Páginas do país passado a limpo

Foi somente às vésperas do 10.º aniversário do fim da ditadura militar, nos últimos dias de 1994, que os brasileiros puderam enfim ter acesso a parte dos documentos que restaram daquele período. A abertura dos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) - total em São Paulo e parcial em outros Estados -, aliada à criação de associações que buscam reconstituir os fatos daquela época, ao interesse da academia e da imprensa e ao distanciamento no tempo dos que lutaram pelo fim do regime e sobreviveram a ele resultaram num fenômeno editorial: o lançamento de uma série de livros de ficção e não ficção que retratam o período militar a partir de diferentes recortes.

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2011 | 03h08

Só no segundo semestre deste ano foram publicados no Brasil pelo menos 10 títulos sobre o assunto. Outros tantos estão sendo escritos com previsão de lançamento em 2012. Depois de sancionada a lei de criação da Comissão da Verdade, na semana passada, a expectativa é de que novas informações venham à tona - e encontrem o mercado editorial mais aberto do que nunca para esse tipo de publicação.

A historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, que já teve muita dificuldade no passado para lançar obras centradas no período de vigência da ditadura, conta que hoje tem sido procurada por editores que ficam sabendo dos projetos de pesquisa em torno do tema que ela orienta. "Além disso, quando procuramos as editoras percebemos que há certo entusiasmo em receber esse material", comenta. Três livros organizados por Maria Luiza serão publicados no anos que vem. Pela Ateliê saem os dois últimos volumes da trilogia História da Imprensa Confiscada - Panfletos Subversivos e Biblioteca dos Livros Proibidos. Já a Lazuli e a Companhia Editora Nacional lançam Mulheres Subversivas, Mulheres Fora da Ordem.

Mas, ao contrário do que se poderia supor, não são apenas editoras de pequeno e médio porte ou reconhecidamente de esquerda que se mostram interessadas em apostar cada vez mais no filão político. O Grupo Record, por exemplo, que lançou este ano a biografia do ex-presidente João Goulart (1919-1976), de Jorge Ferreira, já em sua segunda edição, aposta agora na história de Jânio Quadros (1917-1992). O livro está sendo escrito pelo jornalista Augusto Nunes e será publicado em maio. Doce Gabito, de Francisco Azevedo, que tem como personagem a garota Gabriela, nascida em 1967 e criada clandestinamente pelo avô no Morro Santa Marta depois da morte dos pais no Araguaia, é a aposta da editora em ficção e sai antes da biografia de Jânio - está previsto para março.

A guerrilha do Araguaia também estará presente no livro do jornalista Leonêncio Nossa, do Estado, que a Companhia das Letras planeja para maio. O título provisório é Curió. No segundo semestre, chega às livrarias, pela mesma editora, a biografia de Carlos Marighella (1911-1969), escrita pelo também jornalista Mario Magalhães.

A Benvirá, que lançou este ano 1961 - O Brasil Entre a Ditadura Militar e a Guerra Civil, de Duda Hamilton e Paulo Markun, já garantiu o direito de publicar, no ano que vem, o próximo trabalho de Markun - Brado Retumbante: Do Golpe às Diretas. Para o diretor editorial Thales Guaracy, o fato de o primeiro título já ter vendido 23 mil dos 25 mil exemplares impressos - chegou a ser adotado pelo programa Biblioteca do Professor, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro - mostra que vale a pena o investimento nessa direção.

"Há uma valorização da memória da ditadura agora. De 1985 a 19995, vivemos um momento ainda muito próximo dos fatos; as pessoas estavam machucadas e não queriam falar", comenta Maria Luiza Tucci Carneiro. Para o jornalista Paulo Markun, a ditadura já está distante o suficiente e por essa razão a questão deve voltar a ser examinada. "Além disso, tem muita gente daquela época viva por aí e é possível que essas pessoas tenham guardado arquivos para se precaver", acredita Markun. "E um dia Laurentino Gomes vai chegar a 1964", aposta Markun, referindo-se ao autor de 1808 e 1822.

Responsável por explicar em uma linguagem acessível a chegada da família real ao Brasil e a independência, Laurentino diz que não. "A ditadura militar já mereceu uma obra espetacular de Elio Gaspari e meu objetivo, por enquanto, é ficar no século 19."

