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Paisagem feita de mentiras

Ficção salva a protagonista de Confetes na Eira, que lança a holandesa Franca Treur

Manoela Sawitzki, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2012 | 03h10

Raras vezes surgem notícias sobre estreias literárias logo convertidas em fenômenos comerciais. A holandesa Franca Treur, com cerca de 150 mil exemplares do romance Confetes na Eira vendidos em seu país, conseguiu, aos 32 anos, tornar-se um desses casos excepcionais. A obra chega ao Brasil pela também jovem Livros de Safra, que promete revelar outros talentos contemporâneos dos Países Baixos.

Os méritos do primeiro romance de Treur estão, sobretudo, no desenvolvimento da personagem central e em ter acertado o tom ao descrever em minúcias as contradições do universo rural e religioso da pequena província costeira de Walcheren. Expressões coloquiais contrastam com termos empolados e lugares-comuns surgem com alguma frequência. Mas a romancista, nascida e criada naquela região, consegue imprimir leveza e humor a um ambiente arcaico (onde mulheres de calça escandalizam) e hostil, manancial de equívocos e hipocrisias.

A protagonista Katelijne é a filha do meio da família Minderhoud - única menina entre seis irmãos. O pai, a mãe, a avó e grande parte dos habitantes do lugar são integrantes devotos da rígida Igreja Reformada Holandesa. "Ser de outras igrejas, ainda que reformadas também, é, na opinião do pai, com exceção de morrer sem se converter, a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa."

No trabalho e na fé, as crianças, queiram ou não, são peças ativas da engrenagem. Os mais velhos se dedicam à fazenda. Katelijne ajuda a mãe nas tarefas domésticas, papel que desempenha a contragosto, movida pela possibilidade de extrair disso algum sinal de afeto e reconhecimento. Rina, no entanto, se regala em apontar seus defeitos. Todos são incluídos na rotina de missas sabatinas e leituras bíblicas, que se encarregam de lembrá-los que já nasceram em pecado, e os atos virtuosos não garantirão benefícios no Juízo Final.

O medo desse Deus implacável nem sempre lhes serve de freio. Katelijne logo percebe que seu interesse incomum pelos livros se desdobra numa tendência pecaminosa que, teme, aniquilará qualquer possibilidade de salvação. Com o mesmo ardor que dedica à produção de confetes para a festa de um casamento forçado, ela subverte a realidade monocromática à sua volta inventando mentiras. Só a ficção é capaz de absolver do constante deslocamento. 

MANOELA SAWITZKI É FICCIONISTA, AUTORA DO ROMANCE SUÍTE DAMA DA NOITE (RECORD)

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