PÁGINAS POR TRÁS DOS FILMES

LUIZ ZANIN ORICCHIO

O Estado de S.Paulo

02 de março de 2013 | 02h10

A editora Amarilys lança os dois primeiros volumes de sua coleção dedicada a romances transformados em filmes. Rebecca, de Daphne du Maurier, foi adaptado para a tela por Alfred Hitchcock em 1940, enquanto O Inquilino, de Roland Topor, ganhou versão cinematográfica de Roman Polanski em 1976.

Há traços comuns entre as duas versões. O primeiro deles é a fidelidade à história, o que nem sempre é o caso quando a literatura encontra o cinema. Pelo contrário: o normal é o diretor, por intermédio do seu roteirista (quando não é o cineasta o próprio autor do script), deformar criativamente o texto para que este caiba nas dimensões da medida cinematográfica. É o que acontece, com frequência, no caso das grandes obras, como Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, que é vertido apenas em parte, como fez Volker Schloendorff (Um Amor de Swann) ou Raul Ruiz com O Tempo Reencontrado. Adapta-se apenas um dos sete volumes porque seria impossível abarcar a obra inteira. Outros optam pela solução radical, como Rainer Werner Fassbinder, que fez uma gigantesca versão cinematográfica de Berlim Alexanderplatz com 16 horas de duração.

Nos dois casos em questão, o problema era mais simples. Hitchcock, como conta em seu livro de entrevistas a François Truffaut (Companhia das Letras), recebeu a encomenda pronta do produtor David O. Selznick quando esteve nos EUA. Fora chamado a Hollywood para dirigir um filme sobre o Titanic, proposta que o encantava. Lá chegando, recebeu a notícia de que o projeto havia mudado e iria filmar Rebecca. Quem escrevera o roteiro era o dramaturgo Robert Sherwood, que, de acordo com o cineasta, manteve-o bastante fiel ao texto.

Rebecca é um romance gótico extemporâneo, no qual uma mocinha ingênua (Joan Fontaine) se apaixona por um viúvo aristocrático (Laurence Olivier), atormentado pela memória da mulher, morta aparentemente num acidente de barco. O casal, que se conhecera em Montecarlo, vai morar na propriedade da família do marido, um castelo lúgubre chamado Manderlay. Lá se encontra a governanta Mrs. Danvers (Judith Anderson), que cultua, com devoção fanática, a memória da antiga patroa. A história toda é marcada por essa personagem que não aparece, a morta chamada Rebecca. A adaptação deu a Hitchcock seu único Oscar de melhor filme.

Apesar da manifesta má vontade com o projeto que lhe fora imposto, Hitchcock impôs a Rebecca - no Brasil, A Mulher Inesquecível - o seu "touch" inconfundível. Os longos planos de Manderlay, seu mistério, o jogo de luz e sombra, traçam um panorama progressivamente aterrador. Dá também à história um sentido de investigação policial e a povoa de personagens pérfidos. Algumas passagens são de arrepiar, incluindo o desfecho vibrante e catártico, com as memórias lambidas pelas chamas, o que muito lembra o de Cidadão Kane, de Orson Welles, seu quase contemporâneo.

Com a adaptação de O Inquilino, de Roland Topor, Polanski lida com um motivo semelhante ao de Rebecca - as ações do seu protagonista são, em boa medida, determinadas por uma personagem ausente. Aqui, ela é uma certa Simone Choule, que, sem que ninguém saiba o motivo, se jogou do quarto andar de um edifício em Paris. Como consequência, está internada em estado grave e o seu apartamento ficará vago. Basta que morra. O candidato a locatário, Trelkovsky (interpretado pelo próprio Polanski), inicia as tratativas com o proprietário do imóvel, mas, antes da mudança, vai visitar Simone no hospital, onde conhece Stella (Isabelle Adjani), a sedutora amiga da suicida.

Esse é o início do pequeno romance (136 páginas), que nos revela um escritor sintético, pouco conhecido no Brasil. Topor, aos poucos, conduz seu personagem (e o próprio leitor) por um caminho tortuoso em que a paranoia se mescla ao clima fantástico. Nunca se sabe ao certo se as coisas estão acontecendo de verdade ou se passam apenas na imaginação doentia do personagem. Narrado em terceira pessoa, o livro propõe que se acompanhe o personagem rumo a uma progressiva perda de identidade.

Sentindo-se perseguido pelos vizinhos, que reclamam de ruídos no apartamento, logo Trelkovsky se julga alvo de um complô. A vigilância entre as pessoas, a intolerância do proprietário e da concierge, a obsessão com o barulho por mínimo que seja, são fatos ligados ao folclore das relações humanas nos velhos prédios de Paris. Quem não os viveu pode conhecê-los, por exemplo, através das vívidas descrições de Julio Cortázar em O Jogo da Amarelinha.

Com esse ponto de partida, Topor visa a algo mais amplo, a saber, o mal-estar do indivíduo, a sua despersonalização, ainda que viva em uma sociedade aberta e afluente. Nessas condições, parece sempre mais difícil manter intacto o trabalho autônomo da mente em terreno inóspito. Visa, também, a alvos mais distantes e ambiciosos, como as questões da identificação com um outro que se desconhece (mote cortazariano, também) e, por fim, o tema do duplo, o Doppelgänger, obsessão permanente dos criadores; o outro de mim mesmo, que pode me destruir. É nessa estrada de progressivo estilhaçamento que caminha a frágil personalidade de Trelkovsky.

Com O Inquilino, Polanski completa a sua "trilogia do apartamento", iniciada com Repulsa ao Sexo e O Bebê de Rosemary. Seu talento para dotar esses ambientes fechados de uma estranha e palpável presença é impressionante. Os espaços ganham vida própria, são opressivos, sente-se quase seu cheiro. São personagens da história, tanto como os pobres seres humanos que se dilaceram em seu interior.

REBECCA - A MULHER

INESQUECÍVEL

Autor: Daphne du Maurier

Tradução: Mariluce Pessoa

Editora: Amarilys

(448 págs., R$ 49)

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