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Luis Fernando Verissimo
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Pai e mãe

Ele tinha 65 anos e um dia surpreendeu a todos com a informação de que estava, finalmente, conseguindo falar com seu pai. Ninguém imaginava que ele ainda tivesse pai. Alguns chegaram a pensar que o contato se dera numa sessão espírita. Mas não, o pai estava vivo. Casara cedo, tinha vinte e poucos anos quando o filho nascera. Por isso mesmo, nunca haviam se entendido muito bem. Não tinham interesses em comum. Não tinham assunto.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2016 | 02h00

*

Na política, eram opostos. O pai reacionário, o filho progressista.

As poucas vezes em que falavam de política sempre acabavam da mesma maneira.

– Vá viver em Cuba – dizia o velho para o filho.

E este:

– Vá viver no século dezenove. 

Depois passavam semanas sem nem se olharem.

*

Mas agora tinham assunto.

– Estou podendo, finalmente, falar com meu o meu pai.

– Sobre o que vocês conversam?

– Remédios.

Comparavam tratamentos. 

– Qual é o seu betabloqueador? 

– Está tomando o que para o colesterol? 

– Experimenta este.

Trocavam hemogramas.

– Sua glicose está melhor do que a minha!

*

o filho contou que era comum ir à farmácia com o pai, de braços dados.

Mãe. Ela contou que o conselho que recebeu da sua mãe, quando se casou, foi “Não seja inteligente demais, minha filha. Disfarce”.

E contou que a mãe lhe dissera que devia o sucesso do seu casamento a uma frase.

– Que frase, mamãe?

– “Não tenho cabeça para essas coisas complicadas, mas...”

A mãe usava a frase como preâmbulo sempre que precisava dizer ao marido o que ele deveria fazer.

Segundo a mãe, para um casamento feliz, preâmbulo é tudo.

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