Paixão, desejo e fascínio em Wether, de Massenet

Ópera busca entender as emoções do personagem

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2012 | 00h00

"De que serve perguntar ao louco por que perdeu a razão?", questiona-se a certa altura o jovem Werther. Mas montar a ópera que Massenet adaptou do romance de Goethe é fazer exatamente isso - entender a paixão e o desejo do personagem e, ao mesmo tempo, o fascínio que esse símbolo do romantismo segue provocando, dois séculos depois de seu nascimento. E, talvez não por acaso, o tempo - seja a passagem entre as estações, seja o diálogo do passado com a contemporaneidade - esteja no centro de uma nova produção estreada no domingo no Teatro São Pedro.

Massenet teve como ponto de partida o romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, reunião de cartas escritas pelo jovem sobre sua paixão por Charlotte; criou, a partir dos textos, uma linha narrativa, dando voz a diversos personagens, mas mantendo a essência das cartas na própria estruturação do drama, pontuado por monólogos do personagem principal; mesmo nas cenas em que não aparece, é ele - e a imensidão de sensações que experimenta - que dá a tônica do libreto e da música.

Nesta nova montagem, o diretor André Heller-Lopes trabalha em dois níveis de leitura. De um lado, propõe o aggiornamento da história, que é levada para meados do século 20, sob o signo do existencialismo, do qual emerge, mais do que um amor proibido, um desejo de morte, que é resultado de um estado de desencanto e melancolia que une Werther e Charlotte. De outro, porém, há a sugestão de uma certa atemporalidade, reforçada pela cenografia de Renato Theobaldo e Roberto Rolnik, autores do cenário feito de cortinas que se abrem e fecham, inspirado em uma das passagens mais impactantes da ópera, quando Werther se pergunta: "Por que tremer diante da morte? Diante da nossa própria morte. Afastamos a cortina e passamos para o outro lado".

A montagem, assim, ao mesmo tempo em que não se furta do desafio de oferecer uma leitura contemporânea, evoca constantemente, de maneira quase abstrata e etérea, a presença da morte, que está na própria gênese do amor romântico que é a base do relato de Goethe. A impossibilidade que a morte representa, afinal, faz do amor retratado algo cristalizado no tempo, no espaço - e ao mesmo tempo atemporal, como se fosse a própria essência do que significa amar alguém.

Mas amor, na música de Massenet, é antes de mais nada desejo, em especial na leitura do maestro Luiz Fernando Malheiro. À frente da Sinfônica do Teatro São Pedro, ele sabe trabalhar muito bem as transparências da orquestração, sem impedir que dela nasça com toda força a intensidade da emoção, construindo arcos bastante teatrais nos duetos entre Charlotte e Werther ou a urgência que marca os monólogos do jovem poeta.

Na voz do tenor Fernando Portari, o personagem ganhou cores diversas, entre delicadeza e angústia, desaguando na tocante resignação (ou seria libertação?) do ato final. Da mesma forma, é muito impactante a transformação pela qual passa a Charlotte da excelente Luisa Francesconi, que no início do terceiro ato dá vazão, abre mão do estoicismo do início da ópera.

Os dois demonstram domínio do estilo francês, cuidadosos com a pronúncia e com a construção dos fraseados, características que faltaram ao Albert do barítono Vinicius Atique. Gabriella Pace foi uma Sophie eficiente, contraponto de leveza ao drama dos personagens principais. Murilo Neves (Bailli), Max Costa (Johann) e Thiago Soares (Schmidt) tiveram boa atuação. Nas récitas dos dias 1.º e 4, será apresentada pela primeira vez no Brasil a versão para barítono de Werther, com Leonardo Neiva no papel-título.

Crítica: João Luiz Sampaio

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