Páginas de memória fotográfica

Acostumado a clicar Suassuna durante as viagens, Alexandre Nóbrega, seu genro, lança livro com registros que fez dele

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2011 | 00h00

Em suas viagens pelo Brasil, Ariano Suassuna é diligentemente acompanhado por uma figura especial: seu genro, o artista plástico Alexandre Nóbrega. Mais que uma simples companhia, ele trabalha como agente do escritor, selecionando os convites de palestras, estreias de filmes e peças, organizando entrevistas, cuidando de hotéis e passagens. São dez anos de uma convivência muito próxima. "Para distrair, comecei a fotografá-lo, tanto em cena como nos momentos mais íntimos, e, aos poucos, percebi ter reunido um material muito rico", conta Nóbrega que, depois de uma rigorosa seleção, que consumiu um ano de trabalho, escolheu as imagens que compõem o livro O Decifrador (Editora do Autor), que será lançado no próximo mês. Algumas dessas fotos ilustram esta página e a anterior.

Nóbrega, que já participou de diversas exposições, no Brasil e exterior, com suas pinturas, buscou se desvencilhar do tempo - por conta disso, as fotos não contêm identificação de local tampouco de data. "Se a forma é de um livro, o conteúdo, a matéria - sem quaisquer escritos ou explícita cronologia - é o próprio Ariano, a quem o observador, livre de conceitos senão os de sua própria visão ou seu conhecimento, vai desvendar cada traço ausente para além das margens dessas composições em suas particulares dimensões de espaço e tempo", escreve ele, na introdução do livro. E completa: "As imagens buscam ser completadas com o olhar de quem admira e imagina".

De fato, não há um conceito que norteie a condução do olhar, que tanto flagra o escritor durante suas disputadas aulas espetáculos como (eis aí a fatia mais curiosa) em momentos de descanso. Famoso pelo desconforto em viajar de avião ("Para mim, só existem dois tipos de voos: os tediosos e os fatais", costuma dizer), Suassuna enfrenta atrasos e períodos intermináveis de espera em aeroportos como qualquer mortal: chegou a ser flagrado por Nóbrega totalmente estirado em uma fila de cadeiras de um portão de embarque. Em outro momento, o fotógrafo registrou o relógio de bolso do escritor, que estava cuidadosamente pousado em sua cama.

Nóbrega pretendeu manter o despojamento que marca a trajetória do autor de Auto da Compadecida, especialmente no seu relacionamento com o público. "Talvez só eu mesmo pudesse fazer uma coletânea como essa, em que Ariano é flagrado na vida tão inusitada de homem comum, um esboço de seu universo particular", comenta, na introdução. "Por isso, de alguma forma, esse livro também é um modo, embora direto, de mostrar o meu trabalho com o escritor."

Ariano está em praticamente todas fotos, que revelam também detalhes de sua casa no Recife e das apresentações comandadas pelo escritor pelo interior de Pernambuco, programa de conscientização cultural que comanda como secretário da Cultura. A sequência de imagens permite ainda ao leitor constatar como Suassuna variou o figurino para as aulas espetáculos. Confeccionado pela mesma costureira que bordou o fardão com que tomou posse na Academia Brasileira de Letras, o conjunto resume-se a um paletó esportivo, calça e camisa. No início, dominava a cor branca. Em seguida, o escritor optou pelo creme até chegar ao atual terno e calças pretas e camisa vermelha. "São as cores do meu time em Pernambuco, o Sport Recife", brinca.

No início, Suassuna desencorajava a atitude do genro, considerando-se feio demais para ilustrar fotografias. Com o tempo, ele se acostumou e garantiu mais veracidade às imagens - simplesmente relaxou. "Aqui, a fotografia não se apresenta com grandes pretensões técnicas, tampouco promete uma retrospectiva biográfica", sublinha Nóbrega na introdução. "Sugere, sim, um documentário iconográfico em um ritmo e uma harmonia plástica de composição espontânea. Esses instantâneos constroem um perfil imagético do escritor no qual o espaço e o tema explorados no decorrer da leitura proporcionam ao olhar do espectador um movimento sutil de continuidade."

As artes visuais são muito caras a Ariano. Na juventude, ele também praticou a escultura, a pintura e a música (estudou piano) até se definir pela escrita. Assim, são imagens da literatura que inspiram as iluminogravuras, forma artística que mistura os processos modernos de gravura com iluminuras medievais, que ele mesmo cria e que figuram em seus livros. Uma delas, a propósito, foi usada na capa desta edição do Sabático. Trabalhando artesanalmente, Suassuna cria também a tipologia do texto. E, da mesma forma com que se realiza na música por intermédio dos artistas que o acompanham nas viagens ao interior pernambucano, como Antonio Madureira e Antonio Nóbrega, o autor paraibano sentiu-se recompensado também pelas fotos registradas pelo genro.

Com um material colecionado durante cinco anos de viagens, Alexandre Nóbrega foi incentivado a organizar o livro pela insistência de amigos. Mas só conseguiu viabilizar a publicação depois de um acordo com o Sesc, que vai bancar a edição. A obra será lançada em junho, mês de aniversário do escritor. "Inicialmente, está programado evento no Rio (provavelmente na ABL) e no Recife", conta Nóbrega, que continua fotografando. "Já disponho de material para outro volume."

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