Páginas de um senhor das letras

Nascido em Paris e com carreira desenvolvida nos Estados Unidos, George Steiner se firmou como referência da crítica literária, no rastro de intelectuais como T.S. Eliot e Edmund Wilson

Danubio Torres Fierro,

23 de novembro de 2012 | 19h00

Anos atrás, na Cidade do México, George Steiner deu uma série de conferências, uma particularmente no Palácio de Belas Artes, que estava lotada de ouvintes entusiastas. Steiner (miúdo, com o braço esquerdo paralisado, com um leve sorriso nos lábios) estava hospedado no Hotel Camino Real, um elegante edifício projetado pelo arquiteto Ricardo Legorreta.

Uma tarde, com um amigo comum, saímos para caminhar com ele nos arredores. Já na rua, em uma esquina próxima, Steiner parou de repente e comentou: “Estou me sentindo como em minha casa”. A razão desse reconhecimento inopinado era que ele havia lido as placas com os nomes das ruas e descoberto que se chamavam Leibnitz, Shakespeare, Kepler, Hegel, Schiller. Esses nomes, o que significavam e irradiavam, configuravam de fato a casa matriz de Steiner, e encontrá-los ali, em um trecho do Distrito Federal do México, transmitia uma sensação de pertencimento e de uma pátria compartilhada.

Algo como dar um passeio pelo Bairro Latino de Paris, com suas prestigiosas reverberações. Em A Ideia de Europa, Steiner escreveu: “Existe uma relação essencial entre a humanidade europeia e sua paisagem”. E, para explicar a sentença, acrescentou: “As ruas, as praças percorridas a pé pelos homens, mulheres e crianças europeus trazem, centenas de vezes, nomes de estadistas, militares, poetas, artistas, compositores, cientistas e filósofos”. Daí sua surpresa e admiração ao deparar-se naquele momento com essa mesma paisagem, como se se tratasse de uma caixa de ressonância dos lugares de uma civilização.

O episódio mexicano é revelador. Steiner representa, no mundo intelectual de hoje, e com uma trajetória profissional que deslancha nas décadas do pós-guerra, uma das figuras dotadas de maior autoridade e prestígio. Quase cancelado o ciclo da influência francesa no universo das ideias (de Claude Lévi-Strauss a Michel Foucault e de Roland Barthes a Jacques Derrida), e muito reduzido o círculo dos literatos italianos (de Mario Praz a Claudio Magris e de Giorgio Agamben a Umberto Eco), Steiner mostra-se como a continuidade da rica tradição crítica anglo-saxônica que, no arco da história literária contemporânea, vai de Mathew Arnold e T.S. Elliot a Lionel Trilling e Edmund Wilson. 

Desse lugar privilegiado, ele sobreviveu à moda e aos modismos, sem render-se às seduções do oportunismo ou aos chamados do aqui e agora da conjuntura. Mostra-se também como algo mais, que o episódio mexicano destaca: ele manifesta, em seus já numerosos livros, a vontade deliberada, afirmativa, de ser um europeu e, por extensão, o membro (o expositor, difusor e defensor) de uma cultura e de uma civilização. Nesse sentido, a ideia da Europa é explícita: “paisagem humanizada por pés e mãos”, Europa “é o lugar onde o jardim de Goethe quase colide com Buchenwald, onde a casa de Corneille é contígua à praça na qual Joana d’Arc foi horrivelmente executada”; e com um acento mais dramático: “um europeu culto fica preso na teia de aranha de um in memoriam ao mesmo tempo luminoso e asfixiante”.

Nascido em Paris, Steiner fez carreira nos Estados Unidos e, a certa altura, regressou ao velho continente para ali residir até este momento. Dito isso, é necessário um esclarecimento: a definição que melhor cabe a Steiner é a de ser – talvez precisamente por ser um europeu militante – um cosmopolita – um extraterritorial, como indica outro título seu, do qual se conhece uma versão espanhola publicada em 1972. Poliglota (em Depois de Babel ele ensaia a história da tradução como atividade que excede toda ambição de uma geografia ou de um império), sua curiosidade intelectual é vasta e seu eixo articulador é duplo: por sua ascendência cultural, Steiner é um homem da civilização ocidental e, por sua ascendência ancestral, é judeu.

