Páginas escassas e também sem fim

Pedro Páramo, de Juan Rulfo, parece influenciar mesmo quem não o leu

Ronaldo Correia de Brito, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

Juan Rulfo bem poderia ter escrito Não Mora Mais Ninguém, poema em prosa do peruano César Vallejo, pela maneira semelhante como lida com os vivos e os mortos. Vallejo afirma: "O lugar por onde um homem passou nunca mais será ermo. Somente está solitário, de solidão humana, o lugar por onde ainda nenhum homem passou. Todos de fato deixaram a casa, mas na verdade todos continuam dentro dela. Não, não é a lembrança deles, são eles mesmos que ficam." Com a mesma fatalidade de quem não se desvencilha da memória e do passado, Rulfo criou uma obra inquietante, silenciosa, em que as vozes de cada história narrada soam como se fossem a nossa própria voz.

Romance ou novela, como preferirem chamar, Pedro Páramo influenciou gerações de escritores latino-americanos, mesmo os que nunca o leram. Algo parecido ao que aconteceu na Rússia com O Capote, de Nikolai Gógol. Segundo Dostoiévski, toda literatura russa posterior a Gógol é filha dessa narrativa meio absurda, meio kafkiana, a história de um homem que perde o seu capote e na tentativa de encontrá-lo se extravia em meio à burocracia.

Atribui-se a Rulfo a paternidade do realismo mágico, também conferida a Alejo Carpentier. Mas é bem distinta a atmosfera onírica de Pedro Páramo daquela que consagrou Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão. Em Pedro Páramo, os mortos falam e caminham, afigurando-se mais reais e tangíveis do que os vivos. Eles parecem ter a função de extraviar os sobreviventes de Comala, lugar estranho imaginado por Rulfo, esfumaçado e poeirento, onde o tempo possui outra medida e as vozes e lamentos das pessoas brotam de abismos.

Para desencaminhar-se nesse inframundo, um filho de Pedro Páramo se desloca na companhia de um tropeiro, realizando o desejo da mãe de que ele conheça o pai que o gerou e pise a terra de Comala, de onde ela saiu para nunca mais voltar: "Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo. Minha mãe que disse. E eu prometi que viria vê-lo quando ela morresse."

Ao final da leitura, nos perguntamos se Comala existe de verdade. Se Pedro Páramo é apenas o espectro de um poder insano e absoluto, que se arruína e leva consigo as pessoas em volta, ou se é um homem que parece nada temer, mas que se assombra com a noite e seus fantasmas. Sem resposta, repetimos as mesmas perguntas a cada nova leitura desse livro infinito e único, apesar de suas páginas tão escassas.

RONALDO CORREIA DE BRITO, ESCRITOR, É AUTOR, ENTRE OUTROS, DE GALILEIA (ALFAGUARA)

PEDRO PÁRAMO

Autor: Juan Rulfo

Tradução: Eric Nepomuceno

Editora: Record

(400 págs., R$ 47,90)

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