Por falar na série de Gaspari sobre a ditadura, Otávio Marques da Costa, editor da Companhia das Letras, conta que os dois primeiros volumes - A Ditadura Envergonhada e A Ditadura Escancarada (2002) - venderam, cada um, mais de 100 mil exemplares.

"Essa é a nossa história e podemos publicar com consciência de causa", diz Luciana Villas-Boas, diretora editorial do Grupo Record, dono desde 2000 da editora Civilização Brasileira, que teve importante papel de resistência. Apesar de considerar que pouco foi publicado sobre a história do Brasil nos últimos 20 anos, Luciana vê esforços em preencher essa lacuna editorial.

O historiador e ex-editor na Fundação Perseu Abramo, Flamarion Maués, é mais crítico nesta análise: "Há muitos grupos de estudo e grande produção sobre o período, mas uma pequena parte disso vira livro e o resto fica restrito às universidades".

Para sua dissertação de mestrado defendida na USP, ele estudou justamente a atuação das editoras no período da ditadura militar e descobriu pelo menos 40 casas editoriais que se propuseram, entre 1976 e 1985, a produzir livros políticos e a tentar interferir na realidade do País. Muitas delas fecharam por má gestão ou por problemas econômicos ao fim do período. Outras, como a Global, Brasiliense e Paz e Terra, diversificaram a linha editorial. Hoje, ele destaca a Boitempo, Expressão Popular, Sundermann (PSTU) e Fundação Perseu Abramo (PT) como herdeiras daquela tradição.

Ficções. Bernardo Kucinski, autor de livros políticos de não ficção, acredita que a publicação de obras que retratam o período da ditadura tenha duas fases. "Já vivemos a fase do aparvalhamento e da indignação. Agora estamos numa fase mais subjetiva e de reflexão, em que procuramos ver os efeitos daquilo que passou."

Kucinski acaba de enveredar pela ficção para relatar no romance K. (Expressão Popular) a busca de um pai por sua filha desaparecida. Desprezando livros e jornais, o autor escreveu sua obra confiando apenas na memória. "Foi muito sofrido porque essa história está dentro de mim há tempos", comenta. Não se trata de um livro biográfico, garante. Afirma também que não teve a intenção de fazer política. "Eu só quis fazer literatura e tirar isso de mim."

K. é um bom exemplo de livro que poderia contar para as novas gerações um pedaço da história que elas ignoram. Nessa mesma linha, foi lançado na última quarta-feira Amores Exilados (Record), de Godofredo de Oliveira Neto. Trata-se de uma nova versão de Pedaço de Santo (1997), com algumas mudanças na trajetória dos personagens, além do título, alterado para ficar mais parecido com o roteiro do filme que o diretor e escritor Marco Simas tenta produzir. Em fase de captação de recursos, o longa terá Thiago Lacerda no elenco. A história se passa na França, durante o exílio de dois brasileiros. O autor também insiste que não quis deixar um documento histórico, "só reviver ficcionalmente aquela época". O escritor se surpreende ao ver que, 15 anos depois do seu lançamento, o romance tem muito maior receptividade.

O jornalista Sílvio Lancellotti escolheu o emblemático 13 de outubro de 1977 para situar seu novo livro, Em Nome do Pai dos Burros (Global). Naquele dia, o País viu a queda de Sylvio Frota, ministro linha-dura de Ernesto Geisel - e também a vitória do Corinthians no campeonato paulista após 23 anos. Os dois episódios se entrelaçam à história do protagonista. Recém-publicados também foram títulos como O Cofre do Dr. Rui (Civilização Brasileira), de Tom Cardoso, e As Capas Desta História (Instituto Vladimir Herzog), de Carlos Azevedo, Marina Amaral e Natalia Viana (Manifesto), entre outros. Quem esperar até 13/12, conforme noticia a coluna Babel desta edição (leia à página S2), encontrará nas livrarias A Vida Quer É Coragem - A Trajetória de Dilma Rousseff (Sextante), de Ricardo Amaral. A obra deve puxar para o alto a vendagem de títulos que, de algum modo, revisitam a ditadura. E, com isso, consolidar, no mercado editorial, aquilo que no plano político já está se realizando: um movimento para tirar definitivamente das trevas o passado recente do País.

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