Suas cidades capitais são Atenas/Roma e Jerusalém. “Ser europeu”, escreve, “é tratar de negociar, moral, intelectual e existencialmente, os ideais e as asserções rivais, a praxis da cidade de Sócrates e da de Isaías.” É um pertencimento que, como veremos adiante, marca muito suas opiniões e suas ideias. Em Os Livros Que Nunca Escrevi, publicado em espanhol em 2005, há um ensaio, Sion, que esclarece o vínculo entre o latino e o judeu, entre o universalismo e a tribo. Eivada de contradições combinadas, essa ligação é um dos motivos recorrentes nas preocupações de Steiner. Ele está consciente dessa sua característica, que assume, e, diríamos, aceita suas virtudes e seus defeitos, impulsos e freios.

Em inglês, a palavra scholar designa um erudito, um especialista. Em francês, a expressão homme de lettres refere-se a quem abarca amplamente diferentes disciplinas que se organizam em torno da atividade do espírito. Steiner pertence às duas categorias. Ele privilegiou ambas: é o exemplo do rigor que deve ser aplicado à literatura comparada e do estatuto interior que, em suas manifestações, deve tentar tocar a alma. Que essa enumeração de bondades não propicie uma imagem parcial ou equivocada de Steiner. Ele não é pedante nem retórico. É, sem dúvida, integrante do que se conhece como a República das Letras e, muito especialmente, um crítico das ideias literárias e culturais que de maneira deliberada, numa etapa do seu desenvolvimento, decidiu tornar-se acessível.

Por isso, inicialmente, nos anos 50, integrou a redação da revista The Economist e mais tarde, entre 1967 e 1997, escreveu regularmente críticas e resenhas para The New Yorker. As duas revistas compartilham, apesar de suas diferenças, uma vertente comum: destinam-se a um leitor mais ou menos culto e sofisticado, de olhar curioso, que é capaz de reconhecer os subentendidos, as piscadelas e cumplicidades, e com o qual se comunga um pacto não escrito, mas facilmente reconhecível. Entre os jornalistas de The Economist (que é uma referência do mundo político com inclinações liberais) e entre os de The New Yorker (que é o nervo global) há uma proposta semelhante: oxigenar mediante a análise a circunstância do presente, esclarecer a evolução e a dinâmica das ideias (e da sensibilidade) que conformam um determinado clima histórico e social tentando ser, de modo forte, um homem do seu próprio tempo.

São precisamente esses os traços que articulam e dominam Tigres no Espelho e outros textos da revista The New Yorker, cujo titulo original é Steiner at the New Yorker (2009) e chega agora ao Brasil. É nessas páginas que começa a se projetar, na figura de Steiner, mais uma persona da qual o livro constitui uma pontual ilustração: a do crítico que entrega as cartas que circulam entre um autor e seus leitores, que agita as águas entre uns e outros e que acaba se tornando secretário de Atas da República das Letras. É, portanto, o retrato de um intérprete e um intermediário. E algo mais, que contribui para definir um papel ao mesmo tempo perigosamente ingrato e estimulante: o do crítico que, com excessiva frequência, recebe as bofetadas e também o do crítico que exerce, de suas tribunas, uma considerável dose de poder intelectual. 

A respeito, existe um dado recente bastante revelador. Em Joseph Anton, as (cínicas, no sentido menos pejorativo da palavra que seja possível imaginar) memórias de Salman Rushdie, Steiner – que jamais gostou dos romances do escritor condenado à morte por uma fathua iraniana –, aparece duas vezes e em ambas é tratado com certa condescendência zombeteira.

Tigres no Espelho reúne textos de diversos temas publicados em The New Yorker – desde os vigores regeneradores da cidade de Viena dos fins do século 19 às primeiras décadas do século 20 e aos labirintos implacáveis do jogo de xadrez. Os autores estudados são os que marcaram uma época (Alexander Solzhenitsyn, Jorge Luis Borges, Walter Benjamin, Elias Canetti, George Orwell, Bertolt Brecht) ou que, de um modo ou de outro, modificaram a visão do mundo (Claude Lévi-Strauss, Bertrand Russell, Noam Chomsky, Samuel Beckett, Arthur Koestler, Philippe Ariès).

