Paisagem local e universal

Aleksandr Serguéievitch Púchkin não é apenas o poeta nacional que está para a Rússia assim como Shakespeare está para a Inglaterra, venerado por sucessivas gerações, com suas obras transpostas para todas as mídias, comentadas por críticos famosos que vão de Iuri Lótman a Vladímir Nabókov e cujo romance em verso, Eugênio Oneguin, é lido sofregamente por estudantes e leigos, ontem como hoje; ele ? como disse Dostoiévski no famoso discurso em sua homenagem proferido em 1880 ? foi quem deu aos seus conterrâneos uma nova consciência.

Aurora F. Bernardini, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

De fato, Púchkin deu à Rússia, ao mesmo tempo, a possibilidade de conhecer a si mesma e de abrir-se para a civilização universal. Conseguindo fundir em suas obras, que abordam todos os gêneros ? poemas líricos, satíricos, eróticos, épicos, tragédias, comédias, contos, romances históricos e biográficos ?, tanto as crenças e as falas simples do povo como as formas literárias mais requintadas da Europa de então, ele deu início à literatura moderna em seu país.

Em particular, Eugênio Oneguin, sua obra mais famosa, escrita durante os sete anos de sua fase mais criativa ? o romance em verso que está sendo lançado agora pela editora Record em tradução direta do russo, na versão poética de Dário Moreira de Castro Alves, que teve o condão, na maioria das vezes com sucesso, de manter as rimas e a métrica do original, bem como, através de notas cuidadosas, informar o leitor de usos e costumes de antanho ?, consegue fazer com que o gênio do poeta se ligue à poesia que a língua russa contém em suas formas primevas e também aos ecos das vozes mais significativas de outros povos (a de Byron, em particular), que, assimiladas por Púchkin, se tornaram um maravilhoso instrumento de abertura. Este é um de seus grandes segredos: na Inglaterra ele é inglês; na Espanha, espanhol; na Grécia, grego ? sempre sendo integralmente russo e ele mesmo, inconfundível.

"Oneguin é a mais íntima das obras de Púchkin, a mais amada criatura de sua fantasia, e é difícil nomear outras criações em que a personalidade de um poeta se tenha refletido com tanta felicidade, luz e clareza como a personalidade de Púchkin se refletiu em Oneguin", comentou Vissarion Belínski, o crítico mais influente da época em que o livro veio a público. "Escrevo não um romance, mas um romance em versos... algo no gênero de Don Giovanni. Escrevo com entusiasmo, coisa que há tempo não me acontecia", confiava Púchkin ao príncipe Viázemski, seu amigo, em 1823, ao começar a elaboração do romance.

Trata-se, em síntese, da história de um jovem blasé de São Petersburgo por quem se apaixonam damas de diferente extração ? e, em particular, quando Oneguin vai visitar o tio doente, em sua propriedade rural, a ingênua e sensível Tatiana, sua vizinha, que lhe escreve uma carta emblemática e cujo amor ele desdenha. Após um duelo infamante por ele provocado, Oneguin volta definitivamente à vida esfuziante da capital, em cuja descrição sutil não faltam alusões irônicas aos hábitos e ao regime, uma vez que a literatura ? não se esqueça ? era para Púchkin também uma forma de eludir à censura do czar Alexandre I. À jovem desesperançada só resta rememorar os momentos de encantamento e de dor e dedicar-se à leitura dos livros da biblioteca de Oneguin, na tentativa de conhecer, quem sabe, os moventes de seu caráter. Passam-se os anos. Certo dia, Oneguin ouve decantar uma grande dama, casada com um general que goza dos favores do czar, e cuja nobreza e savoir faire conquistaram a corte. Debalde tenta o jovem conhecê-la. Quando ele descobre tratar-se da antiga vizinha, sua paixão se acende irremediavelmente, mormente quando, após um encontro que ela, afinal, lhe concede, fica Oneguin sabendo que Tatiana sempre o amara.

Se as fontes literárias fossem o índice exato da criação de Púchkin, o que diferenciaria Tatiana das Júlias, das Clarissas, das Delfinas (respectivamente heroínas das obras de Rousseau, Richardson e Mme de Staël) dos romances que constituíam suas leituras prediletas? A força moral dessa criação, responde a crítica, que, através das figuras femininas por ela geradas agiria sobre o porvir de toda a história espiritual da Rússia. De fato, "se Tatiana tivesse cedido a Oneguin" ? relembrou o crítico Ígor Vólguin em recente trabalho, Paradoxos da Autoconsciência Nacional ?, "a Rússia teria sido diferente".

AURORA F. BERNARDINI É PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA RUSSA DA USP

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