Paisagem interior vista a olho nu

News from the World - conjunto de narrativas, ensaios e fragmentos de caráter autobiográfico produzidos entre 1965 e 2010 - revisita a prolífica e diversificada carreira da escritora Paula Fox, que chega aos 88 anos de idade

Stephen Burn, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 00h00

Numa carreira que nunca conheceu a quietude, Paula Fox foi jornalista, professora, modelo, maquinista e, o que é mais notável, autora de romances, livros de memórias e mais de 20 livros infantis. Sua fama cresceu nos últimos 15 anos, graças a escritores como Jonathan Franzen, David Foster Wallace e Jonathan Lethem que defenderam seu romance Desperate Characters (Desesperados, na tradução brasileira), de 1970. Hoje perto dos 90 anos, seu livro mais recente, News from the World, reprisa sua prolífica carreira através das lentes de seus contos.

Coleção de histórias, ensaios e fragmentos autobiográficos publicados entre 1965 e 2010, News from the World é tão avidamente heterogêneo que poderia ser facilmente tomado por uma tentativa da editora de reunir as pontas soltas da carreira cheia de vitalidade de Paula Fox. As 17 peças fluem entre memórias da família, o uso da linguagem e a censura.

Ao longo do caminho, Paula conhece o ator Franchot Tone, o crítico de arte Clement Greenberg, e a viúva de D.H. Lawrence, Frieda. Para cobrir todo esse imenso território, Paula utiliza um registro retórico inusitadamente elástico. A voz do livro amplia-se, às vezes, até o polêmico: "Afinal, o que significa "esta era""? Paula Fox queixa-se amargamente do sentido vago de uma resenha desfavorável do seu romance The Moonlight Man, de 1986, para jovens. Em outros momentos, a voz adquire a firmeza aforística que caracteriza a melhor ficção da escritora.

E em seus primeiros contos, suas sentenças ficam soltas, tentando captar ritmos coloquiais: "Depois do funeral... moscas zumbiam sobre as coisas". Entre a fluidez das formas e dos temas, funerais e mortes se juntam proporcionando as mais notáveis preocupações temáticas do livro.

Em seu livro de memórias, Borrowed Finery (Roupas Emprestadas, em tradução literal), de 2001, Paula Fox relembra a exploração de um cemitério nas proximidades de sua escola, lendo as inscrições nas lápides sombrias, "como se fossem o começo e o fim de histórias", e é surpreendente a frequência com que as histórias em News from the World se originam na morte - de uma celebridade ou uma figura desconhecida vislumbrada da janela. A relação fundamental da morte com a escrita está estreitamente vinculada à arte de confusão estudada que anima muitas das histórias deste livro. "Frequentemente, estamos impacientes demais para nos permitir uma sensação de perplexidade", escreve. "Apressamo-nos em definir eventos, anomalias, surpresas de todo gênero, antes de tratarmos de conhecer o que sentimos e pensamos a respeito."

Seguindo essa prescrição, os ensaios autobiográficos mais fortes, em particular, seguem com relativa neutralidade, adiando toda sensação de certeza e permitindo o que a autora chama a "complexa acumulação de experiência" para avançarmos mais depressa. Há momentos em que esta abordagem torna seu propósito pouco claro, o caminho que ela escolheu parece desenrolar-se em meandros, mas o prêmio por nos permitirmos a perplexidade chega no fim de uma história, em que Paula Fox orquestra uma jogada inesperada, criando uma conclusão cuidadosamente condensada que eleva o ensaio a um nível de significado ainda maior.

O esquete curto Franchot Tone at the Paramount, por exemplo, transita por experiências privadas, específicas, antes de se desdobrar num território mais vasto com sua sentença final: "Essa intensidade de sentimento me preparou, de certa maneira, para o amor em si, suas contrariedades, suas derrotas, sua beleza".

O ensaio Light on the Dark Side narra a mudança de Paula de Manhattan para o Brooklyn, onde ela vive perto do escritor L.J. Davis, antes da sentença final se estender além de sua experiência para ecos metafísicos maiores: "Penso em L.J. Davis como um daqueles jarros cheios de vaga-lumes, iluminando o lado escuro dos esforços da classe média - e mais que a classe média - para encontrar uma vida significativa no que está fora de nós".

O ato de equilíbrio tentado aqui é espinhoso, e os momentos mais fracos do livro são quando Paula Fox parte cedo demais da incerteza para oferecer uma moral insossa - por exemplo, que censura é ruim, ou que pessoas gay não deveriam ser escaladas para papéis gay ("há tanta diversidade entre pessoas homossexuais... quanto entre outras pessoas") - ou quando o desfecho não é forte o bastante para redimir o que veio antes. Embora o material mais recente seja, em geral, mais forte, não há uma equação simples a fazer entre a data de publicação de cada peça e o sucesso.

O segundo ensaio, sobre Greenberg, foi escrito em 2010, mas suas fofocas e queixas nunca foram além da falhas que Paula Fox detecta em comentários da crítica feitos sobre seu pai no New York Times - ele ventilou "sentimentos e opiniões que devia ter guardado para si". Mas quando a estrutura dessas conclusões funciona - como amiúde ocorre -, o desfecho ressoa além do ponto final.

No entanto, afora conexões temáticas, nas profundezas do sentido do livro uma espécie de operação padronizadora está em curso à medida que os detalhes se acrescentam. Como em sua ficção inicial - mais especialmente Desperate Characters, com seu gato cor de "fungo de árvore" -, Paula Fox escreve com grande insight na interface sensível entre humanos e animais, e ela nos apresenta, primeiramente com um ensaio autobiográfico (The Tender Night), e depois com um conto (Grace - uma obra rigorosamente controlada, que sozinha vale o preço do livro) que emergiu claramente da mesma experiência de encontrar um homem cujo amor por um cão descambou "facilmente para raiva". Imagens recorrentes ligam ensaio e ficção - o focinho e as patas do cachorro deitado - e superposições similares entre outras obras (jovens casais no Novo México, agências de adoção) - revelam a polinização cruzada entre não ficção e ficção em News from the World e na arte de Fox como um todo.

Um livro que inicialmente parece uma miscelânea dispersa oferece, na verdade, um cuidadoso vislumbre dos processos de trabalho de Paula Fox em que as correspondências entre modos variados proporcionam um estudo da relação entre arte e vida, da maneira que a experiência pessoal pode ser perseguida para fins divergentes por gêneros diferentes. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA E CELSO M. PACIORNIK

STEPHEN BURN É AUTOR DE JONATHAN FRANZEN AT THE END OF POSTMODERNISM (CONTINUUM, 2008)

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