Paixão e arte no verão veneziano

A ansiedade chega antes mesmo da Bienal de Veneza, com o receio de que haja festas melhores do que aquelas para as quais se foi convidado, o que não deixará dúvida quanto ao patamar de prazeres que o status de cada um garante. Nas festas, os escolhidos reclamarão das pequenas taças em que lhes servem drinques à vontade. Quando, enfim, chegarem aos pavilhões de arte, cheios de ressaca, todos carregarão sortimentos de sacolas oferecidas como brinde.

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2010 | 00h00

Seria de se esperar no meio artístico uma reação às ácidas descrições da Bienal de Veneza (e de obras de fato exibidas por lá) que aparecem em Jeff em Veneza, Morte em Varanasi (2009), mas o escritor Geoff Dyer (foto) diz ter se surpreendido. "Tanta gente achou que era uma sátira do mundo da arte", conta o britânico ao Estado por telefone, de Londres, com a voz tranquila que mal denuncia a peremptoriedade das opiniões. "Era só a descrição da ideia que tenho de passar um bom tempo. Me assustei com as pessoas desse universo vendo isso como um retrato corrosivo. É claro que tenho opinião incrivelmente baixa sobre alguns artistas e seus trabalhos, mas a questão é que não há dúvida de que muitos vão a esses eventos por gostar do que é de graça. Eu mesmo adoro viajar sem pagar nada."

Conhecido por confundir leitores com narrativas em que episódios fictícios respingam em descrições realísticas e incensado como um dos grandes escritores britânicos vivos, Dyer, de 52 anos, diz que seu livro mais recente é eminentemente fictício. Isso apesar de o protagonista se chamar Jeff (mesma pronúncia do prenome do autor, Geoff), de ter a mesma capacidade de extrair ironia dos detalhes e de a história ter sido pensada após viagens de Dyer a Veneza (foi a três Bienais, de 2003 a 2007) e Varanasi, na Índia.

Na trama, em 2003, Jeff Atman, jornalista quarentão, é enviado à cidade italiana pela revista Kuchlur com a pouco nobre tarefa de entrevistar Julia Berman, cujo maior feito na vida foi ter com o celebrado pintor Steven Morison uma filha, Niki, hoje cantora famosa. Já na primeira noite, o jornalista conhece e se apaixona pela galerista Laura Freeman, com quem viverá uma história, narrada em terceira pessoa, tão quente quanto Veneza naquele verão.

Na segunda parte do livro, Jeff é convidado pelo Telegraph a escrever uma reportagem em Varanasi. Aqui, o narrador fala em primeira pessoa e, apesar de semelhanças com o Jeff de Veneza, a todo momento resta a dúvida sobre como as histórias se conectam - Laura não é nem sequer mencionada. Enquanto no período veneziano o personagem vive uma passagem de êxtase, como num sonho, a temporada indiana promove uma transformação espiritual.

O livro é, como o nome sugere, uma homenagem à Morte em Veneza, de Thomas Mann, cuja ideia Geoff Dyer teve ao enfrentar o incrível calor da cidade na Bienal de 2003, à qual foi com a mulher, Rebecca (hoje assistente do magnata Charles Saatchi). "Não pude escrever o livro àquela altura porque estava terminando o meu sobre fotografia (The Ongoing Moment). Daí fui para Varanasi, e, assim que coloquei os pés lá, soube que complementaria a história", conta.

Não chegam a ser duas novelas separadas, embora também seja complicado resumir o livro como romance - a difícil definição é característica da obra de Dyer, cujo Ioga Para Quem Não Está Nem Aí (Companhia das Letras), lançado por aqui em 2007, tem textos que ficam entre os contos e os relatos de viagem. "A maneira perfeita para descrever Jeff em Veneza, se não fosse tão pretensioso, seria como um díptico. São duas histórias distintas, mas a experiência que oferecem é única."

TRECHO

"Era o outro componente-chave da Bienal: uma seleção de obras de artistas de todo o mundo, escolhida ou...

...comissionada pelo diretor da bienal e ligada - em princípio - por algum tipo de tema. O fato de esse tema não ser possível de discernir na junção aparentemente fortuita das obras em exposição não diminuía a experiência. Ou pelo menos a experiência de Jeff. Havia milhões de coisas para ver: pinturas, instalações, fotografias, vídeos, esculturas (mais ou menos), até mesmo, estranhamente, um ou outro desenho. Ele percorreu tudo, absorvendo tudo, mesmo que, boa parte do tempo, não absorvesse nada. Ficou cinco minutos assistindo a um vídeo-loop de um menino fazendo embaixadas com uma bola nas ruínas de uma cidade bombardeada (que descobriu ser Belgrado) antes de se dar conta de que não era uma bola que ele estava jogando: era uma cabeça humana.

(...) Pelo rabo dos olhos, percebeu algumas fotografias coloridas de carne nua bronzeada. Pornô! Essa era uma grande tendência no mundo das artes plásticas hoje em dia: nunca se estava muito longe de material Para Adultos, sexo explícito, hardcore, altamente proibido. Só que, ao se aproximar, viu que eram o oposto de pornografia. Eram fotos coloridas de uma mulher dando à luz.

JEFF EM VENEZA, MORTE EM VARANASI

Autor: Geoff Dyer. Tradução: José Rubens Siqueira.

Editora: Intrínseca (320 págs., R$ 40).

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