ravache e Leandra Leal, só para citar uns e outros.

É cortando da Pauliceia para os campos toscanos que encontramos Tony e Aracy prontos para comover no sotaque da Bota. Não que a irrepreensível performance de ambos seja suficiente para anular nossa lembrança do grego Nikos e da Dona Armênia, criações do mesmo Silvio de Abreu para as mesmas criaturas em folhetins do passado. O que se há de fazer? Há uma proximidade inevitável na dramaticidade presente no dia a dia de gregos, troianos, armênios e italianos, prego!

Para pincelar cores mais fortes à dor de Totó, personagem de Tony, a zia vivida por Aracy nos avisa que lá vai ele afogar suas mágoas no "bar do napolitano", com todos os ecos a que uma cantoria do gênero tem direito. A sequência traz o reflexo óbvio do autor cinéfilo que assina Passione: num momento Cinema Paradiso (cujo protagonista também atende por Totó), cenas clássicas de cinema italiano são projetadas em plena pracinha interiorana, ao ar livre, e o Totó de Tony se esvai em lágrimas ao ver Sofia Loren e Marcelo Mastroianni no telão, até o filme ser interrompido por uma chuva cenográfica repentinamente torrencial. A alta tecnologia do Projac às vezes esbarra no exagero.

Para arrematar, a abertura passeia pelos ferros consagrados por Silvio de Abreu no passado da sucateira Maria do Carmo (Regina Duarte/Rainha da Sucata) e do pedreiro José Clementino (Tony Ramos/Torre de Babel). Assim, um emaranhado de pneus, porcas e parafusos se redesenha, graças aos efeitos da computação gráfica, para fechar o nome Passione.

O nome da novela é honrado por cenas bem mais calientes do que as recatadas novelas vistas nos últimos três anos, provável obra dos efeitos provocados pelas regras da classificação indicativa. Lá estão Reynaldo Gianecchini e Mariana Ximenez sugerindo que também é possível se divertir nas encostas do feioso Minhocão.

A audiência foi baixa: com 37 pontos de média em São Paulo, segundo o Ibope, rendeu menos que a estreia de Viver a Vida, dona de 43 pontos. Faça-se a ressalva de que Viver a Vida também deixou para sua sucessora o pior ibope do histórico de novelas do horário.

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