Hermes Bezerra/AE
Hermes Bezerra/AE

Paixão e decepção

Excesso de baladas e quebra de ritmo esfriam euforia de fãs de Amy Winehouse em sua estreia no País

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2011 | 00h00

"Nem dá vontade de pedir para ela voltar." A frase dita por uma fã depois do final anticlimático do show de Amy Winehouse, já na madrugada de ontem em Floripa, dá bem a medida do misto de paixão e decepção que marcou a estreia da cantora britânica em palcos brasileiros.

Sorridente, animada e com a voz em boa forma, Amy foi recebida com uma euforia impressionante pelo público, como se vê nos shows de grandes astros do porte de Madonna e Paul McCartney. A ruidosa recepção das 10 mil pessoas que lotaram a pista e os camarotes do Stage Music Park - Pachá soou como efeito da terapia do grito. Isso porque desde o início da noite, como se tornou habitual em tudo que envolve a imprevisível cantora, notava-se entre os fãs uma mescla de excitação e preocupação.

"A gente fica meio tensa em relação ao estado em que Amy vai chegar. Está todo mundo assim", comentou o casal Elder Alves e Rosângela Zanatto, de Criciúma. Usando camiseta e gorro com o nome da cantora, além de uma bandeira, o cinquentão Airton K. Cercal, de Camboriú, comparou-a enfaticamente a Etta James pela voz e a Billie Holiday e Janis Joplin no quesito autodestruição: "Amy é a melhor cantora que apareceu nos últimos tempos: uma voz indefinível, uma presença de palco incrível. Só devia respeitar um pouco mais a gente que gosta demais dela e não se acabar tanto."

Careta ou doidona? Enfim, trajando vestido cor de salmão com busto branco, Amy já entra em cena cuspindo os restos de uma goma de mascar no fosso entre o palco e a plateia. Normal. As pessoas se perguntam: "Será que ela está careta ou doidona?" Parece se situar no meio-termo. De bebida, no palco só uma garrafa de plástico com líquido transparente, da qual ela bebe em boa parte do show e faz questão de afirmar que é água, com um ar meio debochado, ajeitando o penteado vespeiro. Mas se ausenta do palco várias vezes, aos pulinhos, e passa boa parte do tempo esfregando o nariz com as costas da mão direita. Vai saber...

O relógio marca 0h50 (apenas 10 minutos depois do previsto) quando Amy surge radiante. Tem alguma dificuldade para ajustar a altura do microfone. No fundo do palco, uma enorme réplica da bandeira brasileira (outros exemplares, em forma arredondada, cobriam o piso dos praticáveis da bateria e do teclado) com o nome dela em letras garrafais no canto esquerdo superior do retângulo verde, que foi expandido sugere demagogia desnecessária.

Acompanhada de 9 músicos, todos vestidos de branco, ela provoca a primeira explosão de histeria coletiva com o reggae Just Friends, logo depois da introdução da ótima banda - com breve versão de Shimmy Shimmy Ko Ko Bop, lançada nos anos 1950 por Little Anthony and The Imperials. Depois vêm Back to Black e Tears Dry on Their Own, em arranjos bem parecidos com os originais do álbum Back to Black.

A cada canção o público reage euforicamente, cantando junto com ela e gritando seu nome repetidas vezes. Enfim, os fãs respiram com um alívio catártico. A quarta canção com ela é uma das melhores do show, Boulevard of Broken Dreams, um misto de mariachi, bolero e tango, em que Amy solta o vozeirão que parecia meio oscilante no início.

Ela ajeita os seios, provocando um certo frisson, sorri e dá tchauzinhos para o público, parece bem feliz, mas cantar que é bom foi menos do que se esperava. A partir da quinta canção começa a parte chata e o show cai numa monotonia que parece irrecuperável. Amy sai da boca de cena para conversar diversas vezes com o vocalista Zalon Thompson e o baixista Dale Davis, como se estivessem num ensaio, decidindo qual seria a próxima canção.

A quebra de ritmo se agrava com a sequência interminável de baladas menos (ou nada) conhecidas, que começa a incomodar boa parte da plateia. Em algumas Amy parece estar no piloto automático. Quando nada poderia parecer mais frio, ela sai de cena, deixa a banda tocar sozinha, depois pede a Zalon Thompson assumir o centro do palco. Ele canta duas baladas sozinho, ela apenas dança em uma e fica sentada ao lado da bateria, ainda calada, em outra.

Enrolação. A fã que achou que não valia a pena pedir bis no final, começa a se manifestar para a amiga ao lado: "Acho que ela está enrolando a gente." E como estava. Mas Amy volta a empolgar com Rehab (ainda que no piloto automático) e quebra de novo o ritmo ao fazer a apresentação da banda, com cada um solando em um longo número instrumental de jazz-fusion. Uma chatice.

Em seguida, vêm You Know I"m no Good (displicente) e Me and Mr. Jones, e a euforia volta a tomar conta da plateia. É quando ela sai do palco mais uma vez sem mais nem menos e, para perplexidade geral, Thompson grita "thank you, Floripa", dando por encerrada a apresentação.

Gritos, aplausos, assobios, protestos e até vaia se misturam. Ninguém sabe o que virá. Um técnico afina o baixo, sai do palco. Momentos de tensão. Então Amy volta e arrasa no cover do ska I"m Wondering Now, do grupo britânico Specials. Mas aí já é tarde demais para ela se reabilitar e, então, anuncia a última canção, Valerie, que provoca nova onda de histeria e a maioria dos fãs canta junto com ela e vai para casa com a ilusão de ter visto um grande show. Mas até para quem foi só ouvir os hits faltou tesão.

Hoje e amanhã Amy se apresenta no Rio e quinta vai para Recife. No sábado encerra a turnê em São Paulo com mais atrações, locais. Além de Mayer Hawthorne e Janelle Monáe, o festival vai ter o coletivo Instituto e a dupla André Frateschi e Miranda Kassin.

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