Pai e filho esse laço estreito e irracional

A Grande Volta privilegia relações em que emoção ganha da autoridade

Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

Só depois de confiar aos ombros das filhas a responsabilidade do governo, o velho rei Lear pode galopar em liberdade pelo território inglês. Na peça de Shakespeare, a alegria dura pouco, mas no breve interlúdio se aninha a ilusão da velhice como uma etapa jubilosa, para os que cumpriram os mandatos da vida cívica e da paternidade. Não há na vida data marcada para encerrar qualquer desses compromissos - e o duplo chamado da profissão e da paternidade é justamente onde se concentra o núcleo de A Grande Volta, peça em que um ator quase aposentado se prepara para voltar ao teatro como o protagonista de Rei Lear.

Na tragédia inglesa, o infortúnio do monarca ecoa na natureza e se espraia sobre a vida dos súditos, enquanto no teatro contemporâneo os escombros invisíveis das relações afetivas e dos fracassos profissionais se amontoam em um processo sedimentar contínuo. Sobre essa diferença se desenha a fluidez da peça do dramaturgo belga Serge Kribus, em cartaz na Faap.

Uma vez que a modernidade fixou o homem comum no centro da cena e renunciou ao final trágico, a representação contemporânea trabalha sobre os elementos mais abstratos como a fatalidade do temperamento, as decepções ocultas e a dorzinha contínua da mágoa silenciosa.

Essa dimensão intimista do conflito dramático é um molde a que a peça se ajusta sem esforço. Conversas entre pais e filhos, desentendimentos familiares vibrando em um diapasão suave que não ultrapassa o cometimento do atrito constante são temas e formalizações usuais no repertório da dramaturgia mundial. Peças desse tipo contornam a ruptura, permitem o tempero da comicidade e não pesam muito sobre a sensibilidade do público. Sem grande apreço pelas novidades da escrita cênica, os elementos sugeridos pelo texto para a construção do espetáculo baseiam-se antes de tudo no trabalho do intérprete e aí reside, na perspectiva dos autores, a atração maior da arte do teatro.

Se há uma finalidade no entrevero entre pai e filho, nesta peça é a de evocar a superioridade da comunicação emocional sobre a autoridade, o respeito e o simples bom senso. Tese simplíssima e universal. Afinal somos todos filhos, ou pais ou as duas coisas ao mesmo tempo e, querendo ou não, desempenhamos fora de casa outros papéis exigentes. Nada disso é lógico. É a esse laço estreito e irracional que a peça de Kribus presta seu modesto tributo de reconhecimento e aceitação.

Extravasando a moldura das ocorrências habituais, há a profissão do pai que se propõe a viver com o filho, momentaneamente desempregado e descasado. Trata-se de um ator semi-aposentado e esse componente excêntrico deve apoiar em parte a composição do intérprete que representa Boris Spielman. No espetáculo dirigido por Marco Ricca, a camada histriônica é aplicada com demasiada generosidade sobre uma personagem que precisa deixar transparecer com o mesmo peso dramático a insegurança diante da velhice e a timidez para a expressão dos sentimentos pessoais. Não é fácil contabilizar, entre nossos atores profissionais, outros intérpretes com o mesmo preparo de Fulvio Stefanini para as sutilezas do verismo. Além do talento - que muita gente também tem e desperdiça - esse ator veterano conservou um instrumental técnico que as escolas aos poucos vão abandonando, mas que é utilíssimo para um tipo de peça que vive da credibilidade das personagens. Todas as suas falas são inteligíveis graças à dicção precisa, perfeitamente ajustada ao volume da voz que soa exatamente como se fosse adequada à situação, e não endereçada à plateia. Em razão desse uso ponderado de tonalidades vocais parece desnecessário carregar nas tintas e bordejar o tragicômico quando Boris Spielman se prepara para exercer seu ofício. Ficaria mais equilibrada a balança entre as duas personagens se o estilo do ator aposentado fosse apenas um tanto fora de moda em vez de francamente risível. Ao fim e ao cabo, não é essencial para a narrativa que o público se sensibilize com os trechos shakespearianos, mas é vital compreendermos que o ator-personagem está à altura de compreender e sentir a dor do rei saxão que vai encarnar no palco.

O filho tenso. Na trama ficcional, Rodrigo Lombardi se encarrega de um rapaz de temperamento explosivo em situação crítica, sendo o segundo termo decorrente do primeiro. Supõe-se, portanto, a agitação física, a tensão na voz que por vezes falseia, explosões intermitentes de raiva entrecortada por alguns berros e, de um modo geral, o desenho de uma figura em estado de tensão extrema.

No espetáculo, contudo, esses traços estão ainda muito colados ao intérprete. É o ator que parece tenso, fatigado, trabalhando arduamente em prol da sua personagem. Não há dúvida de que trabalha bem, de que se trata de um intérprete inteligente e bem preparado, no entanto faz falta certa dose de relaxamento e confiança no mistério que é o nascimento da personagem. É diminuto, hoje, o reino do homem comum e ao seu clamor a natureza responde, no máximo, com uma garoazinha. Esse amesquinhamento, que não é necessariamente triste ou cômico, tem seu modo próprio de expressão que dispensa artistas e público das emoções intensas de terror e piedade.

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