Pai, filho e a reinvenção criativa do filme falado

É difícil falar de um filme que virou fenômeno. Num período relativamente curto, e optando por um lançamento regional, antes de chegar ao Sudeste, Cine Holliúdy já desembarca em Rio e São Paulo - os principais centros exibidores do País - com a expressiva soma de 450 mil espectadores. Na contracorrente de uma tendência que, visando as classes C e D, instituiu a dublagem de boa parte da produção estrangeira, Holliúdy chega com legendas, e a explicação é simples. O filme é falado em cearensês e apresenta cenas de cearensidade explícita.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2013 | 02h16

Tudo isso já virou marketing e ninguém é louco de dizer que o cinéfilo vai ter uma alta experiência estética. Não é por aí. A riqueza de Cine Holliúdy consiste em dialogar com formas populares. Faroeste Caboclo, de René Sampaio, já fazia isso usando as ferramentas do spaghetti western. Halder Gomes, o diretor de Holliúdy, bebe na fonte do kung fu. É menos sofisticado - mais primitivo? - que Sampaio, que se inspirou na música de Renato Russo. Mas são filmes que dialogam entre si, e com o grande público.

Na base de Cine Holliúdy está uma trama familiar - pai, mãe e filho. O pai é um sonhador que inicia o garoto no seu amor pelo cinema e pelos heróis das artes marciais. Errando pelo sertão - mas um sertão que se moderniza, com o avanço da televisão e do asfalto -, o trio chega a uma cidade, na qual papai tenta abrir um cinema. O pai chama-se Francisgleydisson. Adora o cinema feito de 'mão de pêia', em que o mocinho cobre de porrada os adversários. De que tempo era isso? 'Do tempo em que king kong era soim' - ou seja, algo muito antigo. Apesar das advertências, você não precisa do dicionário de cearensês. De porrada, todo mundo entende.

O que há de belo em Cine Holliúdy é algo que vem desde a estética da paródia das chanchadas da Atlântida. Diabéiss - que diabo é isso (em cearensês)? Contra tudo e todos, Francisgleydisson vai inaugurar seu cinema. Está todo mundo lá - o prefeito, o bando de abestalhados que compõem a massa local. Há um problema com o projetor e a sessão é interrompida. Mas prossegue - o cinema de ação (Hollywood) vira falado (não parado). É maravilhoso. Antes disso, Gleydisson já mostrou ao filho como a macaúba é fundamental na dublagem. Pode até ser que o cearensês seja mais divertido para uma plateia de cearenses. Já virou lenda urbana que, em todo o Nordeste, as pessoas morrem de rir vendo Cine Holliúdy. Aqui, a visão pode ser um pouco diferenciada, mas é emocionante embarcar na viagem desse pai e da forma como ele 'bilota' (vejam para saber o que é) a imaginação do filho.

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