O que surge desse panorama e desse elenco de protagonistas é a cartografia intelectual – e, também, moral e espiritual – de um momento preciso da história contemporânea. Ali são reconhecidos – graças à mão de um narrador eficaz e de uma inteligência astuta, cuja tensão muscular corre sem desfalecer – os sintomas de uma experiência (os dados que apontam para uma transformação), são questionadas as propostas éticas e estéticas que se encontram em certos livros (as claves e as chaves que conduzem a variações até então não explicitadas) e ajuda-se a compreender e estudar um novo sistema para enfrentar o existente (os signos e os sinais que transmitem o que até então estava oculto ou inédito).

O olhar de Steiner é penetrante, intuitivo, veemente em seu desdobramento racionalista e sem concessões em seu afã de descobrir a essência de um pensamento ou uma personalidade. Steiner sabe que as aparências enganam e que os fundos duplos ou triplos estão aqui e também lá. O espião britânico Anthony Blunt, que traiu seu país desde os claustros prestigiosos da Universidade de Cambridge, “é um agente duplo para consigo mesmo, um traidor de si mesmo”, e Simone Weil é vista como “a mulher filósofa de categoria com um inquietante talento para a autoexpulsão”.

Na leitura de Tigres no Espelho, chegamos a um momento no qual uma escrita forte e um método interpretativo preciso levam a descobrir que a literatura é, essencialmente, a construção de uma consciência, e que ler implica, além da tradução de um código, a façanha maior de ler a si mesmo posta em prática por um leitor atento. É assim que, trilhando esses caminhos, em grande parte das páginas do livro ergue-se a arquitetura, dura e concreta, e ao mesmo tempo cristalina e transparente, de uma pedagogia e uma didática. 

Por essas razões, os leitores de The New Yorker mostraram, por três décadas, sua gratidão a Steiner. Mais ainda: em Tigres no Espelho serpenteia uma espécie de declaração de princípios e até a exposição de uma arte poética, na qual é valorizada a busca da verdade e a responsabilidade como motores do ato de conhecer em um século 20 tão marcado, como foi, pela violência e pela “lógica da aniquilação”.

Não devemos esquecer, a este ponto, que este século foi o da “trahison des clercs” e das capitulações dos “maîtres à penser”, um assunto no qual Steiner (o Steiner que nunca arrisca uma opinião ideológica e que mantém suas ideias políticas à margem) insiste e se aprofunda.

George Steiner é, indubitavelmente, dono do ânimo e da decisão de um fundista: desde os seus primeiros livros até o último e recente The Poetry of Thought. From Hellenism to Celan (2012) está expressa, certamente, uma vocação, mas também uma vontade. Nem uma nem outra desfalecem nem se fazem sombra. Mas vocação e vontade estão, de fato, diríamos lastreadas pelo judaísmo. Para Steiner, ser judeu significa construir e/ou superar, a cada passo e em todas as encruzilhadas, um filtro e/ou uma alfândega. Diríamos que ele não consegue com o corpo, com o corpo como física e metafísica: sua iracúndia e sua perplexidade, sua angústia e sua luz nunca estão em equilíbrio; são forças que estão num sobe e desce em que a aceitação e a negação dialéticas continuamente somam e subtraem e continuamente são fiéis à origem.

O discurso de Steiner se escurece e se ilumina nesses trânsitos transidos. Assim, a arcana tradição profética encarnada no marxismo, o homem primitivo brasileiro pintado por Lévi-Strauss como um possuído pela fúria contra sua própria lembrança do Éden, o extermínio hitlerista dos judeus (descrito por Albert Speer em Diário de Spandau) como potência maléfica que descobre, “de certo modo tenebroso”, na messiânica coerência do povo judeu, “a metáfora inaceitável de um povo eleito”, são outras tantas estações de uma lógica que busca desenterrar as fontes da constância de uma judeidade peregrina.

Digamos, com todas as letras, que este rasgo de Steiner faz parte de sua persona dramática: em toda ação literária um homem conquista a amizade dos outros mediante a paixão dos seus preconceitos e a coerente estreiteza de seus pontos de vista. Muitos escritores excelentes vivem numa espécie de tensão permanente que lhes permite abordar qualquer tema; persuasivos e audaciosos, possuem uma única identidade. Tal é o caso de George Steiner, segundo o documenta Tigres no Espelho. / TRADUÇÃO DE ANNA MARIA CAPOVILLA

DANUBIO TORRES FIERRO É ESCRITOR, CRÍTICO LITERÁRIO E EDITOR DA FONDO DE CULTURA ECONÓMICA (FCE) NO BRASIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.