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País que resiste ao desastre

Suprima os efeitos da sombra e a beleza fenecerá como uma planta sem água. Para o escritor Junichiro Tanizaki, cujo maior desejo era o de construir uma casa tipicamente japonesa, dessas que têm as portas de shoji (papel translúcido), os resultados dessa empreitada foram no mínimo desastrosos. Ele teve problemas com a iluminação, as portas fechavam mal e, desesperado, Tanizaki apelou para o vidro. O efeito era bastante desagradável e, por causa da luz elétrica, a penumbra da casa "típica" japonesa ficou nos sonhos de Tanizaki. Não foi exatamente esse episódio, contado no livro Em Louvor da Sombra, que levou Marco Giannotti a executar as colagens da exposição Diário de Kyoto, a próxima que vai inaugurar, dia 21, no Instituto Tomie Ohtake. Mas poderia ter sido. De qualquer forma, a questão da transparência é sugerida por outra passagem. Nela, Tanizaki fala do papel japonês como suporte ideal para a pintura, que, no Japão, já nasce amalgamada com a escrita, como lembra o próprio Giannotti.

O Estado de S.Paulo

01 Fevereiro 2013 | 02h06

Para Tanizaki, se fosse um oriental o inventor da esferográfica, ele não teria optado por uma ponta metálica, mas um pincel. Com essa digressão, o escritor queria mostrar que a forma de um instrumento insignificante pode ter repercussões infinitas. Assim, o uso do papel (invenção dos chineses) por ocidentais tem um propósito utilitário que incomoda japoneses como Tanizaki, apegado às tradições. É justamente por respeito a ele que Giannotti usa esse papel em colagens matissianas que fazem lembrar pinturas - como as criações do mestre francês.

Em seu Diário de Kyoto - o livro, não a exposição homônima -, o pintor reflete sobre a busca japonesa de uma relação de harmonia e beleza que contrasta com a violência da natureza no país (ele desembarcou em Kyoto dez dias depois do tsunami que devastou Fukushima, costa leste do Japão, com ondas de até 23 metros, em 11 de março de 2011). "Curiosamente, o primeiro dos sete artigos que publiquei no Caderno 2 era sobre o ato de contemplar um jardin zen, algo paradoxal quando se pensa em ir a um templo em busca da estabilidade enquanto a terra treme". Mas, para quem vive em terreno instável, nada mais natural que se busque a harmonia, conclui.

O diário de Giannotti vem acrescido de uma introdução e um epílogo, no qual faz um balanço de sua experiência japonesa, que foi bastante positiva, segundo sua avaliação. Nele, a ocidentalização do Japão é um dos principais tópicos. /A.G.F.

DIÁRIO DE KYOTO

Autor: Marco Giannotti (Martins Fontes, R$ 60; lançamento dia 21)

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