Paixão acesa na escrita de Fernando Pessoa e Ofélia

Livro reúne, pela primeira vez, todas as correspondências trocadas entre os namorados

Maria João Martins,

31 de agosto de 2012 | 19h30

No princípio, eram tímidos olhares trocados entre arquivadores de madeira, pesados como naus da carreira da Índia, no escritório da Félix, Valadas & Freitas. Lda, no "coração" da Baixa lisboeta. Ele, Fernando, tradutor discreto de correspondência comercial, 32 anos, ela, uma graciosa menina de 19 anos, com ousadia bastante para se candidatar a um trabalho fora de casa, prática ainda incomum no piedoso Portugal do pós-1.ª Guerra. Seguiu-se a habitual coreografia amorosa: confidências, arrulhos e amuos com som de carros elétricos ao fundo. Alguns telefonemas e muitas cartas: "Meu adorado Fernandinho", endereçava ela, "Meu Bebé pequeno e rabino", replicava ele. Mas, como em tantos outros casos, tudo se desvaneceria em melancolia alguns meses depois, para ser retomado, por breve e atormentado período, no fim dos anos 20.

Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, com edição de Manuela Parreira da Silva, reúne, pela primeira vez num só volume, a correspondência trocada pelo maior poeta português do século 20 com a única parceira amorosa que lhe foi identificada até esta data. A vantagem do volume único é evidente, como escreve a editora na introdução: "Uma edição conjunta é a forma mais adequada para dar a ler uma correspondência que pressupõe sempre um diálogo, uma interacção, a existência concreta de dois interlocutores (...). Assim, uma relação amorosa, sustentada epistolarmente, como a de Pessoa e Ofélia, só é, na verdade, entendível quando os dois discursos se cruzam e mutuamente se refletem." A partir daqui, através dessas "cartas de amor ridículas" (como se lê no poema de Álvaro de Campos), quase podemos fazer o filme da relação, desde o enlevo inicial, que leva o homem que criou o citado Álvaro, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares a exprimir-se em português de "bebé": "Bebezinho do Nininho-ninho, Oh! Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gostei muito da catinha dela. Oh! E também tive muita pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos." (31/5/1920). Não se pense, todavia (como tantos pensaram) que este era apenas um namoro de janela. Em carta, datada de 5/4/1920, o poeta não esconde a investida do desejo em madrugada de insônia: "Meu Bebé para sentar no colo! Meu Bebé para dar dentadas! Meu Bebé para... (e depois o Bebé é mau e bate-me...)" "Corpinho de tentação te chamei eu; e assim continuas sendo, mas longe de mim."

Em breve, Pessoa compreenderá que a vastidão do seu mundo interior não cabe na moldura da conjugalidade, por mais amorosa que esta parecesse. Afasta-se progressivamente até que Ofélia o confronta com a insustentabilidade da situação. E ele, colocando-se acima do drama comezinho, exortava-a à grandeza: "Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor". A verdade, admitia, é que o seu "destino pertence a outra a Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam."

Enquanto Pessoa foi vivo (morreu, em Lisboa, a 30 de novembro de 1935), Ofélia foi fiel à memória desse namoro juvenil. A tal ponto que, em 1929, a nostalgia reúne-os, uma vez mais, mas já sem a chama de dez anos antes. Ela ainda sonha proporcionar-lhe o carinho e o conforto que lhe adoçariam a solidão da genialidade, mas ele havia muito que decidira não ser "casado, fútil, quotidiano e tributável" (como no poema de Álvaro de Campos, justamente o heterônimo de Pessoa que mais exasperava Ofélia). Três anos após a morte do poeta, essa namorada sem esperança casou com o teatrólogo Augusto Soares. Morreu aos 91 anos na sua Lisboa natal, depois de ter sobrevivido à espinhosa missão de amar um gênio.

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