Páginas em branco e preto

Com a Copa quase dobrando a esquina, Eugene Henderson chegou no momento apropriado. Ele não joga futebol, mas viveu uma grande aventura africana. Henderson é "o rei da chuva", do homônimo romance de Saul Bellow, agora traduzido pela Companhia das Letras. Milionário criador de porcos, Henderson fingia ser feliz com a segunda mulher e os filhos. Atormentado pela voz do id, que todas as tardes insistia em lhe dizer "Eu quero! Eu quero! Eu quero!", um dia largou tudo e se mandou para a África.

SERGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

Não foi para lá com uma missão, como o conradiano Marlow, nem para caçar, limpar o fígado e queimar gorduras, como um personagem de Hemingway, e sim à procura de uma humanidade mais autêntica e de um novo sentido na vida. Seu racionalismo e pragmatismo se chocam com a "autenticidade" dos nativos e revelam-se inócuos para sanar as carências básicas das comunidades locais, frustrações que só supera depois de conhecer e tornar-se íntimo do rei Dahfu, chefe tribal com educação europeia e voraz apetite intelectual. Os dois conversam de igual para igual, como Bellow conversaria com um pensador africano. Trocando ideias e mesmo banalidades com Dahfu, Henderson chega mais perto das respostas de que precisava para retornar, renovado, à sua civilização.

Dahfu é um sucessor ficcional do imperador Seth inventado, três décadas antes, pelo britânico Evelyn Waugh, no romance The Black Mischief. Inspirado no abissínio Haile Selassié, Seth também tinha um Henderson a seu lado; no caso, um ex-colega de Oxford chamado Basil Seal, convocado para ajudá-lo na infrutífera tarefa de modernizar o fictício reino de Azania, uma ilha da costa leste africana irreversivelmente condenada ao marasmo. Na África ficcional, todos os líderes esclarecidos, déspotas ou benévolos, cresceram ou se formaram na Europa e na América. O coronel Hakim Félix Elleloû, soba islâmico e marxista da imaginária Kush, narrador de The Coup, de John Updike, estudou nos Estados Unidos e passa a impressão de haver lido todos os clássicos da literatura francesa.

O romance de Bellow foi publicado em 1959, quando a África ainda era um território literário estrangeiro, uma insondável selva colonizada pelo imaginário de brancos europeus e americanos, pelo Tarzan de Rice Burroughs, o Allain Quatermain de As Minas do Rei Salomão, o Marlow e o Kurtz de No Coração nas Trevas, os voltairianos personagens de Waugh, o Francis Macomber de Hemingway, o Mister Johnson de Joyce Cary. Não tem a mesma densidade do clássico de Joseph Conrad, nem o mesmo encanto de Out of Africa, de Isak Dinesen, mas seu protagonista é uma das criaturas mais cativantes que o autor criou sem se basear na figura de um amigo, vale dizer, só inspirado em si próprio, embora seja difícil imaginar Bellow trocando Chicago por Baventai e arriscando-se a morrer de uma gangrena a contemplar as neves do Kilimanjaro, como Harry, o aventuresco escritor de Hemingway.

Bellow teve uma relação meio tensa com os negros. Não era racista mas não se sentia benquisto por eles. Fez por onde. Até gente branca e amiga reagiu negativamente quando ele, com sua proverbial incorreção política, pôs em dúvida a possibilidade de que exista ou ainda esteja para nascer "um Tolstoi zulu". Felizmente, nenhum dos ofendidos sequer ameaçou repetir com ele o constrangedor ajuste de contas a que um batedor de carteiras negro, ativo no metrô de Nova York, submete Arthur Sammler, no primeiro capítulo de Mr. Sammler"s Planet. De todo modo, a existência de um Chekhov iorubá já foi constatada na Nigéria, Wole Soyinka, e até reconhecida pela Academia Sueca.

Ao fazer, anos atrás, um balanço crítico da África que nos legaram Haggard & cia., a escritora negra americana Toni Morrison tratou Bellow com merecida indulgência, sem no entanto fechar os olhos para os seus desvios paternalistas, típicos, segundo ela, da visão estereotipada e metaforizante que da África têm todos os escritores adventícios, inclusive aqueles que lá viveram um bom tempo, como Haggard, Karen Blixen (Isak Dinesen) e Elspeth Huxley, ou pelo continente viajaram bastante, como Waugh. Sempre um pano de fundo, exótico, misterioso, ameaçador, simultaneamente selvagem e pura, irracional e sábia, incoerente e corrupta, nem nas melhores e mais carinhosas narrativas estrangeiras seus negros deixaram de ser olhados de cima para baixo, quando não pejorativamente comparados a elementos da fauna e da flora locais, como acontece com os gentis kikuyus de Out of Africa.

Retratada por autóctones brancos (Nadine Gordimer, J.M. Coetzee) e negros (destaque para o nigeriano Chinua Achebe, autor de O Mundo se Despedaça, que se decidiu pela carreira de escritor após ler e irritar-se com o "superficialismo e o paternalismo" de Mister Johnson, a magnum opus africana do irlandês Joyce Cary, publicada em 1939), uma nova África se impôs no mundo literário desde que o rei da chuva de lá voltou. Antes mesmo de sua partida para a terra natal de Lorde Greystoke, uma voz dissonante já se fizera ouvir na Europa: a do guineano Camara Laye, que em 1954 publicou, em Paris, Le Regard du Roi, que nunca li, mas que Toni Morrison e outros leitores confiáveis reputam ser uma histórica reviravolta na maneira de olhar e ser olhado pelos africanos, sejam eles reis ou plebeus, educados fora ou apenas nas savanas.

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