Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Paixão por insetos

Em uma cena forte de Disney Killer, uma barata é devorada como prova de amor

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2011 | 00h00

Disney Killer é repleta de cenas perturbadoramente belas. Os irmãos Presley e Haley, por exemplo, alimentam-se também de histórias doloridas, além de chocolate e pílulas. Em uma delas, Haley detalha um momento em que foi perseguida por cães até uma igreja, culminando com uma escalada na cruz. Em outra, o irmão revela seu pior pesadelo, que explica os motivos de tal alienação dos irmãos.

"Mas é justamente outro momento que deve mexer mais com o público", acredita Darson Ribeiro. "Aquele que tem uma forte carga erótica ao mesmo tempo em que é nojenta." Ele se refere à cena em que Cosmo quer testar seu poder de sedução e pede a Presley que coma uma barata viva - Cosmo, aliás, alimenta-se de insetos para sobreviver, porque acredita que todos os homens necessitam de uma dose diária de desgraça.

Apesar de contar em cena com baratas criadas e amestradas em laboratório, portanto, limpas e que permanecem em apenas um espaço durante todo o espetáculo, Darson preferiu utilizar uma réplica de chocolate para não provocar o estômago da plateia. "Embora seja repugnante, esse momento tem uma conotação sexual muito forte, pois praticamente representa a relação entre Presley e Cosmo."

O autor da peça, Philip Ridley, conta que não teve intenção de chocar os espectadores. "A maioria das minhas peças se passa em áreas onde nasci e cresci e que são muito pobres", conta ele ao Estado, por e-mail. "Quando eu era criança, ruas inteiras foram condenados como favelas. Talvez isso explique a violência da linguagem e a quase presença do odor exalado pelos textos."

Ridley comenta ter conhecido pessoas como Presley e Haley, dois irmãos que sofreram um trauma quando tinham 18 anos e que lhes deixou órfãos. "Desde então, eles têm encontrado dificuldades para se relacionar com o mundo. Na verdade, os gêmeos descobriram ser impossível lidar com o mundo. Por isso, trancafiaram-se em casa, criando um ritual complexo de fantasias e jogos de palavras, a fim de sobreviver", observa o dramaturgo, que também é roteirista e pintor.

Quando ele escreveu a peça, no início dos anos 1990, não havia ainda um termo que hoje é popular especialmente no Japão, "shut ins", algo como "fechado em si mesmo", para designar pessoas que não enfrentam o mundo exterior. "De certa forma, minha peça tornou-se profética ao antecipar essa geração de jovens que se trancam e preferem se perder nas fantasias de jogos de computador do que enfrentar situações reais."

Ridley conheceu também pessoas como Cosmo, personagem que, para viver, participa de números extravagantes sempre acompanhado de Pitchfork, que exibe seu rosto deformado em momentos de horror show. "É uma fera que sofreu muito e que precisa se esconder", conta o ator Alexandre Tigano, que se inspirou em filmes como O Homem Elefante para valorizar o uso do olhar.

O trabalho corporal foi, de fato, importante no processo criativo. Para isso, Darson contou com o auxílio de Gustavo Torres, que criou uma partitura performática a fim de apresentar o complexo duelo interior vivido pelos personagens.

As expressões físicas precisam demonstrar medo, especialmente o receio que passou a dominar o mundo depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. "É curioso que vamos estrear quando se completam dez anos do fato", comenta Felipe Folgosi. "Está relacionado com a especificidade dramatúrgica exposta por Philip Ridley: a violência no mundo." A atualidade do texto, aliás, também é notada pelo autor: "Recentemente, Londres foi tomada por motins e violência gratuita. Parecia-se com a noite da peça, com Presley e Haley temendo os ruídos ameaçadores de fora."

PRESTE ATENÇÃO

Da cenografia à trilha sonora

1. Na quantidade de chocolates consumida pelos atores na peça: cerca de 40 unidades. "Precisamos fazer muito exercício para compensar as calorias ganhas", diz Samanta Dalsoglio.

2. Na trilha sonora, especialmente composta por Dráuzio, líder da banda de rock GoodChild, de Curitiba, com temas minimalistas.

3. Na cena em que Haley descreve a perseguição sofrida por cães, até se refugiar na cruz de uma igreja e ser salva pelo padre. É arrepiante.

4. Na cenografia claustrofóbica criada por Claudio Hanczyc, que trabalho no Teatro Cólon de Buenos Aires.

DISNEY KILLER

Sesc Pompeia. Espaço Cênico. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700.

6ª e sáb., às 21h; dom., às 19h.

R$ 3 a R$ 12. Até 16/10

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